7 de setembro de 2015

VIDAS

O homem estendido na areia despertava a curiosidade de todos os banhistas que iam chegando. 
Uma toalha de praia como lençol amparava-lhe o sono. Cabeça enconchada numa grande mochila, pele tisnada, sapatilhas e chinelos simetricamente alinhados com a toalha, o homem tinha ali passado a noite, pela certa. Ou o que restara da noite! E, pelo jeito, iria ali passar o dia, a dormir. Volta e meia, levantava as pálpebras, a querer dar os bons dias ao sol, mas este não estava para aturar madraços. Logo nesse dia em que tinha decidido ficar mais esperto e queimar tudo onde pousava. Por isso, espetava-lhe os raios e cegava-o e o homem voltava a fechar os olhos e a dormir. 
Eram dez horas da manhã, as pessoas continuavam a chegar ruidosamente e só apetecia saltar para a água. Mas ele continuava estático. Apenas os olhos, que de vez em quando se abriam, descansavam a praia que ficava a saber que ele estava vivo. 
Eis que chegou outro homem e abancou junto de uma mulher ali sentada, pelos vistos uma vizinha. Apercebeu-se que alguém, a pouca distância, dormia inocentemente, apesar do calor. Fixou os olhos naquele ser e, quando este, finalmente, mudou de posição e lhe mostrou o rosto, fez cara de espanto. Tinha acabado de reconhecer aquele “Belo Adormecido”! 
Foi o suficiente para que os dois vizinhos tivessem conversa para toda a manhã. 
- Aquele não é o Fonseca, o filho da D. Juliana? 
- É, pois. Imagino que passou aqui a noite, ultimamente tem sido esta a vida dele! Desde que a coitada morreu e o fundo de desemprego se foi, anda aí aos caídos. 
- O gajo é um cabrão. Tinha a mania que ficava sempre rapaz novo e nunca se convenceu que estava a ir para velho. Com aquela idade a viver em casa da mãe! Tanto que abusou dela! Tinha comida, cama, roupa lavada e o sacana dava-lhe apenas dez euros e ainda ficava à espera de troco. 
- Coitada da velha! O que ela teve de aturar.
- Coitada da velha, mesmo! Mas ela teve culpa, foi ela que o criou assim. Teve o que semeou, por muito que quisesse um filho exemplar. Depois que ele casou, foi viver num meio onde havia muitas solicitações. Bares, casino, pensões… O gajo gastava todo o dinheiro que ganhava em álcool, jogo e putas. A mulher não aguentou. Ninguém merece carregar tal cruz. Desapareceu com os filhos e ele nunca mais os viu. Foi nessa altura que ele deixou o apartamento alugado e se enfiou em casa da mãe.
- E ela? Aceitou-o, assim sem mais nem menos, sem condições? 
- Ela não tugiu nem mugiu, como era seu hábito. Nunca soube dizer não ao filho. E, aos cinquenta anos, ele julgava-se o puto de dezoito que entra em casa a desoras, depois da farra com os amigos, e ela nem dava por isso, ou fazia que não dava. É sempre mais fácil ignorar do que enfrentar. Entretanto, a vida desvairada piorou. E a mãe a alimentá-lo. 
- A velhota não chegou a andar de braço ao peito? Tenho ideia de a ter visto, ao longe, a entrar no talho. 
- Grande cabrão, o Fonseca! Partiu-lhe um braço na noite em que chegou a casa bêbado, depois de ter perdido uma pequena fortuna no casino. Ela tentou impedi-lo de beber mais, quando ele entrou e se agarrou à garrafa de whiskey. Deu no que deu. E deu mais: perdeu o emprego e a pouca dignidade que tinha. 
- Não entendo como ela não o pôs da porta para fora com um pontapé no cu… 
- É filho, não é? Depois que ela morreu e ele perdeu o direito ao fundo de desemprego, vendeu a casa dela para pagar dívidas e anda por aí, sem rei nem roque. O que lhe vale é o verão que está quente e praia é coisa que aqui não falta. O hotel que escolheu tem muitas estrelas!!!! 
… 
O sol anunciou o meio-dia. Abandonei a praia a seu convite. O homem continuava estendido. A conversa, pelos vistos, também se iria estender tarde adentro.

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