15 de maio de 2017

"OPERAÇÃO" FÁTIMA

Eduarda espanta-se. Não se lembra de ver muitas das suas amigas dirigirem-se regularmente a um local de prece. Porém, fotos públicas mostram-nas no meio da “operação” Fátima, repentinamente devotas. 
Ela sabe que os tempos são de incerteza e de medo, de injustiça e de maldade. São tempos de provações. Mas, se o ser humano não acredita em si próprio nem no seu semelhante, como irá a Humanidade mudar e melhorar se espera o milagre, silenciosa e pacientemente?

3 de maio de 2017

SEMANA CULTURAL DA UNIVERSIDADE SÉNIOR DE SANTA MARIA DA FEIRA

À imagem do ano passado, a Universidade Sénior de Santa Maria da Feira está a dinamizar a sua semana cultural com eventos espalhados pelos cafés e restaurantes da cidade, terminando na Biblioteca Municipal no dia 5 de maio.
E, à imagem do ano passado, fui convidada para estar presente numa sessão e registar o momento, com palavras. Coube-me a sessão dedicada aos anos 60. Não poderia ser melhor. Foi na década de 60 que nasci (inaugurei a década, pode-se dizer!) e abri os olhos para a vida.
No final, o texto ficou pronto. Transcrevo-o:

A máquina do tempo vai arrancar. A viagem vai começar numa noite espiada pela lua em quarto crescente. Ao longe, o castelo observa a Taberna do Xisto que, hoje, se transformou e misturou novos sabores, de saberes cruzados.
Um, dois, três… Partida! Destino: anos 60. Cá vamos nós!
Chegamos. Aterramos.

Em Portugal, cresce a desilusão perante um regime ditatorial.
Depois de uma guerra mundial, cresce a revolta perante uma guerra colonial.
Cresce a frustração.
Cresce a contestação contra um Estado parado, vazio, alheado do mundo onde grassa a desigualdade.
“Mas há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. Não à ditadura, não à ignorância, não a qualquer forma de tirania. E muitas foram as formas de dizer não. Com palavras de contestação, mas forradas de poesia. Com pincéis e tintas (por vezes mais eloquentes do que as palavras). Com música interventiva mais certeira do que balas no combate à injustiça. Com a moda provocatória. Com danças energéticas. Com manifestações hippies num colorido e relaxado festival Woodstock. “All we need is love”, “Peace and love”, “Make peace not war” são gritos de paz porque a guerra não é bem-vinda. Nem hoje, nem amanhã. Nem nunca!
“Quantos caminhos tem um homem de percorrer para que lhe chamem homem? Quantos anos podem alguns existir antes que lhes seja permitida a liberdade?” Perguntas feitas pelo recém Nobel da Literatura Bob Dylan. Muitos caminhos foram percorridos e muitos anos passaram para que a liberdade nos fosse permitida.
Hoje, aqui e agora, viveram-se momentos impossíveis de serem vividos sem liberdade, esse bem precioso que nos permite respirar, correr e gritar aos quatro ventos. E esta gente da Universidade Sénior de Santa Maria da Feira correu, cantou, dançou para trazer até nós uma época tão rica em cultura, apesar de, ou, talvez, devido à ditadura e à consequente contestação. Monstros consagrados vieram até à Taberna trazendo na bagagem o seu saber.
Cinquenta décadas depois, vivemos dias frenéticos, mas, hoje, não fomos derrotados pela pressa, derrotamos a pressa. Revivemos momentos. E nem foram precisos charros nem máscaras. Porque há gente que sempre lutou e gente que continua a lutar, contra ventos e marés. Assim, deixo a minha homenagem a todos, eles e elas, gente da Universidade Sénior, num texto à moda de Ana Hatherly, mulher da cultura portuguesa em destaque nos anos 60.

Esta Gente
O que é preciso é gente
gente com garra
gente que tenha garra
que mostre a garra

O que é preciso é gente
gente que não seja malevolente
nem indolente
nem insolente
nem prepotente
mas, sim, gente polivalente

RESILIENTE

O que é preciso é gente
gente com mentes sãs
mesmo que carreguem algumas cãs
gente com alma sadia
que não viva uma vida vazia

O que é preciso é gente 
que espicace toda essa gente
que, dominada pela indolência,
não é gente
como esta gente
que não se deixa dominar por gente

INDIFERENTE!

Gente que é gente
Vai à luta
Só assim sabe que é gente

Gente que é gente
Partilha o saber
E, em todos os seus gestos,
Esta gente dá amor
Esta gente traz palavras que têm cor
E todos os seus gestos emanam calor
Esta gente solta freios
E mata os silêncios alheios.

25 de abril de 2017

NASCI CRAVO


Nasci flor. Vermelho em todo o seu esplendor. Discreta e sem vaidade, de suave odor mas com muita cor. Cor do amor. 
Enchia campos, enchia jarras de cristal. Um tempo houve em que enchi espingardas. Calei-as, não cuspiram balas, nem deram coronhadas! 
Então, o meu destino mudou. Agora, passeio-me nas lapelas, sou agitada como estandarte ao vento. Nasci cravo mas não sou mais flor, já não vou murchar. Hoje, sou a liberdade, estou aqui para firmemente ficar.

HORA DO CONTO NA BIBLIOTECA DE FUNDO DE VILA

A convite da Junta de Freguesia de S. João da Madeira, levei o meu livro Do cinzento ao azul celeste aos alunos da escola EB1 de Fundo de Vila para uma hora de conto/conversa sobre os valores de abril. Depois da leitura e da conversa, ficou aberto caminho para a escrita. E foi assim que algumas crianças de segundo e terceiro anos definiram liberdade.

  • "A liberdade é uma gaiola de portas abertas." . Gabriel
  • "A liberdade é a escola que nos dá educação." - Maria Leonor
  • "A liberdade é ter asas." - Edgar
  • "A liberdade é a forma como concretizamos os nossos desejos e seguimos o nosso caminho a voar," Gabriel
  • "A liberdade é um tempo feliz."
  • "A liberdade é como uma flor aberta no jardim,"
  • "A liberdade é a árvore que se alimenta da seiva" - Maria Leonor
  • "A liberdade é ter tempo para ser feliz." Maria Leonor
  • "A liberdade é como a flor a abrir com a paz." - Maria Leonor
  • "A liberdade vem com o mar." Lara
  • "Sem liberdade seríamos prisioneiros do tempo." Mariana

23 de abril de 2017

23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL DO LIVRO

Porque, hoje, é Dia Mundial do Livro e todos os dias são dias de leitura. "Faça da leitura uma causa de vida", o lema deste ano. Os meus livros talvez possam ajudar a lutar pela causa.

14 de abril de 2017

ESPELHO MEU!

Olho-te, espelho. Deverias refletir-me, tal como sou, mas não! Acordaste maluco e devolves-me a figura que eu queria ser, mas não sou, nunca fui. 
Deixas que me espreite uma mulher com ar inteligente e confiante, olhar atrevido e desafiador, numa pose de quem sabe o que quer e consegue-o. Esta, que especaste à minha frente, não sou eu. Não passo de uma mulher fraca, ignorada, sem atributos.
Espelho meu, haverá alguma mulher mais insípida do que eu?

9 de abril de 2017

QUEM ANDA A ROUBAR AS ESTRELAS?

Espetáculo musical, na Casa da Criatividade, integrado no Festival de Teatro de S. João da Madeira


SINOPSE:
Diz a lenda que, em noites de lua cheia, as estrelas se aproximavam da Terra para a fazerem brilhar. Mas elas começaram a não regressar e era grande o mistério do seu desaparecimento.
Havia um homenzinho que vivia numa nuvem cinzenta e que invejava a noite por ter a lua, as estrelas e tanto brilho. Sentindo-se solitário, quis guardar todas as estrelas só para si e começou a caçá-las como se fossem borboletas.

Mas ele aprendeu a olhar à sua volta e a brincar ao faz-de-conta. E compreendeu que que a liberdade é um tesouro que não se pode enjaular.

A equipa:


29 de março de 2017

LEVOU-ME UM LIVRO...

...a um mundo a transbordar de amigos!


Branca de Neve. Cinderela. Aurora. As primeiras amigas. Com elas percorri salões de palácios magníficos, frequentei animados bailes cheios de luz e de cor e até dancei com príncipes! Foram dias magníficos de fantasia e diversão.
Os três porquinhos. O gato das botas. O gato Pompom. Crina Branca. Os amigos de quatro patas que não tinha em casa estavam nos livros. Com eles e com elas, preenchia os meus dias de uma infância feliz, quase sem televisão nem parafernália de jogos computorizados.
Cresci. Estes meus amigos e amigas não quiseram crescer comigo. Foram fazer outros amigos, mas deles ficaram guardadas as lembranças doces, bem fundo.
Outros amigos surgiram, ainda mais aventureiros!
Quanta adrenalina com os cinco amigos Júlio, Ana, David, Zé, e o seu cão! Quanto divertimento com as gémeas no colégio das Quatro Torres e no colégio de Santa Clara! Quantas aventuras vividas em cheio com os Sete!
Veio a adolescência. Romance. Amores. Sofrimento. Finais felizes.
Brigitte, Isabel, miss Grey, Margarida, Diana, Catarina, a Menina Aguaceiro, as mulherzinhas Zé, Gui, Melita e Bel eram agora as minhas melhores amigas e povoavam os meus sonhos e ilusões. Preenchiam por completo a minha vida. A mãe podia chamar, as irmãs gritar e o mundo desabar. Nada. Só a elas ouvia, só com elas convivia, sofria ou ria.
O tempo foi passando inexoravelmente e a lista de amigos crescia, aumentava, engrossava...
Foi então que surgiu na minha vida o surrealista e inconformista João Sem Medo. Veio também o escravo Pai Tomás mostrar-me a violência da História.
E os anos passavam...
Como sofri com Maria quando o Romeiro apareceu!
Como chorei, solidária, com Teresa e Simão Botelho!
Que famílias injustas as de Romeu e Julieta!
Que crueldade, a partida que a vida pregou a Carlos da Maia e Eduarda!
E aprendi mais. Aprendi que há sofrimentos maiores do que o do amor!
Prisão. Tortura. Pobreza. Miséria...
Como gostaria de tirar da miséria o Gineto e seus amigos de rua e poder salvar os meninos desprovidos de tudo apenas donos da areia da praia.
Como gostaria de dar a liberdade aos amigos que a perderam apenas por lutarem, justamente, contra as injustiças, por quererem aquilo a que tinham direito. Jofre, Carlos, João, Mariana e outros tantos resistentes apenas queriam um mundo melhor, livre.
Por essa mesma liberdade lutou o filho de Pelageya. Como sofreu esta mãe e me fez sofrer!
Como doeu a falta de liberdade de Anne Frank! Uma adolescência privada de tudo o que a adolescência tem de bom. Uma vida perdida vítima de tiranos assassinos.
Pobre Jean Valjean, sempre fugido!
Encontrei, também, outro tipo de falta de liberdade. Esta, voluntária, sem razão de ser, sem pretexto nem desculpas. Christiane F. é toxicodependente. Filhos da droga, muitos, levaram-me a ver esse mundo de decadência e degradação física do qual não há retorno. Morte, apenas! Vi. Aprendi.
Vi também outra dependência: a do jogo. Casino, roletas, dinheiro perdido, infelicidade. Alucinação! Foi Alexis Ivanovitch que me apresentou este mundo completamente desconhecido e impensado, até então.
Os livros permitiram sempre a viagem a mais um mundo: o do crime calculado, frio, insensível. Mas eram convidados os meus amigos Poirot, Miss Marple e Sherlock Holmes para os deslindarem. E faziam crescer, de forma bem inteligente, a expectativa até à última página.
Depois de tanta emoção, os amigos divertidos e brigões apareciam para descontrair e fazer rir. Sempre prontos para mais uma sessão de pancadaria nos romanos, lá estavam Astérix e o gordo Obélix. Gordo? Perdão, gordo não, cheio de peito. E lá estavam, também, a contestatária Mafalda. A irreverente Guidinha. O traquina Nicolau.
Hoje sou adulta. A lista de amigos não pára de crescer. Cada vez mais sofisticados, mais complexos.
A papisa Joana tão corajosa e lutadora. Guilherme de Baskerville tão inteligente e perspicaz. Como se tivesse entrado numa máquina do tempo, eles levaram-me à Idade Média.
Vianne Rocher, Júbilo e Lucha, Tita e Pedro levaram-me ao império dos sentidos...
E o desfile continua. Blimunda e Baltasar. Montag, o incendiário de livros. O fiel Florentino Ariza. A fria e traidora Teresa Raquin. O desesperado e infeliz Raskolnikov. A selvagem Eva Luna. O espantoso e fascinante Petter, a Aranha, vendedor de histórias. O severo professor Crastaing. O hediondo Jean Baptiste Grenouille.
Mais recentemente, e a idade isso permite, outros seres vieram engrossar a lista: Simon Axler e senhor Ulme , apresentam a realidade nua e crua do envelhecer. Carlos Brauer faz-nos percorrer a literatura universal. Eszter faz-nos ver a manipulação existente no mundo que nos rodeia. 
E tantos outros. Sem fronteiras, vencendo a geografia sem mapas nem GPS, fui criando laços. Estes meus amigos nunca me abandonaram. Estão sempre lá. Na saúde ou na doença, nas férias ou no trabalho, na solidão ou no meio do barulho, são a melhor companhia, um refúgio, uma animação. Ou, simplesmente, evasão. E todos eles, que me mostraram tantos mundos, fizeram-me criar o meu próprio mundo, fizeram-me criar as minhas estórias, que, agora, levo aos outros partilhando o que tenho dentro de mim. 
Levou-me um livro? 
Não! Levaram-me muitos.