15 de janeiro de 2020

FOI TÍTULO NO JORNAL

2019 acabara como começara. Com desconfianças e insultos. Com incompreensões e agressões. 
Ano novo, vida nova. Como ela acredita nisto!!!! 
Dia um de janeiro. Dia Mundial da Paz. Repentinamente, o silêncio quebra-se. Ouvem-se gritos, palavras agressivas. Choro entrecortado por lamúrias. Depois um estrondo. Talvez de corpo tombado.
Todo o prédio ouviu. Todos sentiram forte arrepio. Não, não era frio. Era pavor. Nenhum se manifestou, porém. Entre marido e mulher…
“Mãos violentas matam companheira”. Foi título num jornal. 

2 de janeiro de 2020

DECISÕES

Sentada frente ao espelho, antes de tomar a decisão, Elsa travou um diálogo com a sua imagem. 
- Corto?
- Não sei! Sempre me habituei aos cabelos compridos. 
- Cabelo comprido, tão branco, não combina. A juventude é tempo passado!
- Mesmo assim. São muitos anos a refletir a mesma imagem. Não sei se me habituo à mudança!
- Paciência! Perdido por cem, perdido por mil. Corto. E bem curtinho! 
Cortou. E saiu do cabeleireiro mais leve e com menos dez anos.

31 de dezembro de 2019

LEITURAS DE 2019

Balanço das leituras de 2019.
Não foram tantas quantas as que desejei e muitos dos livros lidos não foram opção, mas, sim, seleção do Clube do Leitura.
Pertencer a um Clube de Leitura, com encontros mensais é fantástico, tem apenas um senão. Se por um lado, não me deixa tempo para ler o que tenho nas minhas listas, por outro permite-me ler livros que, certamente, nunca iria ler.
Selecionadas pelos membros do Clube de Leitura:

  • Uma cana de pesca para o meu avô, Gao Xingjian
  • O pianista de hotel, Rodrigo Guedes de Carvalho
  • Princípio de Karenina, Afonso Cruz. Um livro onde o autor "costura" Tolstoi, Dostoievski, Camilo Castelo Branco, Grimm, Aristóteles, a guerra do Vietname, as guerras religiosas, a globalização, a imigração e o produto é uma mensagem de esperança.
  • Carne crua, Rubem Fonseca
  • Lavoura arcaica, Raduan Nassar
  • O terrorista elegante, Mia Couto e José Eduardo Agualusa. Um livro que é uma lambarice que se devora numa dentada. No fim, fica o arrependimento de não ter sido saboreado devagar, durante muito mais tempo. Histórias de guerra com o amor como fio condutor das três histórias e muito humor.
  • Poesia de Adília Lopes

Em agosto, pude tirar alguns da minha lista e foi um mês dedicado às mulheres:




  • Aqui é um bom lugar, Ana Pessoa
  • Nunca para pior, Ana Saldanha
  • A bailarina e o leprechau, Eva Cruz
  • A gorda, Isabela Figueiredo
  • Atrás da porta, Teolinda Gersão
Outras, compradas para a Biblioteca Escolar e lidas antes de serem postas em circulação (adoro estrear livros!!!):

  • O gato, o Ankou e o Maori, Michel Rio
  • O autocarro de Rosa Parks, Fabrizio Silei
  • A terra de Ana, Jostein Gaarder
Releitura:
  • Os capitães da areia, Jorge Amado

29 de dezembro de 2019

TALENTO NATO!



Arre! Grande lata! Depois de devorar todas as doçarias natalícias, o Arnaldo teve a desfaçatez de fazer voar, goela abaixo, a última nata da pastelaria, na tarde seguinte ao Natal.  É talento nato da família Távora: comer até ficar lotado. E nenhum dá valor ao exercício físico.
Mas ele é o pior! Quando menos esperar, numa revoada da sorte, entrará em rota de colisão com a saúde e não haverá trevo de quatro folhas que lhe valha.


Desafio nº 194 da Margarida Fonseca Santos:
letras de árvore de natal (no texto a negrito)

1 de setembro de 2019

VERÃO

Os olhos enchem-se de verde
riscado pelo voo da ave viajante.
Verão em estado puro!

31 de agosto de 2019

FIM DE FÉRIAS

A manhã desponta particularmente quieta. 
Abro a janela do quarto de hotel e respiro o ar limpo que vem do jardim onde repousam as cadeiras da piscina, ainda vagas, milimetricamente alinhadas. 
A sala do pequeno-almoço também se encontra particularmente vazia. Os hóspedes já partiram ou estarão mais ensonados do que o costume? 
Chego à praia. Quase deserta, também. O meu recanto, entre rochas, aguarda-me e oferece-me sombra. Apenas se ouve o ligeiro bater das minúsculas ondas na areia, a música da praia. O mar chama-me. Está só e quer companhia. Faço-lhe a vontade. Sigo por ele adentro. A transparência da água permite ver o fundo e apanhar uma concha aqui, um búzio ali. Um cardume passa apressado em direção à outra banda. Parece fugir das barulhentas gaivotas que, esfomeadas, veem nos pequenos peixes grande banquete. 
Caminho em frente, cortando a água. Olho a praia que fica para trás, longe. E prossigo, sempre em frente, até perder o pé. Continuo só, com tanto mar só para mim. Poderia ficar aqui, transformada em sereia à espera de um Ulisses que me viesse buscar. Poderia, até, morrer neste momento, levaria o mar comigo.
Mas a realidade chama-me à razão. É fim de férias, o trabalho espera-me. 
Num dia que acorda assim, é mais difícil dizer adeus!



15 de agosto de 2019

PERDIDOS NA DIREÇÃO DA PAZ

A aldeia tem muito sol e, embora não tenha areia nem mar, atrai turistas, os poucos que se querem sentir perdidos na direção da paz. 
É o local ideal para ler ou passear com um amigo especial ao longo das ruas empedradas ou do silencioso rio. Aqui nada importa. Nem as possíveis picadas das abelhas que rondam o farnel, atraídas pelo convidativo leite creme
A luz realça o aveludado das rosas dos jardins. E tudo é suavidade!

3 de agosto de 2019

PRECISA DE AJUDA?

Caminhava como um autómato, cabeça longe, as pernas conduziam-na ao acaso. Uma tontura súbita fê-la encostar-se à parede. Preparava-se para continuar quando 
- Precisa de ajuda? 
Maria Luísa não ouve à primeira. Andou uns metros e parou. Só então se apercebeu que alguém lhe falava. Não estava habituada a que fossem gentis com ela, muito menos que lhe oferecessem ajuda. 
- Precisa de ajuda? 
Sim, precisava. Há meses que calcorreava a cidade, procurava emprego. Teria algum para lhe oferecer? 

Frase  a negrito do livro O pianista de hotel, de Rodrigo Guedes de Carvalho, pág.449

15 de julho de 2019

VIAGEM CULTURAL A FRANÇA

O Agrupamento de Escolas João da Silva Correia, onde trabalho, voltou a proporcionar aos alunos de 9ºano uma viagem memorável a França, de 1 a 6 de julho, organizada pelo grupo de Francês. 
As badaladas das seis horas da manhã assinalaram a partida de 102 alunos e 10 professoras, numa excitação pela previsão de uma semana animada e cheia de aventura. Era grande a expectativa de muitos alunos que, pela primeira vez, iriam descobrir recantos deste magnífico país cuja língua e cultura estudaram durante três anos. 
Durante o percurso, o grupo teve a possibilidade de conhecer as paisagens que os imensos quilómetros mostraram e de descobrir locais incríveis. 
Em Poitiers, o parque temático Futuroscope (parque europeu da imagem) com atrações baseadas em suportes multimédia, técnicas cinematográficas, audiovisuais e robótica do futuro, ofereceu adrenalina, conhecimentos e diversão. O grupo deu um autêntico mergulho no futuro através de experiências 3D, assentos animados, efeitos de velocidade, viagens espaciais, culminando com um surpreendente espetáculo noturno. 
 A belíssima zona do Loire e um dos seus famosos castelos, Chenonceau (mantido e embelezado pelas mulheres que lá viveram), assim como a doce cidade de Amboise, com as suas casas trogloditas e o solar Clos Lucé, construído no século XV (onde viveu e morreu Leonardo da Vinci) permitiram encher os olhos de beleza e respirar pureza. 
A viagem prosseguiu para norte, até Paris, a cidade mágica. Calcorreando ruas e avenidas, o grupo viajou no Sena, visitou o museu do Louvre, o Sacré-Coeur, a Place do Tertre, misturando-se com os artistas, subiu à Torre Eiffel. Numa rápida viagem panorâmica pela cidade, ainda houve tempo para observar o exterior do Panteão, da mais famosa universidade de Paris (La Sorbonne), do bairro de Saint-Germain-des-Près, da Catedral Notre-Dame, do Centro Beaubourg/Georges Pompidou, do Arc du Triomphe e para atravessar os Campos Elísios. 




O momento mais esperado chegou, com os jovens excitadíssimos por poderem passar um dia inteiro no feérico parque Disneyland Paris onde a adrenalina voltou a inundá-los. 
E assim se passou uma semana incrivelmente rica, repleta de experiências multissensoriais, aprendizagens, diversão pura e convívio que, com certeza, ficará gravada para sempre nas suas memórias!


24 de abril de 2019

VIAGEM À POLÓNIA

A visita à Polónia, de 12 a 16 de abril, revelou-se um autêntico mergulho na História. Vinte alunos do ensino secundário e quatro professoras da escola secundária João da Silva Correia puderam conviver, partilhar histórias e aprender. Mais do que um manual escolar, a viagem permitiu o contacto direto com os locais, as gentes, a língua, proporcionando experiências sensoriais e profusão de cultura. A cidade de Cracóvia é uma cidade que resistiu a muitos tumultos e sobreviveu à ocupação alemã, ao contrário das principais cidades polacas que ficaram em ruínas. Ali, o grupo calcorreou ruas e ruelas, parques, praças e jardins. Entrou em livrarias, palácios, museus, igrejas e catedrais de grande beleza. Nos imensos bares, restaurantes, tasquinhas e salões de chá, saboreou os famosos pierogi (de carne, espinafres ou queijo) ou os ruskies (com batata, cebola e queijo) e os típicos bagels (pão em forma de anel com crosta polvilhada de sal e sementes de papoila).

Cracóvia exibe, decididamente, dois lados bem opostos: o lado ancestral, com monumentos góticos, fachadas antigas, caleches à espera dos clientes, e o seu lado moderno e cosmopolita, tudo iluminado pelas flores coloridas que proliferam em todas as esplanadas, parques e pátios ajardinados.




Foi com bastante expectativa que o grupo esperou o aparecimento do “trompetista de Cracóvia” que, do alto de uma das torres da igreja de Santa Maria, faz soar o hejnal, ritual que lembra a lenda segundo a qual, em 1241, o trompetista fora mortalmente atingido por uma flecha que se lhe atravessou no pescoço, quando avisava a cidade do ataque dos mongóis. 
Foi sentida como mágica a colina que exibe o sumptuoso Castelo de Wawel, o mais completo exemplo de arte medieval, renascentista e barroca, e a catedral onde foram coroados e sepultados quase todos os reis polacos. Na base da colina, nas margens do rio Vístula, um dragão que cospe fogo lembra a lenda do sapateiro que o derrotou com uma ovelha cheia de enxofre, casou com a princesa, tendo-se tornado rei e erigido o castelo.




A parecer um conto de fadas foi a visita às Minas de Wieliczka, um complexo grandioso de túneis onde surgem lagos salgados e se abrem várias câmaras decoradas com esculturas, baixos relevos e recriações históricas. Aqui, o grupo tomou conhecimento de mais uma lenda polaca que narra a história de uma princesa húngara, prometida a um príncipe polaco, que pediu ao pai sal de gema, algo muito raro na Polónia, e atirou o seu anel ao poço da mina ordenando-lhe que a seguisse até Cracóvia. Quando chegou, pediu a alguns mineiros que escavassem um buraco e eles encontraram um pedaço de sal e o seu anel. Estas minas têm uma profundidade de 327 metros (apenas 235 metros estão acessíveis aos visitantes) e o seu interior é outra cidade: numa capela, “a catedral subterrânea da Polónia”, todos os domingos há missa e, por vezes, também lá decorrem concertos e casamentos. 





A visita ao Bairro Judeu de Kazimierz, à Fábrica se Schindler e aos campos de concentração Auschwitz-Birkenau foram o ponto alto da viagem. São locais que deixam marcas a quem os visita, onde se sente a discriminação e se respira injustiça sofrida pelo povo judeu antes e durante a II Guerra Mundial. O Bairro Judeu faz lembrar um bairro-fantasma com o seu empedrado e fachadas gastas. No gueto, agora vazio, parece que alguém ainda respira e pede socorro. Na antiga fábrica de Schindler, agora museu, os visitantes assistem a várias exposições interativas: as imagens, associadas a sirenes e tiros de canhões, colocam-nos em plena guerra. Em Auschwitz-Birkenau resistem todas as provas vivas das atrocidades cometidas pelos nazis. Numa viagem dolorosa a um passado, não tão distante assim, sente-se fundo o quanto o ser humano pode ser perigoso. E um frio inexplicável percorre o corpo de todos aqueles que ali vão. Tudo ali é cruel. O arame farpado, os imensos blocos de tijolo vermelho onde sobreviviam os prisioneiros, os seus objetos pessoais amontoados e expostos ostensivamente em vitrines (próteses, malas de viagem, calçado, óculos, roupa, louça e toneladas de cabelo, muito dele ainda entrançado) chocam, assim como chocam os corredores com fotografias dos prisioneiros. 


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E conclui-se que a palavra desumanidade não chega para definir o que se passou durante este período negro da História. No fim da viagem, resta uma pergunta inevitável para a qual não há resposta: como é possível que pessoas cometam tal barbaridade a outras pessoas? 
Os museus do Holocausto existem para que a História não seja esquecida e não se repita porque, citando George Santayana, “aquele que não lembra a história está condenado a vivê-la novamente”. Ter visto jovens alunos a chorar perante aquilo que puderam observar foi a sensação plena do objetivo cumprido. A História entrou-lhes (entrou-nos!) na alma, coisa que os manuais escolares não permitem!