16 de fevereiro de 2018

GRANDE GABARITO!

O diretor Adérito, professor de educação física, lançou um desafio: o primeiro a chegar à meta ganharia a medalha de honra da escola e representá-la-ia nos europeus de atletismo. Bonito serviço arranjou! 
De temperamento esquisito, autointitulado o maior atleta da escola, todo expedito para mostrar o seu gabarito, o rapaz partiu em grande velocidade, antes de ouvir o sinal. Tinha como intuito provar que ninguém o superava. Não correu bem. Mal arrancou, caiu estatelado, o pobre Tito

7 palavras com ITO (por ordem alfabética)

10 de fevereiro de 2018

SEMÁFORO

Chegou demasiado tarde. O sinal verde não esperara por si e o vermelho logo apareceu, impedindo-o de avançar. Acabara de perder a oportunidade de a reconquistar e de reatar a relação terminada por mal-entendidos. 
Fantasiara uma vida a dois demasiado cor de rosa, impossível de manter. Depois disso, desconfiou, enciumou, questionou, não acreditou, dramatizou. Deu para o torto. Quando quis mudar, hesitou. Mas o tempo, entretanto, expirara impiedosamente. 

O semáforo dos afetos não se mantém infinitamente verde! 


(imagem daqui)

9 de janeiro de 2018

MAPA DE LEITURAS DA LUSOFONIA

Mapa de leituras da lusofonia, um projeto de Teresa Pombo que teve a amabilidade de incluir um extrato do meu livro Do cinzento ao azul celeste. Ouvir aqui.

2 de janeiro de 2018

CHEIROS

Luísa é atraiçoada pela memória cada dia que passa. Não reconhece a família que se junta para celebrar o Natal. Cada um vai recordando Natais passados na esperança de lhe acender um fiozinho de luz que lhe ilumine a escuridão em que vive. 
Hoje, entrou na sala e o milagre aconteceu. Os cheiros combinados da lenha cortada, do pinheiro natural, do vinho adoçado com mel, do queijo serrano, da canela nos doces despertaram-lhe um sorriso, trouxeram-lhe vida.
Desafio  Escritiva nº 27 - cheiros

17 de dezembro de 2017

MARCAS

Era um provador, numa loja de roupa, como qualquer outro provador. Um cubículo pequeno com um espelho para refletir as vaidades. 
Por momentos, tudo mudou. Não era vaidade que estava ali, era o tempo a fazer das suas. O tempo, esse inimigo da juventude. O tempo, esse implacável vilão que não perdoa e deixa marcas dolorosas. 
Ela só queria experimentar as calças. 
Eu só queria dar uma opinião e ter a prenda de Natal resolvida. Um problema a menos, se as calças servissem. 
Mas algo fez a diferença. Lentamente, com a dificuldade de movimentos que a idade impõe e que os quilos acumulados exigem, a roupa foi despida e o corpo nu mostrou-se. 
Olhei-o, incrédula. Não condizia com a linda cabeleira branca que lhe dava um charme maduro. 
Entre o choque no olhar e a ausência de reação, desabou-me tudo! 
Já tenho idade suficiente para saber que não há milagres e que o futuro é isto. Sim, já tenho idade para ver, no presente, que o meu futuro será, também, isto. 
Pernas que já foram lisas e brancas deixaram-se ruir pelas varizes, pelas gorduras, pelas engelhas e manchar pelas quedas, pelos atropelos aos móveis. 
Joelhos que já foram bem torneados e que, saídos das minissaias, espevitaram homens, deixaram-se entortar. 
Tudo isto escondido! Tudo isto a roupa escondia! 
Imóvel fiquei. Sem coragem para dizer o que quer que fosse. A ver, no espelho, os estragos. 
Ela apercebeu-se da minha estupefação. Agarrou-me a mão com firmeza e, sorrindo, também não disse nada. 
E foi, então, que resolvi olhá-la com outro olhar. E aprender, com a sua serenidade e força de viver, a encarar o inevitável.

28 de novembro de 2017

QUE INDIGNAÇÃO!

- Olhe, dona Celeste, estamos muito indignadas. E pode dizer ao seu patrão, eu própria lho direi. Não se admite, chegar à nossa beira e mandar-nos calar porque estamos a falar muito alto e incomodamos os outros clientes! Por amor de Deus! Não estávamos a dizer mal de ninguém, não estávamos a dizer segredos, nem a falar dos namorados das outras. Era só o que faltava! Isto é um local público e não podemos falar alto?! Que indignação!!!! 

Desafio Escritiva 26 – mistérios da natureza humana

21 de outubro de 2017

NO SEU PEITO VIVIA UM PÁSSARO

Hoje foi manhã de escrita criativa com Rui Ramos. 
Um dos exercícios: tirada uma carta, aleatoriamente, de um baralho de cartas do jogo Dixit, em cinco minutos a história teria de estar escrita. 

O resultado:
No seu peito vivia um pássaro e ela deixou que se libertasse quando acordou, estremunhada, cabelos zangados atirados ao ar. Os olhos mal se abriam, ensonados. Ou seriam cansados? Não quis ver-se ao espelho, ignorou-o. Provavelmente não iria gostar da imagem que ele lhe devolveria. Preferiu abrir a janela, deixar que a luz entrasse, que a primavera entrasse, que o seu corpo negro entrasse noutra dimensão. Quem sabe? Talvez atingisse um mundo paralelo onde a cor e a dor não provocam danos colaterais. 
 Apalpou o seio nu e, com o pássaro, chorou.

20 de setembro de 2017

CONTO TRADICIONAL

Era uma vez uma velha. E era uma vez um lobo esfaimado.
A velha saiu da sua cabana para ir ao batizado dos netinhos. O lobo saiu-lhe ao caminho para a degustar.
Mas ela estava magrinha, ele só teria ossos para trincar. E deixou-a partir. Na festa iria engordar, o banquete poderia esperar.
Na hora do regresso, o lobo esperava-a. Escondida numa cabaça, a velha respondeu-lhe:

- Não vi velha, nem velhão! Corre, corre, cabacinha, corre, corre, cabação!

23 de agosto de 2017

REFÚGIO

Refugio-me do rebuliço da cidade e faço-me refúgio.
O sol vem beijar-me, manhã cedo, e o seu beijo mantém-me verde. No rio, os patos agradecem, felizes. E os habitantes da cidade também. Vêm até mim caminhar, buscar a paz, o silêncio, o diálogo com a natureza. Vêm respirar-me! Ofereço-lhes espaço de meditação, frescura, beleza, luz. Em troca, só peço respeito.
O meu nome? Chamo-me Parque do rio Ul. Vivo dentro da cidade. Mas a cidade fica longe.


desafio Escritiva nº 23 – recomendar um destino, guias de viagem

2 de agosto de 2017

UM RIO NOS OLHOS

Trazias um rio nos olhos. Sempre que te ouvia, nascia um desejo súbito de mergulhar neles. Iluminavam-se quando cantavas, parecia que a tua voz tinha o condão de lhes dar brilho. Lembras-te daquela vez em que cantaste só para mim?
Contudo, tu, com a mania de te relacionares com estranhos na Internet, arruinaste-te.
Era a mim que devias ter contado tudo. Talvez não saibas, mas eu queria ser a mãe que não tiveste. Agora, é tão tarde!...