21 de outubro de 2017

NO SEU PEITO VIVIA UM PÁSSARO

Hoje foi manhã de escrita criativa com Rui Ramos. 
Um dos exercícios: tirada uma carta, aleatoriamente, de um baralho de cartas do jogo Dixit, em cinco minutos a história teria de estar escrita. 

O resultado:
No seu peito vivia um pássaro e ela deixou que se libertasse quando acordou, estremunhada, cabelos zangados atirados ao ar. Os olhos mal se abriam, ensonados. Ou seriam cansados? Não quis ver-se ao espelho, ignorou-o. Provavelmente não iria gostar da imagem que ele lhe devolveria. Preferiu abrir a janela, deixar que a luz entrasse, que a primavera entrasse, que o seu corpo negro entrasse noutra dimensão. Quem sabe? Talvez atingisse um mundo paralelo onde a cor e a dor não provocam danos colaterais. 
 Apalpou o seio nu e, com o pássaro, chorou.

20 de setembro de 2017

CONTO TRADICIONAL

Era uma vez uma velha. E era uma vez um lobo esfaimado.
A velha saiu da sua cabana para ir ao batizado dos netinhos. O lobo saiu-lhe ao caminho para a degustar.
Mas ela estava magrinha, ele só teria ossos para trincar. E deixou-a partir. Na festa iria engordar, o banquete poderia esperar.
Na hora do regresso, o lobo esperava-a. Escondida numa cabaça, a velha respondeu-lhe:

- Não vi velha, nem velhão! Corre, corre, cabacinha, corre, corre, cabação!

23 de agosto de 2017

REFÚGIO

Refugio-me do rebuliço da cidade e faço-me refúgio.
O sol vem beijar-me, manhã cedo, e o seu beijo mantém-me verde. No rio, os patos agradecem, felizes. E os habitantes da cidade também. Vêm até mim caminhar, buscar a paz, o silêncio, o diálogo com a natureza. Vêm respirar-me! Ofereço-lhes espaço de meditação, frescura, beleza, luz. Em troca, só peço respeito.
O meu nome? Chamo-me Parque do rio Ul. Vivo dentro da cidade. Mas a cidade fica longe.


desafio Escritiva nº 23 – recomendar um destino, guias de viagem

2 de agosto de 2017

UM RIO NOS OLHOS

Trazias um rio nos olhos. Sempre que te ouvia, nascia um desejo súbito de mergulhar neles. Iluminavam-se quando cantavas, parecia que a tua voz tinha o condão de lhes dar brilho. Lembras-te daquela vez em que cantaste só para mim?
Contudo, tu, com a mania de te relacionares com estranhos na Internet, arruinaste-te.
Era a mim que devias ter contado tudo. Talvez não saibas, mas eu queria ser a mãe que não tiveste. Agora, é tão tarde!...

3 de julho de 2017

CAMINHO REENCONTRADO

Custou encontrar o caminho depois de andar tantos anos perdida. A sua existência, assolada por tempestades, trouxera-lhe dissabores. Nunca sabia se, nem quando, surgiria a próxima. 
Agora, chegada a calmaria, o importante é erguer-se. Está sozinha, é certo, mas, como diz o ditado, “antes só do que mal acompanhada”. Sozinha, mas independente. Sozinha, mas com liberdade. Sozinha, mas de sorriso recuperado. Dona de si. Orgulhosamente. 
Não se habituara, ainda, a este luxo, conclui. Resta-lhe, então, aprender. Resistindo!

25 de junho de 2017

CENAS

O meu marido sempre foi duro de ouvido, quer para cantar, quer para línguas estrangeiras.
Fomos de férias para o sul de Espanha e passámos uma noite num hotel, em Sevilha, onde jantámos. Na hora de pagar, disse-lhe a rececionista:
- Tu tienes una cena…
- Cena???? Não houve cena nenhuma. A minha mulher deitou-se e dormiu toda a noite…
- Como asi???
De longe, apercebi-me da atrapalhação de ambos. Às gargalhadas, gritei-lhe:
- O jantar de ontem! É para pagar!

14 de junho de 2017

DESCONCERTO

Acordou com o sonho bem presente. O céu era uma pauta onde bailavam as nuvens cinzentas transformadas em notas musicais. O mundo tornara-se numa orquestra. Um afinado concerto, sob a alegre batuta do maestro, muito alinhado, transmitia harmonia. 
Agora, desperta, olha a realidade. A loucura instalada, o bom senso desinstalado. 
Como sentir paz neste mundo desafinado? 
Como viver neste desconcerto? 
Como suportar a desarmonia dos dias? 
Tudo tão desalinhado! 

Tantos sonhos descosidos querem, urgentemente, ser novamente cosidos.

Desafio RS nº 50, Margarida Fonseca Santos.  palavras com prefixo des

12 de junho de 2017

SOBRE “O HOMEM PARTIDO”


Escreveu Raul Brandão: “Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior escondido.”
A Casa da Criatividade abriu as suas portas, neste domingo 11 de junho, para o provar.
Pequenos talentos soltaram toda a sua energia e descontração para dar uma grande lição aos adultos. E, de facto, só as crianças, com toda a sua naturalidade e espontaneidade conseguem mostrar que a vida deveria ser “olho por olho, dentro por dentro”.
“O homem partido” é mais do que uma peça de teatro interpretada por crianças. É um convite (que poderia ser convocatória!) a que cada um seja “bicho do mato, ou extrovertido ou os dois em diferentes tempos”, porque o mundo irá, certamente, identificar-se com cada um, segundo as palavras do poeta sanjoanense Fábio Silva, que colaborou com um texto poético seu, incluído no texto dramático.
“O homem partido” é um olhar profundo sobre as pessoas, é uma entrada triunfal no mais fundo de cada um, é uma saída terramoto que tremeu consciências.
Enquanto espetadora, senti-me fortemente abalada pelo impacto. Mas, ao contrário do esperado em situações de catástrofes naturais, não quis fugir em busca de proteção. Quis ficar ali, a absorver cada palavra dita, cada momento vivido e sentido pelos pequenos-grandes atores que tão bem olharam por dentro a sociedade em que vivem, uma sociedade cheia de estereótipos, de preconceitos, de olhares cruzados, críticos, mordazes, mesquinhos.
O homem partido não é aquele que não tem um braço ou uma perna. O homem partido é aquele que vive pela metade.
Porque o ciúme, a inveja, a maledicência, a falsidade e o pessimismo existem.
Porque há gente cinzenta que não vê o colorido do vizinho.
Porque há gente que só olha para si e não vê quem se senta ao pé de si, numa mesa de café ou em qualquer outro lugar público.
Porque há gente que se acomoda e não se levanta para ajudar aquele que caiu ao seu lado.
Porque há gente que não acredita.
Mas, também, porque há gente diferente (diferente?!) que só quer uma palavra amiga, nem que para isso tenha de recorrer a uma peúga abandonada e transformá-la em fantoche.
Porque há gente curiosa que só quer respostas que a sosseguem.
Porque há gente que, aparentemente, nada tem e, afinal, tem tanto para dar.
Porque há gente.
E porque há gente, o preconceito, existe, é um facto.
E porque há gente, o preconceito deve ser combatido, destruído e abolido.

E foi contra o preconceito que os Ecos Urbanos lutaram, neste projeto nascido do zero, com palavras escritas pelo próprio grupo “Oficina de artistas”, com uma interpretação fantástica e uma magnífica encenação de Mariana Amorim e Mafalda Tavares, e deram resposta ao repto “Olhem para estranhos. Olhar de ver com curiosidade e de lhes descobrir os traços”. Um projeto de um grupo que acredita em cada um, que tem paixão pelo ser humano e que convidou toda a plateia a olhar mais para dentro e menos para fora, a despir a máscara que deverá ficar circunscrita ao teatro, não à vida diária.
E a mensagem passou, tiro certeiro disparado ao coração, através das palavras do brasileiro Chico Xavier:
“A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos. A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro. A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos...
 TUDO BEM!
O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum... é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos. 
Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos.”

Parabéns, “Oficina de artistas” dos Ecos Urbanos, por terem feito eco para não deixarem os adultos serem pessoas mais ou menos. Só pessoas por inteiro fazem a mudança.

10 de junho de 2017

"LETRAS INCLUSIVAS"

Hoje, no Mosaico Social, em Arrifana, foi apresentado o projeto interdisciplinar "Letras inclusivas", a partir do meu livro O santo guloso. 
A equipa da Educação Especial do agrupamento de escolas Coelho e Castro, Fiães fez um trabalho espetacular com os alunos. A partir da história original, na revista hoje apresentada, surgem quadras a recontá-la, trava-línguas, palavras cruzadas, uma história em 77 palavras, a receita da fogaça, ilustração...

2 de junho de 2017

CRISÂNTEMOS

Balouço no bolso do avental de Odete que caminha apressada, abraçada ao molho de flores acabadas de colher. Crisântemos. Não sabe porquê, mas sempre foi apaixonada por eles. Coloca-os na jarra e guarda apenas um, vermelho, para pô-lo ao peito. O jantar vai ser de cerimónia, quer estar bonita. Eu ajudarei, prendendo o crisântemo. Eu, um alfinete inútil! A flor fará sobressair o decote. O decote fará entrever uns seios de seda. Ele declarar-se-á, finalmente. Espera ela!