3 de julho de 2017

CAMINHO REENCONTRADO

Custou encontrar o caminho depois de andar tantos anos perdida. A sua existência, assolada por tempestades, trouxera-lhe dissabores. Nunca sabia se, nem quando, surgiria a próxima. 
Agora, chegada a calmaria, o importante é erguer-se. Está sozinha, é certo, mas, como diz o ditado, “antes só do que mal acompanhada”. Sozinha, mas independente. Sozinha, mas com liberdade. Sozinha, mas de sorriso recuperado. Dona de si. Orgulhosamente. 
Não se habituara, ainda, a este luxo, conclui. Resta-lhe, então, aprender. Resistindo!

25 de junho de 2017

CENAS

O meu marido sempre foi duro de ouvido, quer para cantar, quer para línguas estrangeiras.
Fomos de férias para o sul de Espanha e passámos uma noite num hotel, em Sevilha, onde jantámos. Na hora de pagar, disse-lhe a rececionista:
- Tu tienes una cena…
- Cena???? Não houve cena nenhuma. A minha mulher deitou-se e dormiu toda a noite…
- Como asi???
De longe, apercebi-me da atrapalhação de ambos. Às gargalhadas, gritei-lhe:
- O jantar de ontem! É para pagar!

14 de junho de 2017

DESCONCERTO

Acordou com o sonho bem presente. O céu era uma pauta onde bailavam as nuvens cinzentas transformadas em notas musicais. O mundo tornara-se numa orquestra. Um afinado concerto, sob a alegre batuta do maestro, muito alinhado, transmitia harmonia. 
Agora, desperta, olha a realidade. A loucura instalada, o bom senso desinstalado. 
Como sentir paz neste mundo desafinado? 
Como viver neste desconcerto? 
Como suportar a desarmonia dos dias? 
Tudo tão desalinhado! 

Tantos sonhos descosidos querem, urgentemente, ser novamente cosidos.

Desafio RS nº 50, Margarida Fonseca Santos.  palavras com prefixo des

12 de junho de 2017

SOBRE “O HOMEM PARTIDO”


Escreveu Raul Brandão: “Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior escondido.”
A Casa da Criatividade abriu as suas portas, neste domingo 11 de junho, para o provar.
Pequenos talentos soltaram toda a sua energia e descontração para dar uma grande lição aos adultos. E, de facto, só as crianças, com toda a sua naturalidade e espontaneidade conseguem mostrar que a vida deveria ser “olho por olho, dentro por dentro”.
“O homem partido” é mais do que uma peça de teatro interpretada por crianças. É um convite (que poderia ser convocatória!) a que cada um seja “bicho do mato, ou extrovertido ou os dois em diferentes tempos”, porque o mundo irá, certamente, identificar-se com cada um, segundo as palavras do poeta sanjoanense Fábio Silva, que colaborou com um texto poético seu, incluído no texto dramático.
“O homem partido” é um olhar profundo sobre as pessoas, é uma entrada triunfal no mais fundo de cada um, é uma saída terramoto que tremeu consciências.
Enquanto espetadora, senti-me fortemente abalada pelo impacto. Mas, ao contrário do esperado em situações de catástrofes naturais, não quis fugir em busca de proteção. Quis ficar ali, a absorver cada palavra dita, cada momento vivido e sentido pelos pequenos-grandes atores que tão bem olharam por dentro a sociedade em que vivem, uma sociedade cheia de estereótipos, de preconceitos, de olhares cruzados, críticos, mordazes, mesquinhos.
O homem partido não é aquele que não tem um braço ou uma perna. O homem partido é aquele que vive pela metade.
Porque o ciúme, a inveja, a maledicência, a falsidade e o pessimismo existem.
Porque há gente cinzenta que não vê o colorido do vizinho.
Porque há gente que só olha para si e não vê quem se senta ao pé de si, numa mesa de café ou em qualquer outro lugar público.
Porque há gente que se acomoda e não se levanta para ajudar aquele que caiu ao seu lado.
Porque há gente que não acredita.
Mas, também, porque há gente diferente (diferente?!) que só quer uma palavra amiga, nem que para isso tenha de recorrer a uma peúga abandonada e transformá-la em fantoche.
Porque há gente curiosa que só quer respostas que a sosseguem.
Porque há gente que, aparentemente, nada tem e, afinal, tem tanto para dar.
Porque há gente.
E porque há gente, o preconceito, existe, é um facto.
E porque há gente, o preconceito deve ser combatido, destruído e abolido.

E foi contra o preconceito que os Ecos Urbanos lutaram, neste projeto nascido do zero, com palavras escritas pelo próprio grupo “Oficina de artistas”, com uma interpretação fantástica e uma magnífica encenação de Mariana Amorim e Mafalda Tavares, e deram resposta ao repto “Olhem para estranhos. Olhar de ver com curiosidade e de lhes descobrir os traços”. Um projeto de um grupo que acredita em cada um, que tem paixão pelo ser humano e que convidou toda a plateia a olhar mais para dentro e menos para fora, a despir a máscara que deverá ficar circunscrita ao teatro, não à vida diária.
E a mensagem passou, tiro certeiro disparado ao coração, através das palavras do brasileiro Chico Xavier:
“A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos. A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro. A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos...
 TUDO BEM!
O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum... é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos. 
Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos.”

Parabéns, “Oficina de artistas” dos Ecos Urbanos, por terem feito eco para não deixarem os adultos serem pessoas mais ou menos. Só pessoas por inteiro fazem a mudança.

10 de junho de 2017

"LETRAS INCLUSIVAS"

Hoje, no Mosaico Social, em Arrifana, foi apresentado o projeto interdisciplinar "Letras inclusivas", a partir do meu livro O santo guloso. 
A equipa da Educação Especial do agrupamento de escolas Coelho e Castro, Fiães fez um trabalho espetacular com os alunos. A partir da história original, na revista hoje apresentada, surgem quadras a recontá-la, trava-línguas, palavras cruzadas, uma história em 77 palavras, a receita da fogaça, ilustração...

2 de junho de 2017

CRISÂNTEMOS

Balouço no bolso do avental de Odete que caminha apressada, abraçada ao molho de flores acabadas de colher. Crisântemos. Não sabe porquê, mas sempre foi apaixonada por eles. Coloca-os na jarra e guarda apenas um, vermelho, para pô-lo ao peito. O jantar vai ser de cerimónia, quer estar bonita. Eu ajudarei, prendendo o crisântemo. Eu, um alfinete inútil! A flor fará sobressair o decote. O decote fará entrever uns seios de seda. Ele declarar-se-á, finalmente. Espera ela!

15 de maio de 2017

"OPERAÇÃO" FÁTIMA

Eduarda espanta-se. Não se lembra de ver muitas das suas amigas dirigirem-se regularmente a um local de prece. Porém, fotos públicas mostram-nas no meio da “operação” Fátima, repentinamente devotas. 
Ela sabe que os tempos são de incerteza e de medo, de injustiça e de maldade. São tempos de provações. Mas, se o ser humano não acredita em si próprio nem no seu semelhante, como irá a Humanidade mudar e melhorar se espera o milagre, silenciosa e pacientemente?

3 de maio de 2017

SEMANA CULTURAL DA UNIVERSIDADE SÉNIOR DE SANTA MARIA DA FEIRA

À imagem do ano passado, a Universidade Sénior de Santa Maria da Feira está a dinamizar a sua semana cultural com eventos espalhados pelos cafés e restaurantes da cidade, terminando na Biblioteca Municipal no dia 5 de maio.
E, à imagem do ano passado, fui convidada para estar presente numa sessão e registar o momento, com palavras. Coube-me a sessão dedicada aos anos 60. Não poderia ser melhor. Foi na década de 60 que nasci (inaugurei a década, pode-se dizer!) e abri os olhos para a vida.
No final, o texto ficou pronto. Transcrevo-o:

A máquina do tempo vai arrancar. A viagem vai começar numa noite espiada pela lua em quarto crescente. Ao longe, o castelo observa a Taberna do Xisto que, hoje, se transformou e misturou novos sabores, de saberes cruzados.
Um, dois, três… Partida! Destino: anos 60. Cá vamos nós!
Chegamos. Aterramos.

Em Portugal, cresce a desilusão perante um regime ditatorial.
Depois de uma guerra mundial, cresce a revolta perante uma guerra colonial.
Cresce a frustração.
Cresce a contestação contra um Estado parado, vazio, alheado do mundo onde grassa a desigualdade.
“Mas há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. Não à ditadura, não à ignorância, não a qualquer forma de tirania. E muitas foram as formas de dizer não. Com palavras de contestação, mas forradas de poesia. Com pincéis e tintas (por vezes mais eloquentes do que as palavras). Com música interventiva mais certeira do que balas no combate à injustiça. Com a moda provocatória. Com danças energéticas. Com manifestações hippies num colorido e relaxado festival Woodstock. “All we need is love”, “Peace and love”, “Make peace not war” são gritos de paz porque a guerra não é bem-vinda. Nem hoje, nem amanhã. Nem nunca!
“Quantos caminhos tem um homem de percorrer para que lhe chamem homem? Quantos anos podem alguns existir antes que lhes seja permitida a liberdade?” Perguntas feitas pelo recém Nobel da Literatura Bob Dylan. Muitos caminhos foram percorridos e muitos anos passaram para que a liberdade nos fosse permitida.
Hoje, aqui e agora, viveram-se momentos impossíveis de serem vividos sem liberdade, esse bem precioso que nos permite respirar, correr e gritar aos quatro ventos. E esta gente da Universidade Sénior de Santa Maria da Feira correu, cantou, dançou para trazer até nós uma época tão rica em cultura, apesar de, ou, talvez, devido à ditadura e à consequente contestação. Monstros consagrados vieram até à Taberna trazendo na bagagem o seu saber.
Cinquenta décadas depois, vivemos dias frenéticos, mas, hoje, não fomos derrotados pela pressa, derrotamos a pressa. Revivemos momentos. E nem foram precisos charros nem máscaras. Porque há gente que sempre lutou e gente que continua a lutar, contra ventos e marés. Assim, deixo a minha homenagem a todos, eles e elas, gente da Universidade Sénior, num texto à moda de Ana Hatherly, mulher da cultura portuguesa em destaque nos anos 60.

Esta Gente
O que é preciso é gente
gente com garra
gente que tenha garra
que mostre a garra

O que é preciso é gente
gente que não seja malevolente
nem indolente
nem insolente
nem prepotente
mas, sim, gente polivalente

RESILIENTE

O que é preciso é gente
gente com mentes sãs
mesmo que carreguem algumas cãs
gente com alma sadia
que não viva uma vida vazia

O que é preciso é gente 
que espicace toda essa gente
que, dominada pela indolência,
não é gente
como esta gente
que não se deixa dominar por gente

INDIFERENTE!

Gente que é gente
Vai à luta
Só assim sabe que é gente

Gente que é gente
Partilha o saber
E, em todos os seus gestos,
Esta gente dá amor
Esta gente traz palavras que têm cor
E todos os seus gestos emanam calor
Esta gente solta freios
E mata os silêncios alheios.

25 de abril de 2017

NASCI CRAVO


Nasci flor. Vermelho em todo o seu esplendor. Discreta e sem vaidade, de suave odor mas com muita cor. Cor do amor. 
Enchia campos, enchia jarras de cristal. Um tempo houve em que enchi espingardas. Calei-as, não cuspiram balas, nem deram coronhadas! 
Então, o meu destino mudou. Agora, passeio-me nas lapelas, sou agitada como estandarte ao vento. Nasci cravo mas não sou mais flor, já não vou murchar. Hoje, sou a liberdade, estou aqui para firmemente ficar.

HORA DO CONTO NA BIBLIOTECA DE FUNDO DE VILA

A convite da Junta de Freguesia de S. João da Madeira, levei o meu livro Do cinzento ao azul celeste aos alunos da escola EB1 de Fundo de Vila para uma hora de conto/conversa sobre os valores de abril. Depois da leitura e da conversa, ficou aberto caminho para a escrita. E foi assim que algumas crianças de segundo e terceiro anos definiram liberdade.

  • "A liberdade é uma gaiola de portas abertas." . Gabriel
  • "A liberdade é a escola que nos dá educação." - Maria Leonor
  • "A liberdade é ter asas." - Edgar
  • "A liberdade é a forma como concretizamos os nossos desejos e seguimos o nosso caminho a voar," Gabriel
  • "A liberdade é um tempo feliz."
  • "A liberdade é como uma flor aberta no jardim,"
  • "A liberdade é a árvore que se alimenta da seiva" - Maria Leonor
  • "A liberdade é ter tempo para ser feliz." Maria Leonor
  • "A liberdade é como a flor a abrir com a paz." - Maria Leonor
  • "A liberdade vem com o mar." Lara
  • "Sem liberdade seríamos prisioneiros do tempo." Mariana