1 de setembro de 2019

VERÃO

Os olhos enchem-se de verde
riscado pelo voo da ave viajante.
Verão em estado puro!

31 de agosto de 2019

FIM DE FÉRIAS

A manhã desponta particularmente quieta. 
Abro a janela do quarto de hotel e respiro o ar limpo que vem do jardim onde repousam as cadeiras da piscina, ainda vagas, milimetricamente alinhadas. 
A sala do pequeno-almoço também se encontra particularmente vazia. Os hóspedes já partiram ou estarão mais ensonados do que o costume? 
Chego à praia. Quase deserta, também. O meu recanto, entre rochas, aguarda-me e oferece-me sombra. Apenas se ouve o ligeiro bater das minúsculas ondas na areia, a música da praia. O mar chama-me. Está só e quer companhia. Faço-lhe a vontade. Sigo por ele adentro. A transparência da água permite ver o fundo e apanhar uma concha aqui, um búzio ali. Um cardume passa apressado em direção à outra banda. Parece fugir das barulhentas gaivotas que, esfomeadas, veem nos pequenos peixes grande banquete. 
Caminho em frente, cortando a água. Olho a praia que fica para trás, longe. E prossigo, sempre em frente, até perder o pé. Continuo só, com tanto mar só para mim. Poderia ficar aqui, transformada em sereia à espera de um Ulisses que me viesse buscar. Poderia, até, morrer neste momento, levaria o mar comigo.
Mas a realidade chama-me à razão. É fim de férias, o trabalho espera-me. 
Num dia que acorda assim, é mais difícil dizer adeus!



15 de agosto de 2019

PERDIDOS NA DIREÇÃO DA PAZ

A aldeia tem muito sol e, embora não tenha areia nem mar, atrai turistas, os poucos que se querem sentir perdidos na direção da paz. 
É o local ideal para ler ou passear com um amigo especial ao longo das ruas empedradas ou do silencioso rio. Aqui nada importa. Nem as possíveis picadas das abelhas que rondam o farnel, atraídas pelo convidativo leite creme
A luz realça o aveludado das rosas dos jardins. E tudo é suavidade!

3 de agosto de 2019

PRECISA DE AJUDA?

Caminhava como um autómato, cabeça longe, as pernas conduziam-na ao acaso. Uma tontura súbita fê-la encostar-se à parede. Preparava-se para continuar quando 
- Precisa de ajuda? 
Maria Luísa não ouve à primeira. Andou uns metros e parou. Só então se apercebeu que alguém lhe falava. Não estava habituada a que fossem gentis com ela, muito menos que lhe oferecessem ajuda. 
- Precisa de ajuda? 
Sim, precisava. Há meses que calcorreava a cidade, procurava emprego. Teria algum para lhe oferecer? 

Frase  a negrito do livro O pianista de hotel, de Rodrigo Guedes de Carvalho, pág.449

15 de julho de 2019

VIAGEM CULTURAL A FRANÇA

O Agrupamento de Escolas João da Silva Correia, onde trabalho, voltou a proporcionar aos alunos de 9ºano uma viagem memorável a França, de 1 a 6 de julho, organizada pelo grupo de Francês. 
As badaladas das seis horas da manhã assinalaram a partida de 102 alunos e 10 professoras, numa excitação pela previsão de uma semana animada e cheia de aventura. Era grande a expectativa de muitos alunos que, pela primeira vez, iriam descobrir recantos deste magnífico país cuja língua e cultura estudaram durante três anos. 
Durante o percurso, o grupo teve a possibilidade de conhecer as paisagens que os imensos quilómetros mostraram e de descobrir locais incríveis. 
Em Poitiers, o parque temático Futuroscope (parque europeu da imagem) com atrações baseadas em suportes multimédia, técnicas cinematográficas, audiovisuais e robótica do futuro, ofereceu adrenalina, conhecimentos e diversão. O grupo deu um autêntico mergulho no futuro através de experiências 3D, assentos animados, efeitos de velocidade, viagens espaciais, culminando com um surpreendente espetáculo noturno. 
 A belíssima zona do Loire e um dos seus famosos castelos, Chenonceau (mantido e embelezado pelas mulheres que lá viveram), assim como a doce cidade de Amboise, com as suas casas trogloditas e o solar Clos Lucé, construído no século XV (onde viveu e morreu Leonardo da Vinci) permitiram encher os olhos de beleza e respirar pureza. 
A viagem prosseguiu para norte, até Paris, a cidade mágica. Calcorreando ruas e avenidas, o grupo viajou no Sena, visitou o museu do Louvre, o Sacré-Coeur, a Place do Tertre, misturando-se com os artistas, subiu à Torre Eiffel. Numa rápida viagem panorâmica pela cidade, ainda houve tempo para observar o exterior do Panteão, da mais famosa universidade de Paris (La Sorbonne), do bairro de Saint-Germain-des-Près, da Catedral Notre-Dame, do Centro Beaubourg/Georges Pompidou, do Arc du Triomphe e para atravessar os Campos Elísios. 




O momento mais esperado chegou, com os jovens excitadíssimos por poderem passar um dia inteiro no feérico parque Disneyland Paris onde a adrenalina voltou a inundá-los. 
E assim se passou uma semana incrivelmente rica, repleta de experiências multissensoriais, aprendizagens, diversão pura e convívio que, com certeza, ficará gravada para sempre nas suas memórias!


24 de abril de 2019

VIAGEM À POLÓNIA

A visita à Polónia, de 12 a 16 de abril, revelou-se um autêntico mergulho na História. Vinte alunos do ensino secundário e quatro professoras da escola secundária João da Silva Correia puderam conviver, partilhar histórias e aprender. Mais do que um manual escolar, a viagem permitiu o contacto direto com os locais, as gentes, a língua, proporcionando experiências sensoriais e profusão de cultura. A cidade de Cracóvia é uma cidade que resistiu a muitos tumultos e sobreviveu à ocupação alemã, ao contrário das principais cidades polacas que ficaram em ruínas. Ali, o grupo calcorreou ruas e ruelas, parques, praças e jardins. Entrou em livrarias, palácios, museus, igrejas e catedrais de grande beleza. Nos imensos bares, restaurantes, tasquinhas e salões de chá, saboreou os famosos pierogi (de carne, espinafres ou queijo) ou os ruskies (com batata, cebola e queijo) e os típicos bagels (pão em forma de anel com crosta polvilhada de sal e sementes de papoila).

Cracóvia exibe, decididamente, dois lados bem opostos: o lado ancestral, com monumentos góticos, fachadas antigas, caleches à espera dos clientes, e o seu lado moderno e cosmopolita, tudo iluminado pelas flores coloridas que proliferam em todas as esplanadas, parques e pátios ajardinados.




Foi com bastante expectativa que o grupo esperou o aparecimento do “trompetista de Cracóvia” que, do alto de uma das torres da igreja de Santa Maria, faz soar o hejnal, ritual que lembra a lenda segundo a qual, em 1241, o trompetista fora mortalmente atingido por uma flecha que se lhe atravessou no pescoço, quando avisava a cidade do ataque dos mongóis. 
Foi sentida como mágica a colina que exibe o sumptuoso Castelo de Wawel, o mais completo exemplo de arte medieval, renascentista e barroca, e a catedral onde foram coroados e sepultados quase todos os reis polacos. Na base da colina, nas margens do rio Vístula, um dragão que cospe fogo lembra a lenda do sapateiro que o derrotou com uma ovelha cheia de enxofre, casou com a princesa, tendo-se tornado rei e erigido o castelo.




A parecer um conto de fadas foi a visita às Minas de Wieliczka, um complexo grandioso de túneis onde surgem lagos salgados e se abrem várias câmaras decoradas com esculturas, baixos relevos e recriações históricas. Aqui, o grupo tomou conhecimento de mais uma lenda polaca que narra a história de uma princesa húngara, prometida a um príncipe polaco, que pediu ao pai sal de gema, algo muito raro na Polónia, e atirou o seu anel ao poço da mina ordenando-lhe que a seguisse até Cracóvia. Quando chegou, pediu a alguns mineiros que escavassem um buraco e eles encontraram um pedaço de sal e o seu anel. Estas minas têm uma profundidade de 327 metros (apenas 235 metros estão acessíveis aos visitantes) e o seu interior é outra cidade: numa capela, “a catedral subterrânea da Polónia”, todos os domingos há missa e, por vezes, também lá decorrem concertos e casamentos. 





A visita ao Bairro Judeu de Kazimierz, à Fábrica se Schindler e aos campos de concentração Auschwitz-Birkenau foram o ponto alto da viagem. São locais que deixam marcas a quem os visita, onde se sente a discriminação e se respira injustiça sofrida pelo povo judeu antes e durante a II Guerra Mundial. O Bairro Judeu faz lembrar um bairro-fantasma com o seu empedrado e fachadas gastas. No gueto, agora vazio, parece que alguém ainda respira e pede socorro. Na antiga fábrica de Schindler, agora museu, os visitantes assistem a várias exposições interativas: as imagens, associadas a sirenes e tiros de canhões, colocam-nos em plena guerra. Em Auschwitz-Birkenau resistem todas as provas vivas das atrocidades cometidas pelos nazis. Numa viagem dolorosa a um passado, não tão distante assim, sente-se fundo o quanto o ser humano pode ser perigoso. E um frio inexplicável percorre o corpo de todos aqueles que ali vão. Tudo ali é cruel. O arame farpado, os imensos blocos de tijolo vermelho onde sobreviviam os prisioneiros, os seus objetos pessoais amontoados e expostos ostensivamente em vitrines (próteses, malas de viagem, calçado, óculos, roupa, louça e toneladas de cabelo, muito dele ainda entrançado) chocam, assim como chocam os corredores com fotografias dos prisioneiros. 


~



E conclui-se que a palavra desumanidade não chega para definir o que se passou durante este período negro da História. No fim da viagem, resta uma pergunta inevitável para a qual não há resposta: como é possível que pessoas cometam tal barbaridade a outras pessoas? 
Os museus do Holocausto existem para que a História não seja esquecida e não se repita porque, citando George Santayana, “aquele que não lembra a história está condenado a vivê-la novamente”. Ter visto jovens alunos a chorar perante aquilo que puderam observar foi a sensação plena do objetivo cumprido. A História entrou-lhes (entrou-nos!) na alma, coisa que os manuais escolares não permitem!

17 de abril de 2019

HOMENAGEM

Não aguentei ver-te ali deitada, inerte, entregue a um anjo que te queria levar com ele. Quis gritar, mas… calei-me e chorei. 
Daquilo que me lembrei? De todas as histórias partilhadas, da tua gargalhada sonora, do teu saber, mas sobretudo uma coisa ficou e ficará sempre: a tua força contagiante. Qualquer obstáculo que surgia não era impedimento para avançares e ires à luta. 
O que dizer mais? Podia continuar aqui a escrever, mas as lágrimas não permitem.

15 de janeiro de 2019

DISCURSO POLÍTICO

- Igualdade?!! Desde que o mundo é mundo, há gentes diferentes. Há ricos e pobres, brancos e negros, fortes e fracos. Há gente que manda e gente que obedece. Uns servem, os outros são servidos. Deus fez o mundo assim, tão desigual, por algum motivo. E quem se atreve a contrariar Deus?!!! 
A ovação, no final do discurso, fê-lo acreditar na vitória. Mas, as eleições trespassaram-lhe o orgulho. A derrota fez o mundo acreditar que ainda tem salvação!

13 de janeiro de 2019

FARTA!

Sentia-se figurante na sua própria vida. Farta de fogão e fogareiro, sem outros fogos ou fagulhas, apetecia-lhe metê-lo num foguetão, enviá-lo para outra galáxia. 
Figurinha tão ridícula a dele! Sempre de pijama e chinelos, cigarro e garrafa de vinho, não haveria o fígado de aguentar muito mais! 
Quando ele partiu, Elsa mandou estalejar foguetes. E ainda haveria de se apaixonar pelo fogueteiro Fagundes, exímio fagotista. Assim, teria sempre luz e música a embelezar-lhe-lhe os dias tão fugazes

Desafio nº 160 – palavras com FAG, FIG, FOG, FUG

2 de janeiro de 2019

FAZER A DIFERENÇA

Um dia chegaram em bando. Desconfiados. Desintegrados. Rejeitados pelas escolas frequentadas, marginalizados pelo mundo. Donos apenas de si próprios.
A tarefa adivinhava-se árdua, talvez impossível.
Como agir? Ignorar? Julgar? Moralizar?
Não passaria por aqui a opção. Mais afeto, menos razão, isso sim! 
Hoje, um olhar transparente.
Amanhã, uma mão amiga.
Depois, uma palavra assertiva.
Finalmente, dois ouvidos atentos. Deixá-los falar, desnudar as suas vidas.
Um dia entraram na minha sala de aula e instalaram-se no meu coração.