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17 de abril de 2016

SOMOS NADA!!!

Não entendo como alguém se pode retirar da vida! 
Talvez porque sou feliz, disseram-me!
Quem é feliz quer viver, quer prolongar cada instante mesmo que tenha de travar lutas diárias. 
Hoje, do alto do meu quinto andar, depois de ter ouvido um estrondo no exterior, vi uma mulher estendida na linha do comboio.
Acabou de fumar um cigarro, esperou que o comboio se aproximasse e entregou-se-lhe. Literalmente abalroada, ali ficou estendida, horas, sozinha, debaixo de chuva, amortalhada, até que as autoridades se dignassem levá-la para terminar, com alguma dignidade, tão triste episódio. 
Não sei quem é. Não sei o que pensou no momento (se pensou!). Não sei o que a levou a fazer tal ato de desespero frente a testemunhas. Só sei que somos mesmo “bichos da terra tão pequenos”, como o escreveu Luís de Camões. Frágeis. Indefesos. Impotentes. Somos nada.

31 de dezembro de 2015

PAZ-NA-TERRA-AOS-HOMENS-DE-BOA-VONTADE!

Hoje senti-me mal. Terrivelmente mal!
Precisei de meia hora de estacionamento para o meu carro. Meia hora que tive de pagar. Fosse esse o mal maior!
Último dia do ano. Época de balanços. E a balança tombou pesadamente para o lado da miséria.
Enquanto punha umas moedas nos parquímetros, uma velhinha aproximou-se a pedir dinheiro para dar de comer aos três netos e à filha. Eu alimentava a máquina. Ela não tinha com que alimentar a família. Tão velhinha, deveria ter quem se preocupasse com ela, não deveria ser ela a estar preocupada com os seus.
Uns metros à frente, um polícia vigiava ferozmente os carros estacionados. E multava todos os que não exibissem o papelucho das malditas maquinetas. Alguns condutores teriam ido, provavelmente, apenas tomar um simples café ou dar um rápido recado. E o dia saiu-lhes caro. E os polícias agiram assim, na véspera de Natal e hoje, também! Como lobos esfaimados atrás da presa. Mas, fosse esse o mal maior!
A velhinha continuou vagarosamente o seu percurso. Na rua continuava a ouvir-se uma suave melodia de Natal. “Noite Feliz! Noite Feliz”. Porém, as moedas não entravam no seu bolso, para que ela tivesse o vislumbre de alguma felicidade. Tinham outro destino. Para alimentar quem? O que se faz com o dinheiro que as máquinas engolem diariamente? Serve o bem-estar social? Ou alimenta ideias megalómanas?

Porque o espírito natalício ainda paira por aí e hoje é o último dia do ano e todos desejam um feliz-ano-novo a todos, só apetece dizer: Glória-a-Deus-nas-alturas-e-paz-na-terra-aos-homens-de-boa-vontade. 

26 de janeiro de 2014

O MURO

Hoje, sentada frente ao computador, depois de ter encontrado antigos alunos numa rede social, decidi dedicar uns minutos à limpeza da alma... Recordar. Reviver momentos duros mas que me tornaram mais humana, mais sensível e mais tolerante. 
As recordações levaram-me a um tempo, algures entre o espanto e o medo, entre a impotência e a esperança. 
Era a primeira vez que me atribuíam uma turma assim. Eram quinze. Quinze vivências complicadas, quinze problemas. Mas um sobressaía: o problema maior. 
Luís era um rapaz de doze anos mas não era um rapaz como qualquer outro. Doze anos e tanta mágoa acumulada! 
Tinham-lhe amputado a infância! Não aprendeu a brincar, nem a conviver, nem a conversar, nem a ser ouvido. Nunca ouvira a voz carinhosa duma mãe, nunca vira o sorriso de orgulho de um pai, nunca escutara uma história no aconchego dos lençóis. 
Luís era filho do álcool, não aprendeu a alegria! Luís não aprendeu a ser gente. Luís apenas sabia ser um bicho que não sabia comunicar com adultos a não ser a pontapé. O bicho não falava, não sorria, apenas grunhia. O mundo tornara-se-lhe tão escuro, tão medonho, tão… injusto (?)! 
E agora? O que lhe exigia a vida? Uma escolaridade obrigatória de nove anos. Seis já estavam passados. Mal passados, convenhamos, pois ele não aprendera a ler nem a escrever uma linha que fosse. A sua vida, de poucos anos mas muito vivida, tornou-se um puzzle de cor negra composto por peças macabras: pai violento, dois irmãos, bem mais velhos, toxicodependentes e regularmente detidos por assaltos e posse de droga, incompreensão. E, provavelmente, muitos porquês para confundir ainda mais o puzzle! 
E aquele rapaz decidira transformar-se no terror da escola. Todos fugiam quando ele aparecia. Ninguém queria vê-lo, brincar ou conversar com ele. Desconhecia o que era receber uma carícia, um beijo, uma festa nos cabelos, um segredo. 
Não poderei esquecer o dia em que entrou na sala de aula e atirou um pesado pau para o ar. Por sorte, o pau caiu no quadro. Teria rachado a cabeça de alguém se nela tivesse caído. 
Nem poderei esquecer o dia em que foi apanhado a assaltar o bar. 
Nem os dias em que se metia em zaragatas. 
Nem os dias (todos) em que havia queixas dele. 
Mas também não poderei esquecer o dia, meses passados, em que consegui derrubar alguns tijolos do altíssimo muro que o Luís tinha construído à sua volta. Foi o suficiente para poder espreitar para dentro dele e ele permitiu-me entrar. Concordou comigo. O muro era a sua defesa. Cresceu a defender-se da vida. Não confiava nos adultos porque os adultos que deveriam ser a sua referência agrediam e agrediam-se. 
E, depois dessa curta conversa, ambos sentados num banco do polivalente, o Luís prometeu que me iria facilitar a vida, como diretora de turma, e não me arranjaria mais problemas. 
(Ainda hoje estou convencida que, nesse dia, ele se sentiu um cãozinho rafeiro abandonado, feliz porque alguém lhe permitiu enroscar-se nas pernas!...) 
O Luís cumpriu a palavra e facilitou a minha vida. Mas escolheu a pior maneira de o fazer: deixou de ir a quase todas as aulas. Assim, não haveria queixas, nem suspensões, nem problemas. 
Falhei! Não consegui convencê-lo a frequentar as aulas. E ele continuava a achar que, só assim. Só assim não iria incomodar. Só assim os outros poderiam ter sossego. 
- Fazer o quê nas aulas? Olho para a porta e até me apetece trincá-la! – dizia com os olhos a faiscar. 
E o conselho de turma tinha mais catorze a quem dar atenção individualizada. Cada um era especial e único. Todos diferentes mas todos iguais na postura face à escola. 
O Luís reprovou o ano, claro! Contra a minha vontade, claro! Quatro páginas de ata a argumentar a favor da sua transição, para poder acompanhar a turma, agora que estava menos agressivo, não foram convincentes. 
No ano seguinte, não houve currículo alternativo e o Luís foi integrado numa turma de currículo normal. O Luís nunca compareceu, claro! Esperava-se! 
E os dias passaram. O Luís vivia na mesma cidade que eu, encontrava-me na rua e vinha ter comigo. Pedia-me uma moedita para um café (café?!!!) e eu dava-lha. Se estivesse acompanhado de algum colega, apresentava-me como sendo a sua professora. E sorria. A última vez que lhe vi um sorriso, vi-lhe a falta de dentes. E ele não tinha mais de vinte anos! 
Agora, anos passados, o Luís já cá não está. 
Não foi notícia de jornal nem de telejornal. 
Atropelado, disseram uns. 
Overdose, disseram outros.

29 de junho de 2013

QUANDO A INDIGÊNCIA NOS CAI AO LADO

"Faça o que puder, com o que tem, onde estiver." Theodore Roosevelt 

Hoje, provei um Porto de vários sabores. Consumi Porto durante os quatro anos que duraram o curso na Faculdade de Letras. E o Porto ficou ferrado cá dentro. Fundo. 
Muitos anos se passaram desde então. Já não passeava a baixa desta cidade há imenso tempo e, hoje, voltei. A tarde convidava a calcorreá-la e, depois de um inverno rigoroso, foi como se tivesse acordado estremunhada nas suas ruas, ladeadas de esplanadas cheias de gente a abraçar o sol que, desde manhã cedo, desabou sobre a cidade. Em quase todos os cafés, cartazes apregoavam a gulosa francesinha. Descobri que Santa Catarina continua com o seu ar cosmopolita de que me lembrava. E tudo à sua volta se mantinha. As mesmas lojas, as mesmas montras. Os mesmos carris a sulcar as ruas, agora sem elétricos.
E a saudade de tempos tão felizes deu lugar à surpresa. Distraída à procura de vestígios de alguma mudança, caiu-me ao lado a indigência. 
Chama-se Pedro (chamemos-lhe assim, não lhe perguntei o nome!). Apanhada de surpresa pela repentina abordagem, ainda tonta de sol e de enlevo pelo reencontro com a cidade, parei para ver o que desejava aquele rapaz que se plantou diante de mim. Pensei que apenas quereria uma informação, que mais poderia ser? 
Pedro agradeceu por eu ter parado. A senhora que abordara, antes de mim, tinha-o insultado e humilhado. E deixou-lhe a alma tão amarrotada e enxovalhada quanto a roupa que vestia. A sua mão ainda tremia. Pela vergonha dos insultos, pela vergonha da sua condição (des)humana. Sentiu-se mal, muito mal por ter sido injuriado daquela maneira. Sentiu-se um cão rafeiro abandonado, enxotado por não ter o direito de incomodar quem se passeia na indiferença! 
De vez em quando tenho esta mania. Ficar a ouvir as pessoas que me abordam na rua. Já me dei mal mas, desta vez, algo me dizia que aquele ser precisava mesmo que lhe estendessem a mão para se poder levantar. Ouvi o Pedro, ali especada. 
Tinha saído da prisão, de manhã bem cedo, depois de ter cumprido quatro anos e meio de pena, por ter roubado um carro. Custóias abriu-lhe as portas para o deixar sair em liberdade e, (ironia!) enfrentar a prisão da vida. Apenas possuía alguns documentos. Veio para a rua sem dinheiro, sem família, sem emprego, sem dignidade, sem esperança. E sem bilhete para regressar à terra. A sua vila natal esperá-lo-ia se alguém lhe tivesse colocado nas mãos um bilhete de autocarro ou de comboio. Pensei que seria essa a obrigação da assistência social, nestes casos. Pedro também pensava assim. Pelos vistos não. 
Algo no seu rosto (talvez o olhar, talvez o tom de voz) e nos seus modos educados, enquanto me contava a sua história de desamor, me fizeram acreditar nele. Tinha acabado de sair da prisão e fazia vinte e sete anos. Dia de aniversário sem velas para soprar! Ninguém para lhe cantar os parabéns ou oferecer-lhe uma carícia.
Não, não era drogado, garantiu-me. O mais próximo que esteve das drogas foi do haxixe que experimentou aos treze anos e não gostou. Os três dentes que lhe faltavam – garantiu-me – (e eu nem tinha reparado!) não eram obra da droga mas de um guarda da prisão. 
Fiz o gesto de ir à carteira. Interrompeu-mo com outro gesto. Não! Não queria dinheiro. Insistiu nisso várias vezes. Não queria dinheiro. Que ele faz falta a toda a gente, lá isso faz! Mas não me abordou para me pedir dinheiro, muito menos para me assaltar. Apenas queria que fosse com ele até S. Bento para lhe comprar a tal passagem para a terra. E água. Queria água. Desde manhã que não bebia e estava desidratado. A garrafa que eu trazia na carteira desacorrentou o brilho do olhar quando lha dei. 
Pedro quis saber se sou mãe. Sim, sou. E foi com voz embargada de comoção que confessou que a única coisa que desejava naquele momento era ter uma mãe que o recebesse e abraçasse quando chegasse a casa. Mas Pedro não tem mãe. Nem pai. Nem família. Apenas tem a casa que a mãe lhe deixou. Sem abraços. 
A vida tem dois lados. É uma constante dialética que nos move e os contrastes da vida são gritantes. A noite e o dia; a sombra e o sol; o mal e o bem; o medo e a coragem. Todos os medos têm dois lados. Um que convida a fugir e outro que obriga a enfrentar. 
Cheguei a ter medo, quis virar costas e partir rapidamente para a minha zona de conforto. Mas algo gritou bem alto e obrigou-me a ficar. E, o mais provável, é que esta tenha sido apenas uma história bem contada por alguém habituado a ludibriar gente crédula como eu. Mas não faz mal. Cinco euros e uma garrafa de água a menos não me deixaram mais pobre. E o meu ser ficou mais rico, pelo menos durante dez minutos de diálogo. Um desafortunado teve a fortuna de poder falar com alguém que parou para o ouvir e lhe dar a esmola da atenção; alguém que conhece e valoriza a dignidade humana. Aparentemente, deixei uma pessoa mais feliz. Partiu e levou recado. 
Quando chegou a minha vez de apanhar o autocarro, uma inscrição na parede colou-se-me aos olhos. Como se alguém a tivesse colocado ali, de propósito, para me fazer pensar: “A chegada é apenas mais um ponto de partida.” Cheguei ao Porto com sabor a saudade e parti, horas depois, com outro sabor. Amargo-doce. 
A chegada ao Porto, afinal, não foi mais que um ponto de partida para uma reflexão sobre a vida, sobre o nosso estar aqui e agora. 
A vida cansa-nos com palermices, com ninharias que não valem nada. A vida exige tanto de nós que nos distrai e não nos deixa espaço para repararmos naquilo que realmente é importante. 
A vida atafulha-nos os ouvidos com ruídos que ensurdecem e não nos dá tempo para ouvirmos o grito mudo da pessoa que, ao nosso lado, precisa de ajuda. E agradecemos que essa pessoa continue acomodada na sua mudez e não nos toque no braço a mendigar atenção. 
A vida embrutece-nos. A tal ponto que há sempre alguém a procurar a paz na música dos anjos porque, na Terra, ninguém ouviu o seu silêncio. 
"Não temos nas nossas mãos as soluções para todos os problemas do mundo, mas diante de todos os problemas do mundo temos as nossas mãos." - escreveu Friedrich Schiller. E temos os sorrisos. E a delicadeza. E os dicionários com uma palavra tão grande e tão difícil de pronunciar mas tão fácil de usar: solidariedade. E tantas outras palavras cor de rosa, bolas de fofo algodão doce, que tornam o mundo mais delicado e tão, mas tão, açucarado.

14 de julho de 2012

CONVERSAS QUE MAGOAM


Há conversas que magoam. Não porque sejam insultuosas ou rebaixantes. Magoam porque revelam uma realidade tão cruel que até dói. Esta, ouvida, hoje, na caixa de pagamento do hipermercado, não foi propriamente uma conversa. Começou por ser um monólogo que a menina da caixa transformou em diálogo, penso que por obrigação ou mera simpatia, pois era eu que estava a ser atendida. O monólogo começou atrás de mim. Uma senhora de aspeto humilde e envelhecido, (certamente de idade inferior à que aparenta), exclamou:
- As cenouras estão por um preço que não se pode. Subiram para o dobro. Ainda há pouco estavam a 30 ou 35 cêntimos e, agora, estão a 75.
E continuou, sozinha, a desfiar o rosário dos preços altos.
Ao fim de algum tempo, a menina da caixa comentou:
- Já estão a esse preço há uma semana. Não sei se há falta e, por isso, o preço subiu.
A senhora continuou:
- Não se admite! Subiram para o dobro. Nem levo!
Paguei e saí, sem abrir a boca, incomodada e culpada. Eu levava cenouras e não sabia o preço delas.

1 de maio de 2012

MISÉRIA A PASSOS LARGOS


A cidade onde vivo é considerada uma das cidades do país onde há melhor qualidade de vida. Sempre o senti. Vivo aqui há vinte e seis anos e sempre me senti bem. Eu e todos que cá vivem. Tudo é pacífico, o trânsito não provoca engarrafamentos de perder a paciência, não falta nada. Não faltava.
Nunca pensei, até hoje, que iria testemunhar uma situação tão oposta. Mesmo frente ao meu prédio, mesmo no contentor onde despejo diariamente o meu lixo doméstico. Hoje, não me atrevi a deixar ali o saco. Faltou-me a coragem!
Não consegui despejar o meu lixo que um ser humano iria escabulhar para recuperar algo que a minha abundância se atrevera a desperdiçar da mesma forma que já escabulhava os despojos e desperdícios de outros. Operação demorada, a dele!
Isto passou-se hoje, ao início da noite. Num dia em que se festejou (festejou?) o Dia do Trabalhador. Este homem gostaria, provavelmente, de ser um trabalhador e de ter trabalhado neste 1º de maio.
Isto passou-se hoje, no final de um dia em que a população portuguesa se atropelou, se esgadanhou, se digladiou numa cadeia de hipermercados para comprar indiscriminadamente, sem critério ou necessidade, e gastou mais de 100€ para poupar 50%. E gastou tempo e paciência e tolerância e, certamente, comprou produtos que nunca vai gastar. Um dia mais tarde, é quase certo, estes produtos irão parar ao contentor onde este homem irá de novo vasculhar para encontrar algo que encha a sua panela.
Este homem viveu o feriado do trabalhador mas não o festejou.
Este homem não teve 100€ para ir a correr gastá-lo no hipermercado da louca promoção.
Este homem não teve comida no prato.
Este homem festeja a vida com os restos que encontra no contentor do lixo.
Está a ficar assim a cidade onde vivo? Se é uma das cidades com melhor qualidade de vida do país, como anda o país?
Tenho vergonha! Se os olhos não veem, o coração não sente. Os meus olhos viram. Doeu. Dói.