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21 de março de 2018

17 de dezembro de 2017

MARCAS

Era um provador, numa loja de roupa, como qualquer outro provador. Um cubículo pequeno com um espelho para refletir as vaidades. 
Por momentos, tudo mudou. Não era vaidade que estava ali, era o tempo a fazer das suas. O tempo, esse inimigo da juventude. O tempo, esse implacável vilão que não perdoa e deixa marcas dolorosas. 
Ela só queria experimentar as calças. 
Eu só queria dar uma opinião e ter a prenda de Natal resolvida. Um problema a menos, se as calças servissem. 
Mas algo fez a diferença. Lentamente, com a dificuldade de movimentos que a idade impõe e que os quilos acumulados exigem, a roupa foi despida e o corpo nu mostrou-se. 
Olhei-o, incrédula. Não condizia com a linda cabeleira branca que lhe dava um charme maduro. 
Entre o choque no olhar e a ausência de reação, desabou-me tudo! 
Já tenho idade suficiente para saber que não há milagres e que o futuro é isto. Sim, já tenho idade para ver, no presente, que o meu futuro será, também, isto. 
Pernas que já foram lisas e brancas deixaram-se ruir pelas varizes, pelas gorduras, pelas engelhas e manchar pelas quedas, pelos atropelos aos móveis. 
Joelhos que já foram bem torneados e que, saídos das minissaias, espevitaram homens, deixaram-se entortar. 
Tudo isto escondido! Tudo isto a roupa escondia! 
Imóvel fiquei. Sem coragem para dizer o que quer que fosse. A ver, no espelho, os estragos. 
Ela apercebeu-se da minha estupefação. Agarrou-me a mão com firmeza e, sorrindo, também não disse nada. 
E foi, então, que resolvi olhá-la com outro olhar. E aprender, com a sua serenidade e força de viver, a encarar o inevitável.

29 de março de 2017

LEVOU-ME UM LIVRO...

...a um mundo a transbordar de amigos!


Branca de Neve. Cinderela. Aurora. As primeiras amigas. Com elas percorri salões de palácios magníficos, frequentei animados bailes cheios de luz e de cor e até dancei com príncipes! Foram dias magníficos de fantasia e diversão.
Os três porquinhos. O gato das botas. O gato Pompom. Crina Branca. Os amigos de quatro patas que não tinha em casa estavam nos livros. Com eles e com elas, preenchia os meus dias de uma infância feliz, quase sem televisão nem parafernália de jogos computorizados.
Cresci. Estes meus amigos e amigas não quiseram crescer comigo. Foram fazer outros amigos, mas deles ficaram guardadas as lembranças doces, bem fundo.
Outros amigos surgiram, ainda mais aventureiros!
Quanta adrenalina com os cinco amigos Júlio, Ana, David, Zé, e o seu cão! Quanto divertimento com as gémeas no colégio das Quatro Torres e no colégio de Santa Clara! Quantas aventuras vividas em cheio com os Sete!
Veio a adolescência. Romance. Amores. Sofrimento. Finais felizes.
Brigitte, Isabel, miss Grey, Margarida, Diana, Catarina, a Menina Aguaceiro, as mulherzinhas Zé, Gui, Melita e Bel eram agora as minhas melhores amigas e povoavam os meus sonhos e ilusões. Preenchiam por completo a minha vida. A mãe podia chamar, as irmãs gritar e o mundo desabar. Nada. Só a elas ouvia, só com elas convivia, sofria ou ria.
O tempo foi passando inexoravelmente e a lista de amigos crescia, aumentava, engrossava...
Foi então que surgiu na minha vida o surrealista e inconformista João Sem Medo. Veio também o escravo Pai Tomás mostrar-me a violência da História.
E os anos passavam...
Como sofri com Maria quando o Romeiro apareceu!
Como chorei, solidária, com Teresa e Simão Botelho!
Que famílias injustas as de Romeu e Julieta!
Que crueldade, a partida que a vida pregou a Carlos da Maia e Eduarda!
E aprendi mais. Aprendi que há sofrimentos maiores do que o do amor!
Prisão. Tortura. Pobreza. Miséria...
Como gostaria de tirar da miséria o Gineto e seus amigos de rua e poder salvar os meninos desprovidos de tudo apenas donos da areia da praia.
Como gostaria de dar a liberdade aos amigos que a perderam apenas por lutarem, justamente, contra as injustiças, por quererem aquilo a que tinham direito. Jofre, Carlos, João, Mariana e outros tantos resistentes apenas queriam um mundo melhor, livre.
Por essa mesma liberdade lutou o filho de Pelageya. Como sofreu esta mãe e me fez sofrer!
Como doeu a falta de liberdade de Anne Frank! Uma adolescência privada de tudo o que a adolescência tem de bom. Uma vida perdida vítima de tiranos assassinos.
Pobre Jean Valjean, sempre fugido!
Encontrei, também, outro tipo de falta de liberdade. Esta, voluntária, sem razão de ser, sem pretexto nem desculpas. Christiane F. é toxicodependente. Filhos da droga, muitos, levaram-me a ver esse mundo de decadência e degradação física do qual não há retorno. Morte, apenas! Vi. Aprendi.
Vi também outra dependência: a do jogo. Casino, roletas, dinheiro perdido, infelicidade. Alucinação! Foi Alexis Ivanovitch que me apresentou este mundo completamente desconhecido e impensado, até então.
Os livros permitiram sempre a viagem a mais um mundo: o do crime calculado, frio, insensível. Mas eram convidados os meus amigos Poirot, Miss Marple e Sherlock Holmes para os deslindarem. E faziam crescer, de forma bem inteligente, a expectativa até à última página.
Depois de tanta emoção, os amigos divertidos e brigões apareciam para descontrair e fazer rir. Sempre prontos para mais uma sessão de pancadaria nos romanos, lá estavam Astérix e o gordo Obélix. Gordo? Perdão, gordo não, cheio de peito. E lá estavam, também, a contestatária Mafalda. A irreverente Guidinha. O traquina Nicolau.
Hoje sou adulta. A lista de amigos não pára de crescer. Cada vez mais sofisticados, mais complexos.
A papisa Joana tão corajosa e lutadora. Guilherme de Baskerville tão inteligente e perspicaz. Como se tivesse entrado numa máquina do tempo, eles levaram-me à Idade Média.
Vianne Rocher, Júbilo e Lucha, Tita e Pedro levaram-me ao império dos sentidos...
E o desfile continua. Blimunda e Baltasar. Montag, o incendiário de livros. O fiel Florentino Ariza. A fria e traidora Teresa Raquin. O desesperado e infeliz Raskolnikov. A selvagem Eva Luna. O espantoso e fascinante Petter, a Aranha, vendedor de histórias. O severo professor Crastaing. O hediondo Jean Baptiste Grenouille.
Mais recentemente, e a idade isso permite, outros seres vieram engrossar a lista: Simon Axler e senhor Ulme , apresentam a realidade nua e crua do envelhecer. Carlos Brauer faz-nos percorrer a literatura universal. Eszter faz-nos ver a manipulação existente no mundo que nos rodeia. 
E tantos outros. Sem fronteiras, vencendo a geografia sem mapas nem GPS, fui criando laços. Estes meus amigos nunca me abandonaram. Estão sempre lá. Na saúde ou na doença, nas férias ou no trabalho, na solidão ou no meio do barulho, são a melhor companhia, um refúgio, uma animação. Ou, simplesmente, evasão. E todos eles, que me mostraram tantos mundos, fizeram-me criar o meu próprio mundo, fizeram-me criar as minhas estórias, que, agora, levo aos outros partilhando o que tenho dentro de mim. 
Levou-me um livro? 
Não! Levaram-me muitos.

30 de outubro de 2015

TERCEIRO ANIVERSÁRIO DO CLUBE DE LEITURA

Frio lá fora. Chove
Mas não neste clube 
Os livros aquecem.

A sessão de outubro do Clube de Leitura, na BM de S. João da Madeira, foi muito animada, apesar do tema morte, tema do livro do mês, As intermitências da morte, de José Saramago. Sendo a data de comemoração do terceiro aniversário do Clube, o grupo fez um "piquenique de burguesas", à boa moda de Cesário Verde. E, sim, "Houve uma coisa simplesmente bela,/E que, sem ter história nem grandezas,/Em todo o caso dava uma aguarela."



Como desafio, as leitoras foram convidadas a apresentar um texto que incluísse todos, ou grande parte, dos títulos lidos e os que já estão selecionados para futuras leituras. Deu nisto: 

 Carta de amor a um livro sem ninguém
 Se numa noite de inverno, debaixo de algum céu, um viajante me pedisse para escrever uma carta de amor, seria a ti. Dir-te-ia:
Livro, és o meu amor de perdição, sem fim à vista, mesmo que sejas um livro sem ninguém dentro. És a metade maior deste meu admirável mundo novo.
Contigo nas mãos, nenhuma humilhação me afeta e a desumanização do mundo esvai-se. Deixo de ser o homem duplicado, aquele que tem a vida que deseja ter e a vida que os outros acham que eu deva ter. Contigo, não preciso de fingir e, juntos, tornamo-nos transparentes.
Apenas contigo consigo criar fortes laços de família. Tu és a minha única família e, para não ter de te partilhar, escondo-te na casa dos budas ditosos, o meu refúgio, onde rapidamente passo do cinzento ao azul celeste das emoções. 
Que importa a fúria do mar se te tenho à mão para me acalmares?
Que importa viver constantemente no fio da navalha se te tenho ao lado para me salvares?
Tu és o meu livro do ano, todos os anos! Por favor, nunca me deixes!
Sempre teu,
Leitor anónimo

Nota: autores dos livros lidos e/ou a ler, por ordem de entrada no texto:
  1. Pedro Guilherme-Moreira
  2. Italo Calvino
  3. Nuno Camarneiro
  4. José Luís Peixoto
  5. Camilo Castelo Branco
  6. Raquel Ochoa
  7. Julieta Monginho
  8. Aldous Huxley
  9. Philip Roth
  10. valter hugo mãe
  11. José Saramago
  12. Ondjaki
  13. Clarice Lispector
  14. J. Ubaldo Ribeiro
  15. Ana Oliveira
  16. Ana Margarida Carvalho
  17. Somerset Maugham
  18. Afonso Cruz
  19. Kazuo Ishiguro

23 de setembro de 2015

FIM! (primeira versão)

Tanto que pode dizer uma imagem!!! Fotografia de Pedro Teixeira Neves.

Para mim deixou de haver amanhã. Contas feitas, sobrou nada. Desde o dia em que os móveis foram doados e apenas a poltrona, de tão velha e sem serventia, fora atirada para o jardim, tão mal cuidado como ela, como eu. E tanto que temos para contar. 
Já não sei quantos anos tenho. Setenta? Oitenta? Só sei que nada poderia acabar assim. 
 Destroços. Solidão. Abandono. É o que existe agora, é o que eu sinto, eu que conheci tanta vida! Mas os velhos ficaram mais velhos e a partida para o lar tornou-se inevitável. Como a poltrona ficou, também, velha e gasta, sem serventia, vai para a lixeira. Eu fui vendida, vou ser restaurada. Os novos donos não querem nada velho. Não seria melhor demolirem-me? 
Não me conformo. A poltrona de veludo vermelho ocupava um espaço de destaque dentro de mim. O de maior destaque, bem no centro da sala. Ambas testemunhamos todos os momentos importantes da família. Na poltrona, Emília foi pedida em casamento. Nela se sentou mal regressou das núpcias como se quisesse sossegar toda a excitação da viagem. Nela sentiu as primeiras dores de parto quando, entretida, terminava as últimas peças do enxoval da bebé. Nela amamentou a filha. Nela observou as brincadeiras de Ana. Nela viu-a ser pedida em casamento. Nela chorou, nela riu, nela afagou e recebeu afagos. E agora? 
Há muito que não sou pintada e a humidade come-me as entranhas. Perdi a cor da juventude e nem o jardim, de tão desmazelado, me disfarça as rugas. 
Emília já foi levada para o lar, o Alzheimer permitiu-lhe não sofrer as perdas. Não se apercebeu da minha degradação, da degradação dos móveis, do jardim. 
Já lá vão dez anos. Dez anos de doença, de desespero. Dez anos em que José ficou ali, a olhar por ela, a amparar-lhe a memória e as quedas, a evitar as fugas e as ausências. Sentados na poltrona vermelha, ora um, ora outro, viram desfilar o tempo numa passadeira cada vez mais envelhecida, cada vez mais carcomida. E ela cada vez mais envolta em sombras. E ele cada vez mais a anular-se para viver pelos dois. 
José viveu demasiado obcecado e ocupado com a doença da mulher. E eu, e tudo o que fez parte de mim, acabámos. 
Às vezes, Emília parecia uma criança. Pela maneira como ria, como pegava nas bonecas de porcelana da sua coleção, como olhava tudo à sua volta como se estivesse a descobrir cada recanto, cada pedacinho de mim. 
Sentado, seguindo a viagem dos ponteiros do relógio, agora avariado, vítima dele próprio, José lembrava-se muitas vezes dos livros que lera em conjunto com Emília, da forma tão incomum como organizaram a biblioteca pessoal, dos passeios de mãos dadas, das conversas intermináveis, dos jantares que partilharam com amigos fazendo sair do louceiro as porcelanas e, do jardim, as rosas que perfumavam jarras de cristal.
Dez anos depois, já só há o silêncio entre eles. Ana já não vive aqui há muito. O Canadá chamou-a e lá se instalou. Não se lembrou que um dia os pais seriam velhos, eu seria velha, os móveis e as louças seriam velhos. E as rosas murchariam. E não mais nasceriam flores no jardim. E a vida não se renovaria. E quando todos ficámos velhos, cheios de inutilidade, foi preciso tomar medidas. Ei-las. 
 Os meus donos só têm uma vida. E terão de descansar um dia. Encostado à balaustrada, para uma última despedida, parece que José se apercebeu disso. Saber que um dia se separará física e definitivamente de Emília transforma-o num espectro. 
Mas, ao contrário deles, a mim não me deixam descansar. Vou ser transformada e viver outra vida, outras vidas, perdida no labirinto dos sentimentos. Tenho medo!

7 de setembro de 2015

VIDAS

O homem estendido na areia despertava a curiosidade de todos os banhistas que iam chegando. 
Uma toalha de praia como lençol amparava-lhe o sono. Cabeça enconchada numa grande mochila, pele tisnada, sapatilhas e chinelos simetricamente alinhados com a toalha, o homem tinha ali passado a noite, pela certa. Ou o que restara da noite! E, pelo jeito, iria ali passar o dia, a dormir. Volta e meia, levantava as pálpebras, a querer dar os bons dias ao sol, mas este não estava para aturar madraços. Logo nesse dia em que tinha decidido ficar mais esperto e queimar tudo onde pousava. Por isso, espetava-lhe os raios e cegava-o e o homem voltava a fechar os olhos e a dormir. 
Eram dez horas da manhã, as pessoas continuavam a chegar ruidosamente e só apetecia saltar para a água. Mas ele continuava estático. Apenas os olhos, que de vez em quando se abriam, descansavam a praia que ficava a saber que ele estava vivo. 
Eis que chegou outro homem e abancou junto de uma mulher ali sentada, pelos vistos uma vizinha. Apercebeu-se que alguém, a pouca distância, dormia inocentemente, apesar do calor. Fixou os olhos naquele ser e, quando este, finalmente, mudou de posição e lhe mostrou o rosto, fez cara de espanto. Tinha acabado de reconhecer aquele “Belo Adormecido”! 
Foi o suficiente para que os dois vizinhos tivessem conversa para toda a manhã. 
- Aquele não é o Fonseca, o filho da D. Juliana? 
- É, pois. Imagino que passou aqui a noite, ultimamente tem sido esta a vida dele! Desde que a coitada morreu e o fundo de desemprego se foi, anda aí aos caídos. 
- O gajo é um cabrão. Tinha a mania que ficava sempre rapaz novo e nunca se convenceu que estava a ir para velho. Com aquela idade a viver em casa da mãe! Tanto que abusou dela! Tinha comida, cama, roupa lavada e o sacana dava-lhe apenas dez euros e ainda ficava à espera de troco. 
- Coitada da velha! O que ela teve de aturar.
- Coitada da velha, mesmo! Mas ela teve culpa, foi ela que o criou assim. Teve o que semeou, por muito que quisesse um filho exemplar. Depois que ele casou, foi viver num meio onde havia muitas solicitações. Bares, casino, pensões… O gajo gastava todo o dinheiro que ganhava em álcool, jogo e putas. A mulher não aguentou. Ninguém merece carregar tal cruz. Desapareceu com os filhos e ele nunca mais os viu. Foi nessa altura que ele deixou o apartamento alugado e se enfiou em casa da mãe.
- E ela? Aceitou-o, assim sem mais nem menos, sem condições? 
- Ela não tugiu nem mugiu, como era seu hábito. Nunca soube dizer não ao filho. E, aos cinquenta anos, ele julgava-se o puto de dezoito que entra em casa a desoras, depois da farra com os amigos, e ela nem dava por isso, ou fazia que não dava. É sempre mais fácil ignorar do que enfrentar. Entretanto, a vida desvairada piorou. E a mãe a alimentá-lo. 
- A velhota não chegou a andar de braço ao peito? Tenho ideia de a ter visto, ao longe, a entrar no talho. 
- Grande cabrão, o Fonseca! Partiu-lhe um braço na noite em que chegou a casa bêbado, depois de ter perdido uma pequena fortuna no casino. Ela tentou impedi-lo de beber mais, quando ele entrou e se agarrou à garrafa de whiskey. Deu no que deu. E deu mais: perdeu o emprego e a pouca dignidade que tinha. 
- Não entendo como ela não o pôs da porta para fora com um pontapé no cu… 
- É filho, não é? Depois que ela morreu e ele perdeu o direito ao fundo de desemprego, vendeu a casa dela para pagar dívidas e anda por aí, sem rei nem roque. O que lhe vale é o verão que está quente e praia é coisa que aqui não falta. O hotel que escolheu tem muitas estrelas!!!! 
… 
O sol anunciou o meio-dia. Abandonei a praia a seu convite. O homem continuava estendido. A conversa, pelos vistos, também se iria estender tarde adentro.

19 de agosto de 2015

VARREDURA

Alberta não aguentou mais tanto sentimento acumulado e saiu de casa com a alma pesada, manhã cedo, ainda o sol não despertara. Montou a bicicleta e voou estrada fora, perseguida por mil borboletas escapadas dos seus sonhos, há tanto aprisionados. Chegara a hora de batalhar, de obliterar o casamento, qual bilhete caducado, de se libertar de tanta tralha amontoada no coração e na cabeça. Foram sonhos adiados, decisões tomadas e não concretizadas, receios de enfrentar o vazio, falta de espaço. 
Foram dias, foram meses, foram anos. Sempre a mesma rotina. Sempre as mesmas palavras, sempre os mesmos gestos. Sem lugar para a novidade. Sentia-se à deriva dentro de si própria mas não procurava o caminho para se reencontrar e não sabia (ou não queria saber) como interpretar os diálogos travados com a sua consciência. 
A última arrumação das gavetas foi a bússola, o farol, o GPS, algo que lhe apontou a saída. Aquela varredura anual dos armários… uma metáfora? 
Se ao longo do ano acumulava papel, roupa inútil, cacos desnecessários e os atirava ao lixo no início do verão, porque não fazer o mesmo com a sua cabeça? Afinal, a sua relação não passava de um caco inútil e ela insistia em mantê-lo colado, por medo de o deitar fora e de admitir que já não tinha serventia. Sufocava com tanto que acumulava mas ia aguentando estoicamente. 
O vento que lhe soprava os longos cabelos e as ideias, enquanto pedalava, mostrou-lhe tudo quanto tinha guardado, à espera de melhores dias. Se não usa, por que carga de água tem de guardar? Para ocupar espaço? E os espaços cada vez mais apertados!... 
Sim, era certo, sabia que não seria fácil desapegar-se, assim, com um simples estalar de dedos. Presa paranoica de um coração ditador, não sabia por onde começar. O que iria parar primeiro ao caixote do lixo? 
Escolhas. Sempre o seu problema. Esta seria definitiva. Escolher a liberdade ou sufocar de vez. Escolher reencontrar-se consigo própria (não, não era egoísmo, era sanidade mental!) ou continuar a ser o que ele queria que fosse. 
Não se anularia mais. Ganhou coragem e, quando regressou, despojou-se da culpa, como se tivesse esvaziado os armários de toda a inutilidade. 
Junto às bétulas do jardim, pousou as malas, olhou a casa pela última vez e, sem esperar pelos pássaros que, àquela hora, faziam um concerto ao sol, mesmo não sendo decisão bilateral, partiu. 
O futuro já não morava ali.

(prolongamento do microconto "Como bilhete caducado")

12 de janeiro de 2012

MICROCONTOS

Mais dois microcontos: O poder da música e O poder da poesia, publicados aqui.
1.
Absorta nos seus pensamentos, Isabel regressa da escola no autocarro apinhado, colada aos outros passageiros. Com toda uma vida à sua frente, não se importa com o futuro, ainda tão distante. O mundo não é perfeito e Isabel sabe-o. Para quê estragar a sua juventude com pensamentos cinzentos? Desliga-se do mundo e liga-se à música que irrompe, ouvidos adentro, via iphone. E a música fá-la planar e fantasiar, esquecer e não sofrer, enfrentar a loucura da vida.

2.
A cidade é ruidosa, desumana. Homens e mulheres ruidosos e desumanos atravessam-na mecanicamente como fantoches manipulados por forças ocultas. Abrigada no seu quarto branco, ela sonha com um mundo melhor. E isso só o conseguirá com poesia. Sai, silenciosamente. Sem falar mas com um sorriso eloquente nos olhos, distribui papéis coloridos ao seu redor: nas árvores, nos para-brisas, nas caixas de correio… E os pequenos poemas levam àquela gente a cor, o saber, o sabor da alegria.

30 de dezembro de 2011

MICROCONTOS

Desafiada pela escritora Margarida Fonseca Santos a redigir pequeníssimos contos com, exatamente, 77 palavras, reduzi dois, escritos anteriormente, sofri muito e eis o resultado publicado aqui:

1.
Sento-me, desenho e vislumbro o Sena que desliza ao som de acordeões. A Noite quer entrar. Traja um vestido de veludo negro estrelado. Como reparou em mim?
- Desenha-me – pede.
Hoje, veio sozinha sem a inseparável amiga Lua.
Desenho-a, timidamente. Traço a traço.
- Está lindo! Nunca me pintaram com tanta perfeição.
A Manhã chega, estremunhada. A Noite vai partir.
Adoro este vigésimo andar. Fica afastado da rua mas perto do céu. Aqui, a Noite chega primeiro.


2.
Marci é simpático, meigo, desengonçado. Observa tudo ao redor, com os três olhos bem abertos. As longas antenas captam sons da casa e da rua: música a tocar, gente a falar, carros a buzinar. Mas não está confortável onde o alojaram. O dono cresceu, já não dorme naquele quarto tão arrumado. Marci sente-se só, enjoado.
Quer brincar, não tem com quem.
Quer conversar, não há ninguém.
Quer ver mundo, sair. Que tristeza! Não mais se poderá divertir?

29 de dezembro de 2011

LIVROS COLETIVOS

Por convite da Rede de Bibliotecas de S. João da Madeira, dei início a um conto que as escolas continuaram e ilustraram. O resultado final é um livro onde constam as várias estórias surgidas do mesmo início: Maria é uma criança que sonha ser uma bailarina famosa. E dança, dança, dança...


Eva Cruz e Josias Gil foram, também, autores convidados que iniciaram outras estórias.

4 de outubro de 2011

AS MINHAS VIAGENS

Agosto 2011






É a magia… *
… dos dias de calor mesmo quando chove;
…. da alegria e do ritmo nos corpos de chocolate;
… da autenticidade de um povo hospitaleiro e genuíno, apesar da vida agreste;
…. da adrenalina que sobe à medida que as moto4 agridem a areia e avassalam as dunas;
… de uma paisagem lunar quando, do alto das dunas, se avistam quilómetros de praia branca;
… do marulhar de um mar que não se quer cansar e traz ondas folionas;
… da nuvem teimosa que não foi convidada mas vem e molha quem brinca na areia;
… dos ventos alísios, brincalhões.
… do sol que se deita e convida a um mergulho nas águas tépidas do mar que o acolhe e se torna dourado;
… do dia que acaba e da noite que vem vestida de festa;
… do jantar engolido porque a festa já está à espera;
… dos paladares da cachupa e da lagosta;
… das noites animadas, aquecidas pelo grogue e pela música que se começa a ouvir mal chegam as primeiras sombras;
- das músicas de ritmos diferentes: lento e quente das mornas; enérgico do kuduro; sensual do funaná;
… dos corpos molhados, moldados pelas t-shirts suadas;
… das estrelas que dão brilho à noite escura;
… da morabeza distribuída gratuitamente;
… da Boa Vista, ilha num arquipélago onde a pressa não entra. Porque, em Cabo Verde, no stress!



*Texto publicado na revista Fugas, suplemento do jornal Público, no dia 29 de outubro de 2011.

14 de agosto de 2011

AS MINHAS VIAGENS

Agosto 2006







Sorria, você está na Bahia*



Depois de onze meses de prisão a planear a fuga, o grande dia da evasão chegou e todos os planos se concretizaram.
O avião aterra, sem pressas nem solavancos. À nossa espera, para nos receber e acolher, encontra-se a liberdade. Oito dias, no convívio da tranquilidade e da paz que o espírito tanto anseia. Sem horas nem compromissos, sem a prisão do telemóvel ou do computador. Só com máquina fotográfica para ajudar os olhos a reter tanta beleza.
Sob o céu azul, estendem-se quilómetros de areia branca, abraçada pelo mar e por frondosa mata, que nos conduzem à pequena e formosa vila piscatória cujos restaurantes, lojas e feiras de artesanato maravilham os turistas com o seu toque de rusticidade sofisticada. Aqui, as tartarugas marinhas vêm desovar e são protegidas dos predadores pelo Projeto Tamar. Biodiversidade, beleza natural e encanto moram na Praia do Forte.
O mar, que acorda nervoso, vai relaxando ao longo do dia. Ao final da tarde, completamente calmo, alonga-se, lânguido, e mostra-nos todo o seu esplendor. Peixes e corais convidam a colocar a máscara e a fazer snorkeling.
Este é o local certo para fugir ao ruído e à confusão. Onde silêncio, calma e paz rimam com calor, boa disposição e festa. E, para alimentar a festa, apenas a 60Km, a cidade de S. Salvador da Bahia, de flagrantes contrastes e cheia de História, espera por nós e envolve-nos. Logo nos deixamos seduzir pelo ritmo dos berimbaus e pela alegria da capoeira, pelo odor e sabor da fruta, pela cor das baianas e das paletas dos pintores, pela música saída dos sinos das inúmeras igrejas. Tudo tão pitoresco!
- Sorria, você está na Bahia – dizem-nos.
E é impossível não sorrir, não dançar, não conversar, não beber uma agradável caipirinha, não saborear um delicioso sorvete de frutas exóticas, não encher a alma com tanto que este cantinho do paraíso tem para oferecer.
E é com tristeza que a viagem termina e se regressa com lágrimas nos olhos a dizerem saudade e com um sorriso nos lábios a dizer voltarei.
Há quem diga que somos aquilo que lemos e o que vemos. Acrescento: somos viagens.






*Texto publicado na revista Fugas, suplemento do jornal Público, no dia 10 de setembro de 2011, e premiado com um livro da coleção "Rotas e Percursos".

10 de agosto de 2011

AS MINHAS VIAGENS

Viagem a Cuba, em 2007



Varadero: onde o mar nunca se zanga com a areia e, num vai e vem indolente, convida a conhecer os seus segredos. (a minha participação na Fugas, Público)






Pôr do sol em Varadero




8 de março de 2011

DIA DA MULHER

Porque hoje é o dia da mulher, a minha solidariedade para com todas as mulheres que sofrem e não podem ser felizes porque os outros não permitem.

Humilhadas
Caladas
São mulheres, violentadas

Escondem mágoas
Escondem lágrimas
Esquecem risos e afagos

Olhos negros
Negra a alma
É muita a dor
É pouco o amor

“É urgente destruir certas palavras”
Crueldade, violência, solidão
Muitos lamentos
E toda a prisão

É urgente reinventar certas palavras
Verbos reflexos do amor
Antónimos de dor:
Dar-se
Apaziguar-se
Amar-se

Canto para ti, mulher coragem
Canto para ti e quero
Entre marido e mulher
Meter a colher

7 de março de 2011

O PINTOR DA NOITE

O ilustrador Paulo Galindro, cujo trabalho adoro, lançou um concurso que, ele próprio, intitulou "concurso maluco de escrita hipercriativa". Aceitei o desafio e terminei uma pequena estória (pelo regulamento o texto não podia ter mais de 500 palavras) que estava adormecida mas que o desafio fez despertar. Participei e estou nos quatro finalistas. A votação para o melhor está a decorrer no Facebook, no mural de Paulo Galindro, e no seu próprio blogue onde está publicado o texto.

O pintor da Noite



Sento-me à minha mesa de trabalho e desenho. Olho através da janela e vislumbro o Sena. Lá longe, o rio desliza tranquilamente ao som de acordeões que adormecem vagabundos. A Noite espreita. Quer entrar. Pede-me que lhe abra a janela. Fico indeciso, nervoso com a sua presença inesperada, mas lá aceito que ela entre, talvez só por instantes. Sinto-me intimidado.
Ela entra. Traja um vestido deslumbrante, veludo negro semeado de estrelas cintilantes. Usa um vestido diferente cada vez que surge. Reparo nisso sempre que a observo mas, o de hoje, é, sem dúvida, o meu preferido.
No final de cada dia, todos os dias, ela visita outras casas, outras cidades, outros países, e ignora-me. Não sei como hoje terá reparado em mim. Talvez por ser o meu aniversário, quem sabe! Só ela poderá responder.
Senta-se a meu lado e pede-me:
- Desenha-me.
Não consigo acreditar. A Noite, a bela Noite, vem a minha casa para que eu a pinte. Só pode ser um sonho! Belisco-me.
Já há muito tempo que a observo. Vejo-a entrar em muitos sítios. Vejo-a visitar pessoas mais importantes do que eu, um simples pintor que ninguém conhece. Com a sua inseparável amiga Lua, entra onde quer e espreita segredos inconfessáveis. A Lua também é minha amiga. Já lhe fiz o retrato e já lhe pedi, várias vezes, para me apresentar a Noite. Nunca o fez. Penso que tem ciúmes.
Hoje, ela veio sozinha. A Lua recusou-se acompanhá-la, sente-se aborrecida e não se quer mostrar. Ainda bem! Assim posso, finalmente, desfrutar a sua presença serena. É a melhor prenda de aniversário que poderia ter.
- Desenha-me – insiste ela.
Começo a desenhá-la timidamente. Esboço um traço do seu rosto moreno. Sobressai o contraste com o branco da tela que me suplica que a preencha. A Noite parece sentir-se envergonhada e, de repente, cora.
Traço a traço, o seu rosto fica completo. Mostro-lho. Tenho receio da sua reacção.
- Está lindo! Nunca ninguém me pintou com tanta perfeição.
- Não é nada de especial. Tu mereces muito mais. O retrato não é fiel à tua beleza.
Mantemo-nos numa cavaqueira sem nos apercebermos que as horas avançam. O retrato repousa em cima da minha mesa de trabalho. Parece esquecido, ultrapassado pelas palavras. Mas não. Apenas descansa.
A Manhã apresenta-se, ainda um tanto estremunhada. Acompanhada pelo Sol, acorda o Dia e a Noite tem de partir. Rivais, não se entendem as duas, não convivem. Ela despede-se, apressada.
Resta-me o retrato, parado em cima da mesa. Olho-o e fico feliz. Imensamente feliz. Ainda bem que mudei para este décimo terceiro andar. O último. Fica afastado da praça, onde passo os dias a pintar, mas perto do céu. Aqui, a Noite chega primeiro.

10 de fevereiro de 2011

CARTA AO PRINCIPEZINHO



Arrifana, 20 de Fevereiro de 2005



Querido Principezinho:

Pelo sonho é que vamos?

Pelo sonho,
pela fé num mundo melhor,
pelo amor,
é por aí que vamos.

Partimos
ao encontro do espaço encantado
onde a linguagem ainda não é fonte de desentendimentos.
Onde há tempo para olhar uma flor,
a tua flor que cuidas, proteges
e amas.

É esse amor que nos faz falta!
Vem de novo ao nosso planeta
mostrar às pessoas como elas são ridículas,
mesquinhas,
egoístas,
materialistas.
Vem falar com elas e ensinar-lhes o que a raposa te ensinou.
Mostra-lhes o significado de cativar,
mostra-lhes o que é dar,
mostra-lhes o que é amar.

Ensina-as a olhar as estrelas.
As únicas estrelas perseguidas são as da TV.
Mas essas não brilham – a futilidade não brilha –
e não amam.

Fá-las ver o absurdo em que transformaram o mundo.
Porque exploram,
discriminam,
rejeitam,
e não amam.
Porque enganam com palavras gastas,
com gestos consumidos,
com corações que não sentem
e não amam.
Porque fazem a guerra,
matam,
matam-se
e não amam.

Querem fazer leis,
querem mandar,
não querem obedecer
nem amar!

Vem de novo,
ensinar o significado de amar.


Um beijo, até breve

uma fã

19 de abril de 2010

HORA DO CONTO NO AGRUPAMENTO DE ARRIFANA

Todos os anos, no dia 20 de Janeiro, é feriado no concelho de Santa Maria da Feira. Reza a história que as festividades se devem a uma promessa feita a S. Sebastião, há mais de quinhentos anos, quando a peste assolou a região e matou muitas pessoas. Escrevi uma fábula para explicar a história aos mais novos que se intitula O santo guloso. Em Janeiro, a estória foi contada às crianças das EB1 do Agrupamento de Escolas de Arrifana, numa hora do conto que muito lhes agradou. Posteriormente, chegaram-me às mãos vários desenhos feitos pelas crianças. Reproduzo aqui alguns.

Diogo Cerejeira, EB1 Igreja
Beatriz Ferreira, EB1 Igreja

Mariana Duarte
Rui