23 de setembro de 2015

FIM! (primeira versão)

Tanto que pode dizer uma imagem!!! Fotografia de Pedro Teixeira Neves.

Para mim deixou de haver amanhã. Contas feitas, sobrou nada. Desde o dia em que os móveis foram doados e apenas a poltrona, de tão velha e sem serventia, fora atirada para o jardim, tão mal cuidado como ela, como eu. E tanto que temos para contar. 
Já não sei quantos anos tenho. Setenta? Oitenta? Só sei que nada poderia acabar assim. 
 Destroços. Solidão. Abandono. É o que existe agora, é o que eu sinto, eu que conheci tanta vida! Mas os velhos ficaram mais velhos e a partida para o lar tornou-se inevitável. Como a poltrona ficou, também, velha e gasta, sem serventia, vai para a lixeira. Eu fui vendida, vou ser restaurada. Os novos donos não querem nada velho. Não seria melhor demolirem-me? 
Não me conformo. A poltrona de veludo vermelho ocupava um espaço de destaque dentro de mim. O de maior destaque, bem no centro da sala. Ambas testemunhamos todos os momentos importantes da família. Na poltrona, Emília foi pedida em casamento. Nela se sentou mal regressou das núpcias como se quisesse sossegar toda a excitação da viagem. Nela sentiu as primeiras dores de parto quando, entretida, terminava as últimas peças do enxoval da bebé. Nela amamentou a filha. Nela observou as brincadeiras de Ana. Nela viu-a ser pedida em casamento. Nela chorou, nela riu, nela afagou e recebeu afagos. E agora? 
Há muito que não sou pintada e a humidade come-me as entranhas. Perdi a cor da juventude e nem o jardim, de tão desmazelado, me disfarça as rugas. 
Emília já foi levada para o lar, o Alzheimer permitiu-lhe não sofrer as perdas. Não se apercebeu da minha degradação, da degradação dos móveis, do jardim. 
Já lá vão dez anos. Dez anos de doença, de desespero. Dez anos em que José ficou ali, a olhar por ela, a amparar-lhe a memória e as quedas, a evitar as fugas e as ausências. Sentados na poltrona vermelha, ora um, ora outro, viram desfilar o tempo numa passadeira cada vez mais envelhecida, cada vez mais carcomida. E ela cada vez mais envolta em sombras. E ele cada vez mais a anular-se para viver pelos dois. 
José viveu demasiado obcecado e ocupado com a doença da mulher. E eu, e tudo o que fez parte de mim, acabámos. 
Às vezes, Emília parecia uma criança. Pela maneira como ria, como pegava nas bonecas de porcelana da sua coleção, como olhava tudo à sua volta como se estivesse a descobrir cada recanto, cada pedacinho de mim. 
Sentado, seguindo a viagem dos ponteiros do relógio, agora avariado, vítima dele próprio, José lembrava-se muitas vezes dos livros que lera em conjunto com Emília, da forma tão incomum como organizaram a biblioteca pessoal, dos passeios de mãos dadas, das conversas intermináveis, dos jantares que partilharam com amigos fazendo sair do louceiro as porcelanas e, do jardim, as rosas que perfumavam jarras de cristal.
Dez anos depois, já só há o silêncio entre eles. Ana já não vive aqui há muito. O Canadá chamou-a e lá se instalou. Não se lembrou que um dia os pais seriam velhos, eu seria velha, os móveis e as louças seriam velhos. E as rosas murchariam. E não mais nasceriam flores no jardim. E a vida não se renovaria. E quando todos ficámos velhos, cheios de inutilidade, foi preciso tomar medidas. Ei-las. 
 Os meus donos só têm uma vida. E terão de descansar um dia. Encostado à balaustrada, para uma última despedida, parece que José se apercebeu disso. Saber que um dia se separará física e definitivamente de Emília transforma-o num espectro. 
Mas, ao contrário deles, a mim não me deixam descansar. Vou ser transformada e viver outra vida, outras vidas, perdida no labirinto dos sentimentos. Tenho medo!

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