29 de junho de 2013

QUANDO A INDIGÊNCIA NOS CAI AO LADO

"Faça o que puder, com o que tem, onde estiver." Theodore Roosevelt 

Hoje, provei um Porto de vários sabores. Consumi Porto durante os quatro anos que duraram o curso na Faculdade de Letras. E o Porto ficou ferrado cá dentro. Fundo. 
Muitos anos se passaram desde então. Já não passeava a baixa desta cidade há imenso tempo e, hoje, voltei. A tarde convidava a calcorreá-la e, depois de um inverno rigoroso, foi como se tivesse acordado estremunhada nas suas ruas, ladeadas de esplanadas cheias de gente a abraçar o sol que, desde manhã cedo, desabou sobre a cidade. Em quase todos os cafés, cartazes apregoavam a gulosa francesinha. Descobri que Santa Catarina continua com o seu ar cosmopolita de que me lembrava. E tudo à sua volta se mantinha. As mesmas lojas, as mesmas montras. Os mesmos carris a sulcar as ruas, agora sem elétricos.
E a saudade de tempos tão felizes deu lugar à surpresa. Distraída à procura de vestígios de alguma mudança, caiu-me ao lado a indigência. 
Chama-se Pedro (chamemos-lhe assim, não lhe perguntei o nome!). Apanhada de surpresa pela repentina abordagem, ainda tonta de sol e de enlevo pelo reencontro com a cidade, parei para ver o que desejava aquele rapaz que se plantou diante de mim. Pensei que apenas quereria uma informação, que mais poderia ser? 
Pedro agradeceu por eu ter parado. A senhora que abordara, antes de mim, tinha-o insultado e humilhado. E deixou-lhe a alma tão amarrotada e enxovalhada quanto a roupa que vestia. A sua mão ainda tremia. Pela vergonha dos insultos, pela vergonha da sua condição (des)humana. Sentiu-se mal, muito mal por ter sido injuriado daquela maneira. Sentiu-se um cão rafeiro abandonado, enxotado por não ter o direito de incomodar quem se passeia na indiferença! 
De vez em quando tenho esta mania. Ficar a ouvir as pessoas que me abordam na rua. Já me dei mal mas, desta vez, algo me dizia que aquele ser precisava mesmo que lhe estendessem a mão para se poder levantar. Ouvi o Pedro, ali especada. 
Tinha saído da prisão, de manhã bem cedo, depois de ter cumprido quatro anos e meio de pena, por ter roubado um carro. Custóias abriu-lhe as portas para o deixar sair em liberdade e, (ironia!) enfrentar a prisão da vida. Apenas possuía alguns documentos. Veio para a rua sem dinheiro, sem família, sem emprego, sem dignidade, sem esperança. E sem bilhete para regressar à terra. A sua vila natal esperá-lo-ia se alguém lhe tivesse colocado nas mãos um bilhete de autocarro ou de comboio. Pensei que seria essa a obrigação da assistência social, nestes casos. Pedro também pensava assim. Pelos vistos não. 
Algo no seu rosto (talvez o olhar, talvez o tom de voz) e nos seus modos educados, enquanto me contava a sua história de desamor, me fizeram acreditar nele. Tinha acabado de sair da prisão e fazia vinte e sete anos. Dia de aniversário sem velas para soprar! Ninguém para lhe cantar os parabéns ou oferecer-lhe uma carícia.
Não, não era drogado, garantiu-me. O mais próximo que esteve das drogas foi do haxixe que experimentou aos treze anos e não gostou. Os três dentes que lhe faltavam – garantiu-me – (e eu nem tinha reparado!) não eram obra da droga mas de um guarda da prisão. 
Fiz o gesto de ir à carteira. Interrompeu-mo com outro gesto. Não! Não queria dinheiro. Insistiu nisso várias vezes. Não queria dinheiro. Que ele faz falta a toda a gente, lá isso faz! Mas não me abordou para me pedir dinheiro, muito menos para me assaltar. Apenas queria que fosse com ele até S. Bento para lhe comprar a tal passagem para a terra. E água. Queria água. Desde manhã que não bebia e estava desidratado. A garrafa que eu trazia na carteira desacorrentou o brilho do olhar quando lha dei. 
Pedro quis saber se sou mãe. Sim, sou. E foi com voz embargada de comoção que confessou que a única coisa que desejava naquele momento era ter uma mãe que o recebesse e abraçasse quando chegasse a casa. Mas Pedro não tem mãe. Nem pai. Nem família. Apenas tem a casa que a mãe lhe deixou. Sem abraços. 
A vida tem dois lados. É uma constante dialética que nos move e os contrastes da vida são gritantes. A noite e o dia; a sombra e o sol; o mal e o bem; o medo e a coragem. Todos os medos têm dois lados. Um que convida a fugir e outro que obriga a enfrentar. 
Cheguei a ter medo, quis virar costas e partir rapidamente para a minha zona de conforto. Mas algo gritou bem alto e obrigou-me a ficar. E, o mais provável, é que esta tenha sido apenas uma história bem contada por alguém habituado a ludibriar gente crédula como eu. Mas não faz mal. Cinco euros e uma garrafa de água a menos não me deixaram mais pobre. E o meu ser ficou mais rico, pelo menos durante dez minutos de diálogo. Um desafortunado teve a fortuna de poder falar com alguém que parou para o ouvir e lhe dar a esmola da atenção; alguém que conhece e valoriza a dignidade humana. Aparentemente, deixei uma pessoa mais feliz. Partiu e levou recado. 
Quando chegou a minha vez de apanhar o autocarro, uma inscrição na parede colou-se-me aos olhos. Como se alguém a tivesse colocado ali, de propósito, para me fazer pensar: “A chegada é apenas mais um ponto de partida.” Cheguei ao Porto com sabor a saudade e parti, horas depois, com outro sabor. Amargo-doce. 
A chegada ao Porto, afinal, não foi mais que um ponto de partida para uma reflexão sobre a vida, sobre o nosso estar aqui e agora. 
A vida cansa-nos com palermices, com ninharias que não valem nada. A vida exige tanto de nós que nos distrai e não nos deixa espaço para repararmos naquilo que realmente é importante. 
A vida atafulha-nos os ouvidos com ruídos que ensurdecem e não nos dá tempo para ouvirmos o grito mudo da pessoa que, ao nosso lado, precisa de ajuda. E agradecemos que essa pessoa continue acomodada na sua mudez e não nos toque no braço a mendigar atenção. 
A vida embrutece-nos. A tal ponto que há sempre alguém a procurar a paz na música dos anjos porque, na Terra, ninguém ouviu o seu silêncio. 
"Não temos nas nossas mãos as soluções para todos os problemas do mundo, mas diante de todos os problemas do mundo temos as nossas mãos." - escreveu Friedrich Schiller. E temos os sorrisos. E a delicadeza. E os dicionários com uma palavra tão grande e tão difícil de pronunciar mas tão fácil de usar: solidariedade. E tantas outras palavras cor de rosa, bolas de fofo algodão doce, que tornam o mundo mais delicado e tão, mas tão, açucarado.

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