7 de setembro de 2020

VALEU A PENA

Era o último. Vira os companheiros sumirem-se, um a um, durante vários dias. Vivia fechado, sem liberdade, mas antes isso do que a morte.

Chegou o dia. A caixa abriu-se e ele ali, só, olhava as mãos que o iriam destruir. 

Valeu a pena. Deu a vida para acender a vela que iluminou o escritor enquanto escrevia o seu melhor romance. 

Lá fora, a tempestade rugia. Sem luz elétrica, o escritor sorria, iluminado por uma chama incandescente.

Desafio nº 218 - texto sugerido pela imagem


19 de agosto de 2020

UM VERÃO INVULGAR

Que se lixe 2020, o ano que já deveria ter "passado à História"!

Numa altura em que já toda a gente "trepava pelas paredes" e "arrancava cabelos", eis que chega o verão e as tão desejadas férias para nos pormos à "sombra da bananeira". Mas, todo o cuidado continua a ser pouco. Então, marcam-se ou não se marcam as tão desejadas férias fora de casa? E lá fica toda a gente "de pé atrás", "a torcer o nariz", na dúvida se deve ou não deve sair. 

É preciso "andar na linha" que o bicho morde! Mas, "perdido por cem, perdido por mil"! Vamos "abrir mão" de uma oportunidade de apanhar sol estendidos na praia, de mergulhar entre peixes e moluscos, de "comer do bom e do melhor" sem ter de cozinhar…? No way!!! "Tire-se o cavalinho da chuva"! Já se anda a "bater na mesma tecla" há muitos meses!!! Há que "fazer orelhas moucas" e "vista grossa" e agarrar o verão "com unhas e dentes". 

As pessoas querem "soltar a franga", é um direito! E, quem "se armou até aos dentes", com gel desinfetante e máscaras, e partiu, muito se admirou, sobretudo quem partiu cedo. Se, em anos anteriores, entrar em certas praias portuguesas era como "meter o Rossio na Betesga", este ano sobrava areia!

Ora, então, "façamos o balanço" da situação: para quem partiu de férias e se divertiu, esses dias são "favas contadas". Quem hesitou e ficou em casa "a ver navios", vai ter, possivelmente, "dor de cotovelo" dos ousados (ou inconscientes, vá-se lá saber!).

"Uma mão lava a outra" e as duas sacodem o vírus! Esperemos, apenas, que ninguém tenha "metido a pata na poça" e que quem "andou à chuva" não se tenha molhado!


6 de agosto de 2020

HÁ DIAS COM SABOR A VERÃO

Em março, foi apresentado ao público o meu último livro intitulado Os dias são assim. Cinco meses depois, os dias continuam assim, uns mais apetecíveis, outros menos.

Hoje, foi um dia assim. 

Um dia de abrir as portadas e dar os bons dias ao sol. De encher as tostas com compota e saborear o leite frio. De trincar a fruta preferida. De aterrar num cantinho do paraíso. De encher os pulmões com o ar do mar. De mergulhar entre algas, peixes, caranguejos e mexilhões partilhando o seu reino. De observar as idas e vindas das marés que, nas suas viagens, transfiguram a praia. De apreciar o voo louco das gaivotas. De respirar à sombra de uma árvore. De sentir a brisa a soprar. De cheirar a infância nos odores da mata. De passear um livro. De beber poesia na esplanada de um café. De lamber o gelado a derreter. De ver as horas a passar lentamente. De deixar o dia andar devagar. De saber esperar. De absorver a paz da noite que, entretanto, trouxe o silêncio.

Hoje, foi dia de ficar quieta a ser feliz.

Há dias assim, com sabor a verão.




3 de agosto de 2020

"UM MILAGRE GUARDADO NA ESPERANÇA"

Já tinha perdido a conta. Já não sabia quantas vezes fora ignorado, humilhado, maltratado.

Desde que começara a frequentar a escola.

Desde que começara a procurar emprego para o qual se formara.

Desde que decidira confrontar o mundo com a namorada branca.

Desde que deixara de ignorar os abusos.

- Igualdade! - foi o grito interior de Tomé, já sem forças para respirar. Mas, antes do último suspiro, ainda conseguiu balbuciar: a igualdade é "um milagre guardado na esperança".

Desafio 212 ― Frase de Valter Hugo Mãe

30 de julho de 2020

E AGORA?

 O teste deu positivo! E agora?

Agora tinha um caso bicudo para resolver.

Como iria dar a notícia ao seu pequeno mundo, tão fechado, onde se guardavam todas as distâncias? Como foi possível ter-se deixado cair em tentação?  Como se esquecera dos votos?

Não resistira a uns insinuantes olhos azuis, nem a umas mãos maliciosas entranhadas nos seus longos cabelos. Estremeceu.

E agora?

Iria deixar cair a máscara de santa e ficar com a criança nas mãos.

Desafio nº 215 - 7 palavras obrigatórias


21 de julho de 2020

Ano 2020

Número duplamente par.

Número redondo.

Número sonante, aliterado. 

2020 tinha tudo para ser um ano perfeito.

No entanto, não só não está a ser perfeito (e meio ano já está passado!), como se cobriu de feias cicatrizes (acho que não há cicatrizes bonitas!).

O Coronavírus transporta consigo um conjunto de mazelas que, dificilmente, passarão e deixarão marcas profundas na sociedade.

A saúde ficou comprometida. A economia ficou de rastos. As aulas à distância, cansativas, pouco produtivas, deixaram as escolas viradas do avesso. As paciências e tolerâncias esgotaram-se. Penso que, neste momento, já ninguém tem fé no “vai ficar tudo bem”.

As máscaras tornaram-se um acessório de moda obrigatório. Na rua, nas lojas, as pessoas parecem cães açaimados. Já não há sorrisos. Não se veem!

No meio de tantas mortes, este foi o ano da morte de gente que me toca particularmente. Os escritores Luís Sepúlveda, Carlos Ruiz Zafon, Rubem Fonseca. Os atores (tão jovens!) Filipe Duarte e Pedro Lima. O amigo Carlos Faria.

Este foi o ano do lançamento do meu último livro, Os dias são assim. E os dias ficaram assim, a partir de 13 de março. Parados, sem gente nas ruas, sem gente nas escolas, sem gente nos espaços culturais. Como tal, o livro teve o primeiro lançamento e as sessões marcadas que se seguiriam foram canceladas. Frustração!

Julho a acabar e as cicatrizes continuam. Filha em layoff. Marido com um episódio de amnésia global transitória passa um dia no hospital. Dia de stress e, sabe-se lá, quantos mais dias de stress virão à espera de novos episódios!

E tantos outros dias à espera, na indecisão do que será o próximo ano letivo. Setembro aproxima-se e todos estão conscientes das dificuldades e das provações que aí vêm.

Férias marcadas, mas cheias de restrições.

Adivinha-se um reforço da pandemia no outono.

A primavera não se sentiu e o verão…. Veremos!

O mundo precisava urgentemente de tomar o rumo da solidariedade, da igualdade e da inclusão. Veio uma pandemia à escala mundial e as diferenças acentuaram-se assustadoramente. 

Um ano que tinha tudo para ser perfeito tornou-se um Frankenstein medonho que todos querem eliminar das suas vidas. Gostaria de ter um corretor bem possante que o apagasse. Porque não há antirrugas que lhe disfarcem as cicatrizes.


12 de julho de 2020

DESENRAIZADA

Gemeu quando a cortaram, mas os seus gemidos foram em vão. Ninguém a ouviu (ou ninguém a quis ouvir!). O destino estava traçado e, em breve, a árvore seria uma peça de mobiliário ou o chão de uma casa qualquer.

Então, ousou sonhar. Não queria que lhe matassem a alma e só haveria uma forma de continuar viva. Desenraizada da terra, desejou ser transformada num barco. Enraizar-se-ia no mar, viajaria, veria mundo e poderia continuar a sorrir.

26 de junho de 2020

AINDA O XICO POR QUEM ESTOU APAIXONADA

A aula de pilates de hoje foi adocicada pelas vozes de Jorge Palma e Pedro Abrunhosa. E, por coincidência (ou não, vá-se lá saber!), duas canções grávidas da palavra "olhar" ficaram-me no ouvido.

"Tudo o que eu vi,
Estou a partilhar contigo
O que não vivi, hei-de inventar contigo
Sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
Mas quero-te bem, encosta-te a mim."

"Se eu fosse um dia o teu olhar,
E tu as minhas mãos também,
se eu fosse um dia o respirar
E tu perfume de ninguém."

Estes olhares, os das musas dos poetas, não são os do Xico, mas, imediatamente o olhar do Xico me inundou os pensamentos. A aula passou a ser um tanto desconcentrada e o Xico passou a ser a minha musa.


Não se resiste ao olhar do Xico. Um olhar que fala. Um olhar com um brilho húmido que nos toca e nos encanta.

O olhar do Xico é meigo quando lhe damos mimos e nos mima (a toda a hora). É triste quando estamos ocupados e não lhe damos atenção. É curioso quando a campainha toca ou ouve um ruído estranho. É envergonhado quando lhe ralhamos porque ainda faz xixi em casa. É preguiçoso quando descansa na sua cama. É malicioso quando nos desafia para uma corrida ou quando se agarra aos nosso atacadores ou à nossa roupa.
O olhar do Xico diz tudo o que precisamos de saber!
Já não há volta a dar. Tudo o que vivemos partilhamos com ele, o que não vivemos sem ele, inventamos, agora. Entendemos o seu olhar e queremo-lo bem encostado a nós!


25 de junho de 2020

XICO


A chegada de uma criança é sempre motivo de festa e de grande alegria. Seja filho, seja neto. Para filhos já é tarde, a idade já passou. Para netos, seria a altura ideal, mas circunstâncias várias ainda não o permitem. Entrou o Xico. 
O Xico não é um bebé. O Xico é uma pequenina bola de pelo. Dizem que é um cão. Um spitz anão, com um lindo focinho de raposa. Para nós é o furacão que nos invadiu as vidas, há quinze dias, ainda nem dois meses tinha. Um furacão com 680 gramas. Um furacão de alegrias e gargalhadas. 

Sempre gostei de cães e de gatos. Mas sempre recusei ter um em casa. Para evitar preocupações, para evitar trabalho. Para evitar despesas. Para evitar prisão. No fundo, apenas questões egoístas. Os últimos quinze dias superaram tudo e uma lufada de ar fresco soprou cá em casa.
O Xico, afinal, é um bebé. Pelo menos, age como sendo um. Tem os seus momentos para comer, para a higiene, para dormir. Passa praticamente todo o tempo a dormir e, apreciá-lo, é apreciar um bebé no seu sono inocente. Quando desperto, são únicos os momentos de brincadeira, de corridas no terraço, de lambidelas. De carinhos.
O seu olhar é terno e derrete-nos quando nos olha fixamente como querendo dizer que já nos adotou, que somos nós a sua família e que nos adora. E a casa também já é dele e já não tem segredos. Demorou três dias a conhecê-la e chorava sempre que lhe mostrávamos um compartimento novo. Rapidamente, porém, se ambientou e corre tudo, fazendo-nos correr à sua procura, quando desaparece e não sabemos se está dentro de casa ou no terraço.

Se, inicialmente, subir para a sua cama se assemelhava a uma subida do Everest, agora parece um elegante bailarino assente nas patas traseiras.
Em quinze dias, o Xico cresceu. E não para de crescer o nosso amor por ele. Assim como os mimos sem conta.
E, nestes três meses de confinamento, de desordem, de situações atípicas, o Xico foi o mais atípico maravilhoso que nos poderia ter acontecido!