3 de fevereiro de 2017

O QUE ACABEI DE LER

Foi o primeiro livro de Sándor Márai que li. Vou procurar outros.
A herança de Eszter é um livro que provoca um forte impacto. Nele moram personagens densas cujas vidas descruzadas, e por isso mesmo constituem toda a trama, nos deixam, a nós leitores, com a coração a bater fortemente, o cérebro num rodopio, e os olhos a observarem as pessoas que nos rodeiam. ´
Lealdade vs traição, honestidade vs manipulação e falsidade, amor e amizade vs interesses materiais.

O primeiro capítulo: 
"Não sei o que Deus ainda me reserva. Mas antes de morrer quero escrever a história do dia em que Lajos veio ver-me pela última vez e me roubou. Há três anos que venho adiando estes apontamentos. Agora sinto como se uma voz, contra a qual não posso defender-me, me exortasse a escrever a história desse dia – e tudo o que sei acerca de Lajos – porque esse é o meu dever, e já não tenho muito tempo. Uma voz assim é inequívoca. Por isso obedeço, em nome de Deus. 
Já não sou jovem nem tenho saúde e, em breve, terei de morrer. Talvez devido ao tempo, que não me perdoou, talvez devido às recordações, tão cruéis como o tempo, talvez por um particular estado de graça que, segundo os ensinamentos da minha fé, também toca por vezes os indignos e destinados, talvez, simplesmente pelo peso da experiência e da velhice, olho a morte de frente, com serenidade. Presenteou-me a vida maravilhosamente e, implacavelmente me despojou...o que mais posso esperar? Tenho de morrer, que isso é a lei, e porque cumpri o meu dever. 
Sei que palavra é esta e, vendo-a agora, escrita, sinto-me um pouco intimidada. É uma palavra arrogante, pela qual vou ter de responder, um dia perante alguém. Demorei algum tempo a reconhecer qual o meu dever e obedeci, contrariada, sim, uivando e protestando desesperadamente. Senti, então, pela primeira vez, como a morte pode ser redenção, e soube, também, como a morte é resgate e paz. Que estranha foi essa luta! Quem me obrigou e porque não pude esquivá-la? Tudo empreendi para escapar dela. Mas o inimigo vinha atrás de mim. Agora já sei que não podia ser de outro modo. Estamos ligados aos nossos inimigos e eles também não podem fugir de nós.”

E quase no fim:
“O sentido moral, vês, não é algo de hereditário, mas uma característica adquirida. Os homens nascem sem moral. O sentido moral dos selvagens ou das crianças é diferente da moral de um juiz de sessenta anos do Supremo Tribunal de Viena ou de Amsterdão. Adquire-se o sentido moral durante a vida, tal como de adquirem maneiras e cultura. – Falava em tom de padre, como um especialista. – Há homens cujo carácter é fortíssimo, sim, são uns génios do carácter, tal como há grandes músicos e poetas. Tu és assim, Eszter, um génio do carácter; não, não protestes! Foi o que senti em ti. Eu, em questões de moral, sou um surdo, quase analfabeto. Por isso, refugiei-me em ti; creio que, sobretudo, por essa razão.”  pág. 121/122
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