15 de abril de 2016

TERRA, NINHO E PATRIMÓNIO DE TODOS

Fui convidada pela Universidade Sénior de Santa Maria da Feira para captar, por palavras, um dos seus momentos culturais. O que parecia muito difícil tornou-se fácil e fluído. Bastou ouvir o violoncelo, observar a construção do ninho, sentir os fios que se enredaram e interiorizar a poesia que ali foi declamada. O ambiente criado na casa de chá Mr. Tea fez com que o texto tivesse surgido com toda a naturalidade. 




Faz frio, lá fora. Chove. A chuva curiosa espreita através das vidraças como se quisesse sentir o aroma do chá sorvido devagar. Como se as gotas quisessem escorrer o frio e juntar-se à boa companhia desta família unida pelos fios que a amizade entrançou, neste final de tarde de uma primavera que não se quis juntar (talvez demorada noutras terras!).
Nesta folha, neste lápis, procuro palavras que me aqueçam. Olho em redor. Cá dentro há calor. E há uma voz que sai do violoncelo a chamar e a perguntar: que motivos teria Deus para criar a Terra?
Terra. Palavra tão pequena que tanto encerra. Mas também enterra e desterra. Terra é ninho que esconde mistérios. É milagre. É beleza. É o local ideal para se andar espantado de existir.
Tem forma de redoma para guardar segredos.
Tem forma de nuvem, para albergar a paz.
Tem forma de ovo para acolher o silêncio.
É ninho construído, galhinho a galhinho. De verde pintado. De carinho bordado. Ninho de penas forrado. Para uns, calor, mas, para outros, dor.
Não é preciso ser pássaro para se viver num ninho. Basta ser poeta ou bailarina. Pintor ou compositor. Que é tudo o mesmo: aves cantando ao sol que aquece a Terra.
“Eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”, escreveu Alberto Caeiro. Faço minhas as suas palavras. Apesar da minha pequenez, hoje tenho um tamanho “muito enorme”. Porque as palavras entraram sem pedir licença. Bem-vindas, trouxeram calor, magia.
Fim de tarde perfumado!

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