5 de dezembro de 2012

DEZEMBRO (E DIFICILMENTE NATAL)

“Entremos, despojados, mas entremos.
 De mãos dadas talvez o fogo nasça,
 talvez seja Natal e não Dezembro,
 talvez universal a consoada.” 

do poema "Natal e não dezembro", David Mourão Ferreira 


Definir o Natal sem usar lugares-comuns será difícil. Definir o Natal 2012, em particular, será mais difícil ainda. 
Natal já não é quando um Homem quer porque até a ilusão lhe estão a roubar. 

Natal é ajudar o próximo. Mas como, se só posso dar caridade? 
Natal é harmonia. Mas como, se não sei o dia de amanhã? 
Natal é paz. Mas como, se nasce dentro de mim a insegurança, o medo, a angústia? 
Natal é amor. Mas como, se cresce o ódio por aqueles que vivem na ignorância, na insensatez, na incompetência e na frivolidade e me querem forçar a viver também assim? 
Natal é seguir a estrela-guia. Mas como, se um nevoeiro cerrado lhe esconde o brilho? 
Natal é família. Mas como, se as famílias vizinhas não estão bem porque em suas casas há desemprego, há fome? 
Natal é alegria. Mas como, se todos os dias vejo e ouço o que me faz doer a alma?1

É dezembro e, para muitos, dificilmente será Natal. 

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1 Acabo de ver e ouvir no telejornal da RTP1: 
“Uma mulher tem cinco bocas para alimentar. Ficaria sem almoço se não lhe dessem comida, num refeitório social.” 
“Há crianças que só têm uma refeição por dia, a que comem na escola.” 
“Isabel Jonet está muito preocupada com os pedidos de ajuda social.” 
“Há muitos portugueses que não aguentam mais austeridade.”
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