17 de dezembro de 2017

MARCAS

Era um provador, numa loja de roupa, como qualquer outro provador. Um cubículo pequeno com um espelho para refletir as vaidades. 
Por momentos, tudo mudou. Não era vaidade que estava ali, era o tempo a fazer das suas. O tempo, esse inimigo da juventude. O tempo, esse implacável vilão que não perdoa e deixa marcas dolorosas. 
Ela só queria experimentar as calças. 
Eu só queria dar uma opinião e ter a prenda de Natal resolvida. Um problema a menos, se as calças servissem. 
Mas algo fez a diferença. Lentamente, com a dificuldade de movimentos que a idade impõe e que os quilos acumulados exigem, a roupa foi despida e o corpo nu mostrou-se. 
Olhei-o, incrédula. Não condizia com a linda cabeleira branca que lhe dava um charme maduro. 
Entre o choque no olhar e a ausência de reação, desabou-me tudo! 
Já tenho idade suficiente para saber que não há milagres e que o futuro é isto. Sim, já tenho idade para ver, no presente, que o meu futuro será, também, isto. 
Pernas que já foram lisas e brancas deixaram-se ruir pelas varizes, pelas gorduras, pelas engelhas e manchar pelas quedas, pelos atropelos aos móveis. 
Joelhos que já foram bem torneados e que, saídos das minissaias, espevitaram homens, deixaram-se entortar. 
Tudo isto escondido! Tudo isto a roupa escondia! 
Imóvel fiquei. Sem coragem para dizer o que quer que fosse. A ver, no espelho, os estragos. 
Ela apercebeu-se da minha estupefação. Agarrou-me a mão com firmeza e, sorrindo, também não disse nada. 
E foi, então, que resolvi olhá-la com outro olhar. E aprender, com a sua serenidade e força de viver, a encarar o inevitável.
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