26 de janeiro de 2017

O QUE ACABEI DE LER

Morreste-me choca pela intimidade. Choca-me pela violência da dor. Choca-me por me rever nele. Choca-me por eu não ser capaz de escrever assim. 
Há palavras que não se sabem. 
Há palavras que não se pensam. 
Há palavras que não se dizem. 
José Luís Peixoto soube pensá-las, senti-las e dizê-las magistralmente apesar de as ter escrito ainda tão jovem. Mas, parece que uma perda tão sentida faz crescer, amadurecer e ver a vida com outros olhos. 
"E pensei não poderiam os homens morrer como morrem os dias? assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhas pequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescer natural natural, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno.” (pág. 12/13) 
Neste livro tudo é dor porque “Tudo o que te sobreviveu me agride”: 
• A violência do hospital 
• A doença 
• O lugar na mesa, vazio 
• As memórias: “Deixaste-te ficar em tudo.” 
• Os espaços 
• As dádivas 
• As saudades
• As roupas que ficaram 
• Os objetos encontrados na gaveta
E, sobretudo, “a certeza de não te perder e perdi-te.” 
No fim, depois de tudo, depois das voltas dos ponteiros do relógio, o que fica? 
Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.”

Nota: Este foi o livro de leitura partilhada no Clube de Leitura da BM de S. João da Madeira, em janeiro de 2017.

1 comentário:

Catarina Simões disse...

"Descansa, pai Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim.Pai.Nunca esquecerei."

É mesmo isso que sinto!
Dedico ao Carlos Alberto Lopes Simões: um Grande Homem, um Grande PAI!