19 de agosto de 2015

VARREDURA

Alberta não aguentou mais tanto sentimento acumulado e saiu de casa com a alma pesada, manhã cedo, ainda o sol não despertara. Montou a bicicleta e voou estrada fora, perseguida por mil borboletas escapadas dos seus sonhos, há tanto aprisionados. Chegara a hora de batalhar, de obliterar o casamento, qual bilhete caducado, de se libertar de tanta tralha amontoada no coração e na cabeça. Foram sonhos adiados, decisões tomadas e não concretizadas, receios de enfrentar o vazio, falta de espaço. 
Foram dias, foram meses, foram anos. Sempre a mesma rotina. Sempre as mesmas palavras, sempre os mesmos gestos. Sem lugar para a novidade. Sentia-se à deriva dentro de si própria mas não procurava o caminho para se reencontrar e não sabia (ou não queria saber) como interpretar os diálogos travados com a sua consciência. 
A última arrumação das gavetas foi a bússola, o farol, o GPS, algo que lhe apontou a saída. Aquela varredura anual dos armários… uma metáfora? 
Se ao longo do ano acumulava papel, roupa inútil, cacos desnecessários e os atirava ao lixo no início do verão, porque não fazer o mesmo com a sua cabeça? Afinal, a sua relação não passava de um caco inútil e ela insistia em mantê-lo colado, por medo de o deitar fora e de admitir que já não tinha serventia. Sufocava com tanto que acumulava mas ia aguentando estoicamente. 
O vento que lhe soprava os longos cabelos e as ideias, enquanto pedalava, mostrou-lhe tudo quanto tinha guardado, à espera de melhores dias. Se não usa, por que carga de água tem de guardar? Para ocupar espaço? E os espaços cada vez mais apertados!... 
Sim, era certo, sabia que não seria fácil desapegar-se, assim, com um simples estalar de dedos. Presa paranoica de um coração ditador, não sabia por onde começar. O que iria parar primeiro ao caixote do lixo? 
Escolhas. Sempre o seu problema. Esta seria definitiva. Escolher a liberdade ou sufocar de vez. Escolher reencontrar-se consigo própria (não, não era egoísmo, era sanidade mental!) ou continuar a ser o que ele queria que fosse. 
Não se anularia mais. Ganhou coragem e, quando regressou, despojou-se da culpa, como se tivesse esvaziado os armários de toda a inutilidade. 
Junto às bétulas do jardim, pousou as malas, olhou a casa pela última vez e, sem esperar pelos pássaros que, àquela hora, faziam um concerto ao sol, mesmo não sendo decisão bilateral, partiu. 
O futuro já não morava ali.

(prolongamento do microconto "Como bilhete caducado")

1 comentário:

Margarida Fonseca Santos disse...

Muito bonito e forte, parabéns!