7 de março de 2011

O PINTOR DA NOITE

O ilustrador Paulo Galindro, cujo trabalho adoro, lançou um concurso que, ele próprio, intitulou "concurso maluco de escrita hipercriativa". Aceitei o desafio e terminei uma pequena estória (pelo regulamento o texto não podia ter mais de 500 palavras) que estava adormecida mas que o desafio fez despertar. Participei e estou nos quatro finalistas. A votação para o melhor está a decorrer no Facebook, no mural de Paulo Galindro, e no seu próprio blogue onde está publicado o texto.

O pintor da Noite



Sento-me à minha mesa de trabalho e desenho. Olho através da janela e vislumbro o Sena. Lá longe, o rio desliza tranquilamente ao som de acordeões que adormecem vagabundos. A Noite espreita. Quer entrar. Pede-me que lhe abra a janela. Fico indeciso, nervoso com a sua presença inesperada, mas lá aceito que ela entre, talvez só por instantes. Sinto-me intimidado.
Ela entra. Traja um vestido deslumbrante, veludo negro semeado de estrelas cintilantes. Usa um vestido diferente cada vez que surge. Reparo nisso sempre que a observo mas, o de hoje, é, sem dúvida, o meu preferido.
No final de cada dia, todos os dias, ela visita outras casas, outras cidades, outros países, e ignora-me. Não sei como hoje terá reparado em mim. Talvez por ser o meu aniversário, quem sabe! Só ela poderá responder.
Senta-se a meu lado e pede-me:
- Desenha-me.
Não consigo acreditar. A Noite, a bela Noite, vem a minha casa para que eu a pinte. Só pode ser um sonho! Belisco-me.
Já há muito tempo que a observo. Vejo-a entrar em muitos sítios. Vejo-a visitar pessoas mais importantes do que eu, um simples pintor que ninguém conhece. Com a sua inseparável amiga Lua, entra onde quer e espreita segredos inconfessáveis. A Lua também é minha amiga. Já lhe fiz o retrato e já lhe pedi, várias vezes, para me apresentar a Noite. Nunca o fez. Penso que tem ciúmes.
Hoje, ela veio sozinha. A Lua recusou-se acompanhá-la, sente-se aborrecida e não se quer mostrar. Ainda bem! Assim posso, finalmente, desfrutar a sua presença serena. É a melhor prenda de aniversário que poderia ter.
- Desenha-me – insiste ela.
Começo a desenhá-la timidamente. Esboço um traço do seu rosto moreno. Sobressai o contraste com o branco da tela que me suplica que a preencha. A Noite parece sentir-se envergonhada e, de repente, cora.
Traço a traço, o seu rosto fica completo. Mostro-lho. Tenho receio da sua reacção.
- Está lindo! Nunca ninguém me pintou com tanta perfeição.
- Não é nada de especial. Tu mereces muito mais. O retrato não é fiel à tua beleza.
Mantemo-nos numa cavaqueira sem nos apercebermos que as horas avançam. O retrato repousa em cima da minha mesa de trabalho. Parece esquecido, ultrapassado pelas palavras. Mas não. Apenas descansa.
A Manhã apresenta-se, ainda um tanto estremunhada. Acompanhada pelo Sol, acorda o Dia e a Noite tem de partir. Rivais, não se entendem as duas, não convivem. Ela despede-se, apressada.
Resta-me o retrato, parado em cima da mesa. Olho-o e fico feliz. Imensamente feliz. Ainda bem que mudei para este décimo terceiro andar. O último. Fica afastado da praça, onde passo os dias a pintar, mas perto do céu. Aqui, a Noite chega primeiro.

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