24 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XII

Isto de teletrabalho tem o que se lhe diga! Mandem-me para a escola, depressa! Estou mais cansada a trabalhar em casa do que se estivesse com alunos. Livra!
Ele é estar constantemente frente ao computador para webinares, para contactos no teams e no email.
Ele é estar constantemente com o telemóvel na mão para contactos no whatsapp e no messenger.
Ele é receber trabalhos de alunos e corrigir, trabalhos esses que seriam feitos em sala de aula, se estivéssemos na escola, e que não viriam para casa.
Ele é tratar de toda a avaliação de final de período!
E, além disto, são três pessoas em casa 24h sobre 24 horas, o que não é habitual!
Ele é cozinhar almoços e jantares.
Ele é fazer pão para se evitar as idas à padaria.
Ele é arrumar a casa e passar a ferro.
...
E assim vamos empurrando os dias. Por vezes, com violentos encontrões!



23 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XI

COVID-19: Novo balanço aponta para 23 mortes, 2.060 casos confirmados e 14 recuperados em Portugal

Notícia de hoje. Nada animadora. O estado de emergência deverá ser prolongado. 
Ordens do Ministério da Educação: a avaliação do segundo período tem de ser feita normalmente. À distância, pois claro!
E a gente burra continua a ser burra e a pôr em risco a saúde de todos. 
Ontem foi um tal passear na Póvoa de Varzim. Imagens de pessoas em grandes grupos a passear, como se de um domingo normal de verão se tratasse, circularam todo o dia. Foi preciso haver intervenção da polícia e proibições por parte da Câmara Municipal.
Hoje, em S. João da Madeira, testemunhado por uma das minhas irmãs, repetiu-se a cena. Passo a contar a primeira história:
Claro que as pessoas não podem ver um raio de sol e, hoje, foram muitos a inundar a cidade, desde manhã cedo. Então, há que ir sentar-se na esplanada de um café, que a tinha montada, para consumir o que se adquiriu na padaria ao lado. Tudo muito descansadinho! Entretanto, no exterior da padaria, mais um aglomerado de gente burra, copos de café nas mãos. Vem a polícia, manda dispersar e segue para outras paragens. Na passadeira, duas mulheres vêm juntas, em amena cavaqueira, veem a polícia, disfarçam e afastam-se, não vá irem presas! No entanto, ficam à cuca, atrás de uma árvore:
- Já foram embora - diz uma delas.
E lá seguem as duas, muito juntinhas, pois a conversa não pode ser interrompida. Qual polícia, qual quê! Qual Covid, qual quê! E, como não há duas sem três, um homem junta-se a elas (a três a roupa suja fica mais bem lavada!!!) e diz:
- Afinal, parece que temos mesmo de ficar em casa!
Mas não ficam! Será assim tão difícil entender isto?

Segue-se a segunda história:
O maravilhoso parque do Rio Ul foi fechado, hoje. O espaço é enorme, cheio de ar puro. Logicamente as pessoas pensaram que poderiam lá ir dar uma corridinha saudável. Pensaram mal porque pensaram todas o mesmo. E as corridinhas deram lugar a piqueniques e longos passeios de muita gente em amena cavaqueira.
Qual é a parte de TEMOS DE FICAR EM CASA que as pessoas ainda não entenderam?
LIVRA! (e isto é para ser bem educada porque na cabeça saiu outra coisa!)

PS: acabei de ver no jornal O Regional (são quase 22horas) que foi confirmada a primeira morte por Covid 19 em S. João da Madeira. https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=3182612485104699&id=188289671203677

22 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO X

Finalmente percebi por que motivo as pessoas andam a açambarcar tanto papel higiénico. É porque tudo isto que se está a passar é uma grande merda! Do tamanho do MUNDO!
E lembrei-me de tantos livros que relatam a mesma merda, as mesmas angústias, as mesmas formas de enfrentar o touro furioso!
A começar pelo meu livro O santo guloso. Uma fábula para contar às crianças a peste negra da Idade Média, onde pessoas e animais morreram em doses industriais. 
E lembrei-me da Anne Frank (e de todos os outros livros que têm como cenário os campos de concentração). 
Anne Frank não é personagem, não é ficção. Viveu em clausura durante dois anos. E não foi em sua casa onde tinha todos os seus objetos pessoais e o seu conforto. E não tinha televisão, nem Internet, nem redes sociais, nem podia fazer videoconferências, nem estudar em teletrabalho, nem sequer gritar alto para espairecer.
E aproveitei para reler a história, lendo o livro em diário gráfico.
O que nos resta, então? Ler. Escrever. Ver filmes. Restam-nos as palavras, em suma. A vida há de regressar em toda a sua plenitude. Haveremos de voltar à escola, ao ginásio, aos parques, aos cinemas, aos restaurantes, ao convívio, aos abraços. Entretanto, enquanto isso não acontece, refugiemo-nos nas palavras. E lembrei-me de uns acrósticos antigos. Fui buscá-los:
I
Palavras soltas preenchem
A folha em branco da vida;
Libertam a angústia e a solidão,
Alimentam a verdade.
Violentas, quando ferem e magoam;
Relaxantes, quando amam.
Acolhem segredos.
Silenciosas, gritam.

II

Ler é lazer.
Elevado ao infinito
Resulta em prazer.
III

Ler+ é fazer uma festa
E deixarmo-nos embriagar pelo cheiro dos livros.
Indicando-nos caminhos a percorrer,
Tiram-nos a solidão.
Um a um, cada livro lido
Resplandece em nós.
Alimenta-nos a alma
Seda-nos o corpo.


21 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO IX

Não, não estamos todos felizes por estarmos em casa resguardados com a família.
Não, não estamos todos felizes, como queremos fazer crer nas redes sociais mostrando as nossas fotos de pãozinho acabado de cozer, de bolos saborosos acabados de fazer, de pratos cheios de imaginação acabados de criar. Eu faço-o!
Estou certa que os psicólogos e os sociólogos terão resmas de materiais para análise. Irão surgir resmas de teses sobre o que cada um de nós tenta fazer para transparecer que está tudo bem. 
Tudo para nos iludirmos e alimentarmos a esperança. Porque as coisas não estão bem. Há uma ameaça a sobrevoar-nos. E não adianta convencermo-nos que o Covid19 (ou o raio que o parta!!!) traz coisas boas que não faríamos se ele não tivesse vindo assombrar as nossas existências.
Sim, estou mais tempo com a família nuclear, mas não estou com a restante.
Sim, visto roupa que já não vestia há séculos, mas não visto a mais recente, nem compro nova, nem vou à cabeleireira, que está sem trabalho, nem tenho a funcionária a limpar-me a casa porque também ela está em casa, sem trabalhar.
Sim, não aturo presencialmente os alunos, mas tenho saudades deles e dos debates e do contacto direto com eles na biblioteca. Sim, porque nem todos tiveram tempo de se precaverem e de irem buscar os livros que estão à espera de serem lidos, nas bibliotecas encerradas.
Sim, os professores descobriram as milhentas ferramentas tecnológicas que existem para darem aulas à distância, mas não tiveram tempo de se organizarem para que o trabalho fosse gerido em articulação e muitos nem tempo tiveram para aprender a dominá-las.
E tudo o que passamos nas redes sociais não passa de uma forma de nos iludirmos. 
Eu também tento iludir-me. Hoje vesti um vestido, pus uns brincos, pintei os lábios e fui para o terraço ver a banda passar. Mas não passou!

ESTA LÍNGUA PORTUGUESA

No Dia Mundial da Poesia, a minha homenagem à poesia e à beleza da língua portuguesa.

Que língua é esta que permite rimar
Liberdade, dignidade, lealdade
Com desigualdade, maldade, crueldade?

Que língua é esta que permite rimar
Ciência, sapiência, inteligência,
Com violência, insolência, indolência?

Que língua é esta que tem coração, união e paixão
E deixa entrar a solidão e a corrupção?

Que língua é esta que tem pão
E deixa entrar a fome e a palavra não?

São apenas aparentes contradições
De uma língua viva, plena de emoções!

Porque esta é uma língua apaixonada
Que faz o amor ter sabor a romã.

É uma língua que permite rumar a sul
E perder o norte
Na dança do planeta azul.

É a língua que fica a ver estrelas
Nas noites em branco.

É uma língua de braços abertos
E de mão beijada
Tem o coração ao pé da boca
E em lágrimas se desfaz.

É a língua casamenteira
Que não dá ponto sem nó
Casa o quadro com a quadra
O cigarro com a cigarra
E faz a festa da palavra.

É uma língua maiúscula
Com sabor a mar
E sabor a mel
Com sabor a sol
E sabor a sal
Com sabor a lua
E sabor a céu
Com sabor a rosas
E sabor a vento.

Esta é a língua
Que tem a palavra chuva
E cheiro a terra molhada
Que tem a palavra praia
E o cheiro da maresia
Que tem a palavra flor
E cheira a jasmim
Que tem a palavra calor
E o perfume do amor.

Esta é a língua
Para musicar e cantar
Para falar e ronronar
Para respirar e saborear
E, ainda, imaginar.

Esta é a língua
Que tem a cor dos girassóis
E da melancia
Que faz rimar
Melodia e harmonia.

Abençoada língua esta
Que permite rimar
Agasalhar e beijar
Criticar e desabafar
Pensar e gritar
Viajar e poemar.

Uma língua assim, de tudo é capaz.
É com esta arma que se constrói a paz!

20 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO VIII

Faz uma semana que tudo começou.
Hoje, sexta-feira, seria dia de trabalhar na biblioteca, de manhã (às vezes noutra biblioteca à tarde, quando é preciso). Seria dia de espairecer da semana de trabalho. Seria dia de ter uma relaxante aula de pilates no ginásio. Seria dia de ir ao cabeleireiro. Seria noite de encontro com a família, à  volta de uma mesa bem servida e recheada de conversas. E de tricô.
Seria noite de peregrinação poética na cidade onde moro.
Mas não foi nada disto. O país está em estado de emergência, desde quarta-feira passada, numa tentativa desesperada de travar o bicho. Parece que está a dar algum resultado, mas o fundo do túnel está longe.
O dia seria de... Mas não foi.
Foi dia de mais um banho de assento a enfrentar a tecnologia. Experiências no Teams, partilhas no Facebook e em seis Whatsapps, publicações no Padlet e no Youtube, telefonemas.
Foi dia de aniversário de uma irmã. Sem beijos nem abraços. Apenas parabéns à distância.
Foi dia de passar a ferro.
Foi dia de fazer pão.
Foi dia de chuva que veio trazer a primavera.
Foi dia de escrever um haiku. Porque ainda há  beleza nas palavras mais simples (algumas deveriam ser proibidas de existir!).
CHUVA 
Por entre as tuas gotas
(cais, implacável!)
Vislumbro dias de sol.

19 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO VII

Lá fora vive o escuro e o medo avança.
Hoje é o Dia do Pai e decidi enfrentar o medo para te poder atirar um beijo, mas não te dei uma flor.  Não me atrevi a ir comprá-la e as minhas floreiras no terraço estão um caos, só têm ervas. Antes de sair de casa, pensei que, provavelmente, o cemitério estaria fechado. E, estando aberto, colocou-se a questão: quantas pessoas lá estarão? Isso preocupou-me. E é isto! Temos medo das pessoas e já sinto falta dos abraços.
Fui. Cemitério de portas abertas. Três pessoas, apenas, e o silêncio que o lugar requer. Normalmente, quando te visito, o silêncio e o recolhimento trazem algum bem-estar, são momentos em que podemos ficar sós, apenas nós os dois. Hoje, foi diferente. O silêncio impôs-se em todo lado, já não fez diferença.
Mas, por momentos, senti a liberdade de poder conduzir, mesmo que nem dois quilómetros tenha feito. E pude apreciar bandos de andorinhas que vieram trazer a primavera.

18 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO VI

A situação está a agravar-se. O número de infetados, hoje, subiu para 642. O Presidente da República decretou estado de emergência. O Primeiro Ministro apela: "Para salvar vidas é preciso que a vida continue".
O Mundo está a sofrer e o fim não está à vista.
Olhar à nossa volta é desolador. Assistir às notícias na televisão é desolador. Seguir as publicações no Facebook é desolador.
Por muito que me queira abstrair com trabalho, é quase impossível, a menos que atire com o telemóvel para bem longe.
Parece que há um silêncio sepulcral no meio de tanto ruído nas redes sociais e nos media.
Um silêncio de respeito por todos que foram infetados por um vírus abusador que não escolhe por onde passa. 
Um silêncio de respeito por todos aqueles que estão na linha da frente para que nada falte a quem precisa.
Um silêncio de respeito por aqueles que ficaram completamente sós fechados em casa.
Um silêncio de respeito pelo medo que nos tolhe a todos.
E neste momento já sinto falta do barulho da escola, dos gritos dos jovens sempre cheios de energia, dos abraços das crianças, das conversas...
Parece que já não ouço o trânsito na rua. Da minha janela, apenas vislumbro os vizinhos dos prédios por trás do meu. Um que pedala na varanda. Uma que sacode tapetes à janela. Outro que fuma um cigarro no terraço. Apenas o grasnar das pombas e o voo da cegonha, que se passeia pelo alto do meu quinto andar, indiferentes ao vírus, mostram vida.
Até o carteiro que vem trazer uma encomenda não é recebido da mesma forma. Assinou por nós, demos-lhe autorização. A encomenda veio pelo elevador, ficou fora de portas, foi desinfetada e ficou a arejar antes de ser aberta. 
Até quando?

17 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO V

Desde que estou em casa (sexta-feira passada, pelo meio da tarde), só saí ontem para ir levar plásticos e papel ao ecoponto que fica no cimo da minha rua. Aproveitei para dar uma corrida no regresso.
Só hoje tive mesmo de sair para ir ao supermercado. Três bocas em casa precisam de alimento e há coisas que têm de ser feitas, caso contrário não se morre da doença morre-se da cura!
E foi surreal! Senti-me completamente mergulhada num filme de terror, vivido noutro planeta, noutra dimensão!
Pessoas a entrarem no supermercado à vez. Pessoas com luvas e máscaras. Pessoas com olhares desconfiados como se quem está a uns metros de distância fosse inimigo a abater. Funcionários a alertar para as tiras no chão a demarcar distâncias.
E o sol sem querer saber e a brilhar, a convidar para o passeio, para o convívio!
As notícias não são animadoras. O número de pessoas afetadas subiu para 448. 
Trabalhemos para esquecer. Os alunos começaram a enviar os trabalhos que deveriam realizar no horário normal de aulas. Espero bem que Luís de Camões os ajude a ultrapassar o problema atual. O trabalho, afinal, não é trabalho, é ler poesia. E escrever sobre o mundo e o seu desconcerto. Vamos tentar escrever um conto coletivamente, o desafio já foi enviado.
Tarde de catalogação e de trocas de mensagens com alunos.
As notícias chegadas a meio da tarde não são animadoras. Em Ovar foi declarado estado de calamidade. Há famílias inteiras infetadas!
Pelas 17h, aula virtual sobre utilização do Edmodo. Não há paciência com a falta de paciência de certas pessoas. Às 17h, hora marcada, imensos professores já tinham entrado no site, mas a sessão não começava. Problemas técnicos, suponho! Mas não faltaram comentários depreciativos sobre o atraso. Por vezes tenho vergonha de ser portuguesa. Por vezes tenho vergonha de ser professora!
(Ainda bem que é só por vezes!!!)
Hoje não me apetece escrever mais, embora o dia ainda não tenha acabado.

16 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO - IV

Primeiro dia de uma semana sem escola. Primeiro dia de trabalho domiciliário. Terceiro dia de clausura.
7h15 da manhã e já estou a pé. Felizmente os canais de cinema existem para amparar insónias. 
Isabelle Hupert despertou-me para o dia. 
Manhã inteira com trabalho de catalogação. O telemóvel requer atenção constante. Chegam notificações do Facebook, Whatsapp, Messenger e Instagram. Difícil concentrar para trabalhar. 
Reunião de departamento por email. Há assuntos a resolver e a avaliação dos alunos, que teria de ser feita dentro de 15 dias, está comprometida. 
Tomara eu que o problema do mundo atual fosse a avaliação dos alunos! Estaríamos todos bem mais sossegados! Neste contexto, a avaliação é o último dos problemas. Aliás, nem chega a ser problema!
E a catalogação prolonga-se durante a tarde. Até à hora de um tempo de pilates caseiro. Vivam as tecnologias! O ginásio tem publicado vídeos onde os instrutores  mostram os músculos em corpos fitness e explicam os exercícios a fazer em casa. A bem da sanidade mental. E do corpinho que se irá ressentir de tanta hora na cadeira. Apenas os dedos se exercitam a dar pancada no teclado.
Hora de jantar. Hora do tricô. E de mais um filme.
Amanhã, vai ser preciso sair para fazer compras!