Agora que entrei numa nova fase da minha vida, a da aposentação, foi com muita emoção que recebi esta homenagem das colegas bibliotecárias de Vale de Cambra, no último encontro interconcelhio de BE.
ANA OLIVEIRA
Se leio, quando leio, porque leio, sou mais feliz.
2 de agosto de 2026
4 de julho de 2026
ENTREVISTA
Entrevista que me foi feita por 3 alunas, parar participação no concurso "Jornalistas em Rede", promovido pelo jornal Público e RBE.
Professora de Português, professora bibliotecária e escritora
Ana Paula Oliveira, uma mulher multifacetada
Ana Paula Oliveira é a nossa professora de Português e começou a carreira em 1982. Dedica-se às bibliotecas escolares, desde 1997, exercendo, até à data, o cargo de professora bibliotecária. O contacto permanente com os livros e com a leitura junto de crianças e jovens levou-a a escrever e a publicar livros infantojuvenis tendo publicado o seu primeiro livro, Do cinzento ao azul celeste, em 2007. Nesta entrevista, queremos conhecer melhor todas as suas valências.
Começamos por questioná-la como professora. Estando à beira da aposentação, que conselhos daria a futuros professores e a atuais alunos?
Futuros professores, aconselho-vos a virem preparados para conseguirem enfrentar as novas gerações que não são fáceis!
Agora, fora de brincadeiras, as novas gerações têm características diferentes das anteriores e aprendem de forma muito diferente. A tradicional exposição da matéria não funciona. Por isso, além de empático e apaixonado pela profissão, o professor atual tem de ser criativo e tem de encontrar estratégias “fora da caixa” que cativem os alunos e os façam gostar de aprender e de estar na sala de aula.
Aos alunos, aconselho que se tornem pessoas com elevado espírito crítico, cada vez mais necessário, e que sejam ávidos de conhecimento para poderem enfrentar os desafios que têm pela frente. A liberdade e a democracia correm sérios riscos e só com conhecimentos sólidos é possível defendê-las. Como sempre digo, “Saber é poder!”.
O que pensa sobre a atual falta de professores?
É uma situação catastrófica. Uma escola só é escola com alunos e professores. Faltando um destes agentes, não podemos falar em ensino-aprendizagem. E eu não gostaria nada de ver os professores substituídos por tutores criados pela Inteligência Artificial. Na educação tem de haver emoção.
Qual é a sua opinião sobre a utilização da IA (Inteligência Artificial) nas aulas?
Uso a IA e provoco os alunos a usá-la, de vez em quando, nas aulas, precisamente para que se apercebam que a IA não nos pode substituir, mas, sim, ajudar-nos e poupar-nos tempo. Deixar que a IA faça tudo por nós, nos tire a criatividade e a capacidade de imaginar, nunca. Por esta razão, esse tem sido o meu papel, também como professora bibliotecária: discutir o assunto com os alunos, em sessões que tenho dinamizado, e fazê-los ver que não devem depender da máquina nem usá-la indiscriminadamente.
Como professora bibliotecária, o que faz para motivar os alunos a frequentarem a biblioteca?
Desenvolvo atividades dinâmicas que os alunos consideram atraentes. O fundo documental das bibliotecas é atualizado regularmente com livros do agrado dos alunos. Dinamizo projetos de leitura e escrita, alguns já financiados pela Rede de Bibliotecas Escolares e pelo Plano Nacional de Leitura. Lanço vários desafios, uns imaginados por mim outros lançados a nível nacional, que têm dado prémios aos alunos e às bibliotecas. Faço montras temáticas mensais para que os livros saiam das estantes e fiquem ao alcance dos olhos dos leitores. Mantenho o espaço agradável, convidativo, equipado com computadores e jogos de tabuleiro para que os alunos lá fiquem a estudar, depois das aulas, e ocupem tempos livres. O maior segredo: a simpatia e abertura ao diálogo com todos que lá entram.
Tem alguma formação especial para desempenhar o cargo?
Comecei com um curso de 200 horas, na Faculdade de Psicologia, no Porto, e apesar de não ter formação académica, mestrado ou pós-graduação, tenho imensas horas de formação contínua.
Como professora bibliotecária gosta da expressão idiomática “Ratinhos de biblioteca”?
Adoro! Além de haver muitas histórias em que os ratinhos são personagens muito queridas, a expressão é carinhosa e remete para alguém que passa muito tempo a ler, na biblioteca, como se fosse a sua casa. Tal como o ratinho, o ratinho de biblioteca, no sentido metafórico, também é um roedor que se alimenta de conhecimento.
Finalmente, estamos muito curiosas com a sua atividade como escritora. Qual foi o livro que lhe deu mais prazer escrever?
Todos, pois, para mim, é um prazer escrever. Mas, o mais divertido é A vassoura que desvassourou, apesar de ter um assunto sério, o direito à greve.
Qual foi o livro que lhe custou mais escrever?
O conto “Nyambura”, publicado no livro 39 poemas e contos contra o racismo, que ganhou o primeiro lugar, escalão adultos, num concurso promovido pelo Alto Comissariado para as Migrações. Custou-me muito escrevê-lo, fez-me sofrer, devido ao tema, o racismo. Foi muito duro ter escolhido como personagens uma criança negra e uma professora racista. Fiz pesquisa. Isto acontece e não deveria!
Por que razão começou a escrever?
Comecei a escrever muito nova, mas, mais regularmente, depois de ser professora bibliotecária: em primeiro lugar, porque muitas vezes não encontrava o livro adequado para dinamizar as atividades na biblioteca e escrevia as histórias de acordo com o que pretendia; em segundo lugar, para dar exemplo aos alunos: quando lhes pedia para escrever um texto, era eu a primeira a fazê-lo, para provar que não estava a pedir nada impossível.
No entanto, escrever não é sinónimo de publicar. Escrevi muitos contos, mas apenas publiquei oito.
Tenciona publicar mais algum livro?
Sim, tenho um novo conto pronto para ser publicado, mas ainda é segredo!
Gostaríamos que nos recomendasse três livros para jovens.
Recomendar os meus preferidos é impossível, três é muito pouco. Como adoro livros com livros dentro, recomendo estes que têm os livros e as bibliotecas em destaque: Firmin, do americano Sam Savage, A biblioteca mágica, do norueguês Jostein Gaarder, O que procuras está na biblioteca, do japonês Michiko Aoyama.
A sua vida profissional interfere com a sua vida pessoal?
Além da vida profissional, dinamizo, a título pessoal, desde abril de 2025, um Clube de Leitura Juvenil, na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira. E ainda sobra algum tempo para os meus hobbies: pilates, leitura e tricô. Obviamente, tudo isto interfere na minha vida familiar, pois não tenho tempo para me dedicar mais à família. Mas, como são todos muito queridos, dão-me espaço e têm muito orgulho em mim!
6 de junho de 2026
TAMBÉM EU!
Também eu, também eu, tal como o poeta,
Edifiquei alto castelo (também foi esse o grande mal!)
Todo lápis-lazúli e dourado
Com portas abertas ao amor.
Sei bem o dia em que desmoronou,
Se tornou pó.
Sei bem o dia em que, pelas portas escancaradas,
Não entrou ninguém.
Mas não sou poeta.
Não sei usar metáforas que escondam o que sinto.
Sinto, e isso é quanto basta.
O castelo desmoronou.
Já não há portas. Já não há janelas.
Só pó.
Um espaço desfeito.
E um vazio onde devia haver um ninho.
31 de maio de 2026
O QUE ACABEI DE LER
Prémio Leya 2024
Sinopse:"Um retrato poderoso e simbólico do fim de um regime, uma história de dificuldades e esperança que bem podia ter acontecido. Estamos em 1962, num país orgulhosamente só, e vem aí a construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo, para a qual vão ser precisos cerca de três mil homens. A obra irá mudar para sempre a paisagem da capital, muito especialmente para quem vive em Alcântara, como é agora o caso de Victor Tirapicos, instalado na casa dos tios depois de ter envergonhado o pai com dois anos de cadeia só por ter roubado pão e batatas para fintar a miséria.É, de resto, pelos olhos deste serralheiro de vinte e dois anos que veremos a ponte erguer-se um pouco mais todos os dias e, ali mesmo ao lado, partirem os navios cheios de rapazes para a guerra do Ultramar, donde muitos acabarão por voltar estropiados, endoidecidos ou mortos. Porém, apesar de a modernidade parecer estar a matar a vida e os costumes do pátio operário onde convivem (amigavelmente ou nem tanto) uma série de figuras inesquecíveis entre elas o mestre sapateiro que faz as chuteiras para o Atlético Clube de Portugal e um velho culto que aprende a desler , Victor Tirapicos encontra o amor de uma rapariga que é muda mas consegue escutar o planeta, pressentindo a derrocada da estação do Cais do Sodré e outra catástrofe ainda maior, que se calhar tem pés de barro e só acontece neste romance, mas bem podia ter acontecido."
Opinião:
Cada palavra de Pés de barro, merece o prémio
que o livro ganhou. Mesmo os palavrões, tão assertivos, tão usados no momento
certo, a raiva, o ódio, o sofrimento, exigiram-nos.
Pés de barro é um livro de contrastes.
Um livro que, com muita ironia, deixa entranhado no leitor o
cheiro putrefacto da fome, da miséria, da guerra, do sofrimento de um povo vítima da ditadura salazarista que
contrasta com o maravilhoso cheiro do chocolate produzido na fábrica Regina. O
povo português, saloio, pacóvio, analfabeto e servil, contrasta com o povo
americano, evoluído e civilizado, que projetou a ponte sobre o rio Tejo. A
bondade e a ternura de algumas personagens contrastam com a rigidez, a
estupidez e o mau caráter de outras.
Um livro doloroso, que aperta o coração e faz soltar as
lágrimas com as descrições das atrocidades cometidas pela PIDE e do horror da guerra no ultramar, tudo em nome
da pátria, esta pátria "orgulhosamente só" e orgulhosamente ignorante.
Um livro em que o
Deus é posto em causa, pois permite tanto sofrimento e tanta dor aos mais
vulneráveis que a Ele se agarram e nada recebem em troca, a não ser injustiças
e luto: "Deus estava lá em África quando ele pisara a mina mas preferia
olhar para o lado."
E só uma revolução poderia preencher o vazio destas vidas
sofridas, deixar de ser vazio para ser esperança.
16 de maio de 2026
CIDADE-JARDIM
A minha homenagem à cidade, S. João da Madeira, que comemora 100 anos da criação do concelho, conquista que se concretizou em 11 de outubro de 1926.
Cidade-jardim
Quando as árvores se vestem de luzes, o Natal acontece.
Quando os canteiros são berço de tulipas, a cor explode, a primavera acontece.
Quando as magnólias despertam, abrem-se em silêncio, anunciam o fim do inverno.
Quando os jacarandás pintam as ruas de lilás, é poesia que passeia pelas ruas.
E as cegonhas sobrevoam esta cidade-jardim e instalam-se. Partem, de tempos a tempos, para levarem notícias de cá. Regressam todos os anos. Trazem notícias de lá.
Longe do rebuliço do centro da cidade, há refúgios. Ali, os habitantes caminham, dialogam com a natureza, buscam o silêncio.
Há paz na cidade!
8 de março de 2026
NÃO ESPERES!
Não esperes que fique fechada em casa
a cozinhar
a lavar
a passajar
a bordar
a tricotar
Não esperes que fique sentada à tua espera
a fingir sentir-me bela e fresca
a fingir querer sexo consentido
porque vens cansado de trabalhar
e queres relaxar
Não esperes que eu espere que me cortes as asas
Não esperes que me cale
Não esperes que engula as palavras para não incendiar a casa
Os meus olhos transbordam cansaço
Galgam margens como rio tresloucado
Hoje levanto-me, inteira
Há um novo rumor que me impele
Hoje, levanto-me e grito
Não sou silêncio. Sou voz.
25 de dezembro de 2025
NATAL É CASA
A mãe é a chef de serviço, amparada por um batalhão de subchefes que não têm mãos a medir.
A cozinha é um festival de cheiros, cores e sabores. Canela, ovos açúcar, vinho do Porto, nozes, passas, avelãs, alho, azeite, couves, bacalhau… competem entre si, mas todos concordam: Natal é o cheiro e o brilho da palavra casa.
Na sala engalanada, a mesa comprida orgulha-se por estar tão bem vestida, tão elegante. Aqui, o festival é outro. Ensaiam-se canções de Natal. Mesmo que as vozes desafinem e não se acerte na nota correta, ninguém repara, ninguém se importa. A harmonia vem da alegria que se instala e permanece ao longo da noite que cresce devagar.
E as histórias do passado regressam todos os anos. Porque os que já partiram continuam ali. Sempre presentes em cada memória, em cada gargalhada, em cada olhar.
- Este ano as rabanadas não ficaram tão boas, o pão não era grande coisa! Mas, em contrapartida, que lindos estão os sonhos e os bilharacos! E reparem nas cores deste leite creme e desta aletria! E o bacalhau? O que acham? - pergunta a chef, exigente como sempre. - Todos os anos é a caldeirada o que mais me custa fazer!
Ninguém contesta. É tradição!
E é assim, todos os anos: um teatro sem guião, sem ensaio, sem papéis definidos. Só família, música, alegria, aromas espalhados pela casa inteira e o sabor do amor.
É já madrugada quando todos partem. A lareira continua a remoer as últimas achas e, na sala, agora vazia, ecoam as gargalhadas e a satisfação pelas prendas recebidas.
Nos embrulhos desfeitos, no caos dos papéis e fitas rasgados, nos pratos das sobremesas semivazios, resta a essência desta família: uma confusão maravilhosa que nenhum de nós trocaria por nada deste mundo.
30 de agosto de 2025
O QUE ACABEI DE LER
Uma história de terror e ódio, inspirada na própria família da autora, que explora heranças familiares terríveis e presta vingança às mulheres violentadas. Mistura ficção e terror com elementos autobiográficos, centrada nas mulheres, a mãe, a avó e a bisavó, e na casa onde viveram, que acaba por ser a personagem central.
Narrada a duas vozes, por uma jovem e pela sua avó que alternam os seus pontos de vista, a história começa com o regresso da neta, acusada de um crime, à casa rural da família, um lar assombrado onde vive com a avó e com espetros do passado.
"A minha mãe dizia que esta casa nos faz cair os dentes e nos seca as vísceras, mas a minha mãe saiu daqui há muito tempo e não me lembro dela. Sei que dizia isto porque a minha avó mo contou, embora não fosse preciso porque eu já o sabia. Aqui caem-nos os dentes e o cabelo e as carnes e, se não tivermos cuidado, damos por nós a arrastar-nos de um lado para o outro ou prostradas na cama para nunca mais nos levantarmos".
Uma narrativa onde o terror psicológico perpassa. Os fantasmas que assombram a casa são reais para as protagonistas, há sombras debaixo das camas e nos armários, e conotam as feridas deixadas pela violência familiar e pela pobreza.
"Toda essa amargura, esse ressentimento que acumulamos ao longo dos anos, é como o caruncho, algo que nos destrói por dentro".
Todo o ambiente de assombração e medo foi inspirado na cultura popular local: acredita-se que os mortos voltam para transmitir mensagens ou para concluir algo inacabado.
5 de agosto de 2025
O QUE ACABEI DE LER
Desengane-se o leitor que fica na expectativa de assistir, sentado no seu sofá, a assassinatos ao longo da história, a começar logo no primeiro capítulo. Não! Terá de esperar quase até ao fim do livro!
E não é um livro fácil de ler. A alternância de tempos e espaços leva a que se tenha de voltar atrás algumas vezes para acompanhar a vida da personagem que, aos 17 anos, viveu a sua primeira história de amor cujo final abrupto lhe deixou marcas profundas e traçou o seu percurso: “deve ser doloroso lembrares-te de quem não te quis, não?”.
Também não é a biografia de Brynhild. É um romance psicológico cuja protagonista possui uma mente perturbada, atormentada pelo desejo de amor, pela compulsão sexual, pelo fervor religioso (a presença constante de Deus a regular a sua vida acentua os seus atos de loucura), pela falta de aceitação e sensação de abandono pelo mundo. “Recebera a rejeição como uma chapada na cara.” Todos estes ingredientes misturados impelem-na à violência de uma forma fria, cruel, quase irracional, provocada por um desejo mórbido que ela nunca encontrou.
“E este anseio, este suor de amor que não parava de correr, pespegava-se a tudo que ela fazia, estas glândulas fedorentas nos sovacos nunca deixavam de cheirar mal. Este anseio, o grande corpo aberto. (…) Estes nervos, a inquietação constante, as cores dentro dela, este ridículo no seu interior, os instintos, os sentimentos e os pensamentos eram como pústulas no seu corpo, dentro dela as imagens pintavam-se tão grandes, tão gigantescas.”
“Bella virou-se para Deus, para tudo o que constava da Bíblia, para tudo o que estava preto no branco, para a verdade inabalável.”
Ao longo do romance, há indícios desta loucura através de referências a luz e sombras, cores escuras (flores cinzentas e borboletas negras) e, sobretudo, pela questão que se repete variadas vezes: “que género de pessoa és tu?”, “quem és tu, de verdade?”.
A narrativa é revestida de bastante crueldade, no entanto, atenuada por várias passagens poéticas. Se, por um lado, o leitor fica chocado com todo o comportamento da personagem, por outro, não sente os murros no estômago que seria suposto sentir. A autora consegue, com mestria, entrar no mundo tumultuoso de Brynhild, a mulher consumida pelo desejo, que “agira como se fosse Deus”, e retratá-lo com subtileza e beleza.
24 de julho de 2025
RETALHOS DA VIDA DE UMA PROFESSORA BIBLIOTECÁRIA
Agora que mais um ano letivo chegou ao fim, é tempo de balanço e de pensarmos o que andamos aqui a fazer.
Os verbos que uma PB conjuga, num retalho em poucas palavras e muitas ações.
Ser professora bibliotecária é missão.
É orientar, inovar e inspirar.
É desafiar e responder a desafios.
É querer saber mais e partilhar o saber.
É planear, colaborar e estabelecer pontes.
É abrir as portas do conhecimento e da criatividade.
É despertar a curiosidade e a imaginação.
É surfar nas ondas da informação e combater a desinformação.
É avaliar para transformar e melhorar.
É contar histórias e dar vida às personagens.
É abraçar e receber abraços.
É estar sempre presente e não fazer de conta.
É trabalhar, muitas vezes, em silêncio para que a sua voz se possa ouvir.










