8 de março de 2026

NÃO ESPERES!

No Dia Internacional da Mulher, uma homenagem a todas que não se calaram e não ficaram à espera! A elas devo a minha liberdade!
imagem criada por IA (chatGPT)

Não esperes que fique fechada em casa

a cozinhar 

a lavar

a passajar

a bordar 

a tricotar

Não esperes que fique sentada à tua espera 

a fingir sentir-me bela e fresca 

a fingir querer sexo consentido 

porque vens cansado de trabalhar 

e queres relaxar

Não esperes que eu espere que me cortes as asas

Não esperes que me cale

Não esperes que engula as palavras para não incendiar a casa


Os meus olhos transbordam cansaço

Galgam margens como rio tresloucado


Hoje levanto-me, inteira

Há um novo rumor que me impele

Hoje, levanto-me e grito

Não sou silêncio. Sou voz.


25 de dezembro de 2025

NATAL É CASA

É manhã, ainda muito cedo, mas a agitação já se sente e a cozinha transforma-se numa fábrica em plena produção.

A mãe é a chef de serviço, amparada por um batalhão de subchefes que não têm mãos a medir. 

A cozinha é um festival de cheiros, cores e sabores. Canela, ovos açúcar, vinho do Porto, nozes, passas, avelãs, alho, azeite, couves, bacalhau… competem entre si, mas todos concordam: Natal é o cheiro e o brilho da palavra casa.

Na sala engalanada, a mesa comprida orgulha-se por estar tão bem vestida, tão elegante. Aqui, o festival é outro. Ensaiam-se canções de Natal. Mesmo que as vozes desafinem e não se acerte na nota correta, ninguém repara, ninguém se importa. A harmonia vem da alegria que se instala e permanece ao longo da noite que cresce devagar.

E as histórias do passado regressam todos os anos. Porque os que já partiram continuam ali. Sempre presentes em cada memória, em cada gargalhada, em cada olhar.

- Este ano as rabanadas não ficaram tão boas, o pão não era grande coisa! Mas, em contrapartida, que lindos estão os sonhos e os bilharacos! E reparem nas cores deste leite creme e desta aletria! E o bacalhau? O que acham? - pergunta a chef, exigente como sempre. - Todos os anos é a caldeirada o que mais me custa fazer! 

Ninguém contesta. É tradição!

E é assim, todos os anos: um teatro sem guião, sem ensaio, sem papéis definidos. Só família, música, alegria, aromas espalhados pela casa inteira e o sabor do amor.

É já madrugada quando todos partem. A lareira continua a remoer as últimas achas e, na sala, agora vazia, ecoam as gargalhadas e a satisfação pelas prendas recebidas.

Nos embrulhos desfeitos, no caos dos papéis e fitas rasgados, nos pratos das sobremesas semivazios, resta a essência desta família:  uma confusão maravilhosa que nenhum de nós trocaria por nada deste mundo.


30 de agosto de 2025

O QUE ACABEI DE LER

 

Uma história de terror e ódio, inspirada na própria família da autora, que explora heranças familiares terríveis e presta vingança às mulheres violentadas. Mistura ficção e terror com elementos autobiográficos, centrada nas mulheres, a mãe, a avó e a bisavó, e na casa onde viveram, que acaba por ser a personagem central.

Narrada a duas vozes, por uma jovem e pela sua avó que alternam os seus pontos de vista, a história começa com o regresso da neta, acusada de um crime, à casa rural da família, um lar assombrado onde vive com a avó e com espetros do passado.

"A minha mãe dizia que esta casa nos faz cair os dentes e nos seca as vísceras, mas a minha mãe saiu daqui há muito tempo e não me lembro dela. Sei que dizia isto porque a minha avó mo contou, embora não fosse preciso porque eu já o sabia. Aqui caem-nos os dentes e o cabelo e as carnes e, se não tivermos cuidado, damos por nós a arrastar-nos de um lado para o outro ou prostradas na cama para nunca mais nos levantarmos".

Uma narrativa onde o terror psicológico perpassa. Os fantasmas que assombram a casa são reais para as protagonistas, há sombras debaixo das camas e nos armários, e conotam as feridas deixadas pela violência familiar e pela pobreza.

"Toda essa amargura, esse ressentimento que acumulamos ao longo dos anos, é como o caruncho, algo que nos destrói por dentro".

Todo o ambiente de assombração e medo foi inspirado na cultura popular local: acredita-se que os mortos voltam para transmitir mensagens ou para concluir algo inacabado.


5 de agosto de 2025

O QUE ACABEI DE LER

 


Será uma técnica de marketing, para a compra do livro, incluir na capa e na contracapa a informação que este é um romance inspirado na vida de Brynhild Størset, também conhecida como Bella Sørensen e, depois, Belle Gunness, a qual terá assassinado mais de 40 pessoas, incluindo dois maridos e uma série indeterminada de homens que descobria através do correio sentimental da imprensa norueguesa.

Desengane-se o leitor que fica na expectativa de assistir, sentado no seu sofá, a assassinatos ao longo da história, a começar logo no primeiro capítulo. Não! Terá de esperar quase até ao fim do livro!

E não é um livro fácil de ler. A alternância de tempos e espaços leva a que se tenha de voltar atrás algumas vezes para acompanhar a vida da personagem que, aos 17 anos, viveu a sua primeira história de amor cujo final abrupto lhe deixou marcas profundas e traçou o seu percurso: “deve ser doloroso lembrares-te de quem não te quis, não?”.

Também não é a biografia de Brynhild. É um romance psicológico cuja protagonista possui uma mente perturbada, atormentada pelo desejo de amor, pela compulsão sexual, pelo fervor religioso (a presença constante de Deus a regular a sua vida acentua os seus atos de loucura), pela falta de aceitação e sensação de abandono pelo mundo. “Recebera a rejeição como uma chapada na cara.” Todos estes ingredientes misturados impelem-na à violência de uma forma fria, cruel, quase irracional, provocada por um desejo mórbido que ela nunca encontrou.

E este anseio, este suor de amor que não parava de correr, pespegava-se a tudo que ela fazia, estas glândulas fedorentas nos sovacos nunca deixavam de cheirar mal. Este anseio, o grande corpo aberto. (…) Estes nervos, a inquietação constante, as cores dentro dela, este ridículo no seu interior, os instintos, os sentimentos e os pensamentos eram como pústulas no seu corpo, dentro dela as imagens pintavam-se tão grandes, tão gigantescas.”

“Bella virou-se para Deus, para tudo o que constava da Bíblia, para tudo o que estava preto no branco, para a verdade inabalável.”

Ao longo do romance, há indícios desta loucura através de referências a luz e sombras, cores escuras (flores cinzentas e borboletas negras) e, sobretudo, pela questão que se repete variadas vezes: “que género de pessoa és tu?”, “quem és tu, de verdade?”.

A narrativa é revestida de bastante crueldade, no entanto, atenuada por várias passagens poéticas. Se, por um lado, o leitor fica chocado com todo o comportamento da personagem, por outro, não sente os murros no estômago que seria suposto sentir. A autora consegue, com mestria, entrar no mundo tumultuoso de Brynhild, a mulher consumida pelo desejo, que “agira como se fosse Deus”, e retratá-lo com subtileza e beleza.


24 de julho de 2025

RETALHOS DA VIDA DE UMA PROFESSORA BIBLIOTECÁRIA

 Agora que mais um ano letivo chegou ao fim, é tempo de balanço e de pensarmos o que andamos aqui a fazer.


Os verbos que uma PB conjuga, num retalho em poucas palavras e muitas ações.

Ser professora bibliotecária é missão. 

É orientar, inovar e inspirar.

É desafiar e responder a desafios.

É querer saber mais e partilhar o saber.

É planear, colaborar e estabelecer pontes.

É abrir as portas do conhecimento e da criatividade.

É despertar a curiosidade e a imaginação.

É surfar nas ondas da informação e combater a desinformação.

É avaliar para transformar e melhorar.

É contar histórias e dar vida às personagens.

É abraçar e receber abraços.

É estar sempre presente e não fazer de conta. 

É trabalhar, muitas vezes, em silêncio para que a sua voz se possa ouvir.

21 de junho de 2025

DECLARAÇÃO DE AMOR A LUÍS DE CAMÕES

 

Decorreu na Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo, em S. João da Madeira, na passada terça-feira, dia 17 de junho, a cerimónia de entrega de prémios do concurso concelhio "Microcontos" (uma atividade do Projeto Educativo Municipal para as escolas), subordinado ao tema "Vida e obra de Luís de Camões".

Foi uma honra ter-me cabido o 1.º lugar no escalão adultos com o microconto "Declaração de amor"!



27 de maio de 2025

AMANHÃ, PROMETO PLANTAR UM JACARANDÁ

imagem gerada por IA (chatGPT)


Já escrevi poemas. Atirei-os ao vento.

Já tive segredos. Não os consegui guardar.

Já dancei sob a chuva. E nem sabia dançar.

E nada perturbou o meu pensamento.


Colecionei ideais. Vi-os fugir.

Não os consegui agarrar!

Já muito viajei. Tantas voltas dei ao mundo.

Tanto vi, tanto senti. Mas não o consegui mudar.


Em tantas coisas acreditei.

Só ainda não plantei uma árvore,

talvez com medo de ficar como ela:

criar raízes, fixar os pés na terra e não poder andar.


Contudo, amanhã, se não chover,

prometo plantar um jacarandá,

abrigo lilás para pássaros errantes,

e ficar à espera, a vê-lo crescer.


14 de abril de 2025

CLUBE DE LEITURA JUVENIL - PRIMEIRA SESSÃO NA BIBLIOTECA MUNICIPAL

Na primeira sessão do Clube de Leitura Juvenil, e para quebrar o gelo entre os seis jovens fundadores (dos 11 aos 14 anos), foi lançado um desafio: 

- Se pudesses ser uma personagem de um livro, qual serias e por que motivo?

As respostas não tardaram.

- Odisseu, personagem da Odisseia, de Homero, pela força de vontade e resiliência.

- Bruno, do livro O rapaz do pijama às riscas, de John Boyne, por ser aventureiro e fazer amizade com alguém da sua idade, apesar da rede que os divide.

- Teresa, uma das gémeas da coleção “Uma aventura”, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, por ser divertida e aventureira.

- A rapariga karateca, do livro O caderno vermelho da rapariga karateca, de Ana Pessoa, por ser diferente e por ter um diário como se fosse um animal de estimação ou uma pessoa de verdade.

- Leo, de O leão por cima da porta, de Onjali Q. Raúf, por fazer justiça.

- Mortimer, da coleção Blake e Mortimer, de Edgar P. Jacobs, por ser um cientista que gosta de egiptologia.

Quanto ao livro lido, O destino de Fausto, de Oliver Jeffers, cada um definiu-o numa única palavra, de acordo com aquilo que nele sobressai: ditadura, arrogância, egoísmo, posse, controlo, realidade.

Todos gostaram muito do livro. Apesar da leitura rápida e fácil, a mensagem é profunda e a personagem Fausto simboliza aquilo que não se quer: prepotência, ditadura e ganância. Ninguém é dono do mundo e o poder, quando é obsessivo e tirano, é bastante negativo. Fazendo uma analogia com a vida real, notou-se o quanto estes jovens estão a par dos problemas do mundo. Não faltaram exemplos de problemas atuais relacionados com ditadores. Felizmente, há sempre alguém que resiste, no caso do conto, o mar que não se deixa subjugar e é o símbolo da oposição e da luta contra a opressão.

A discussão sobre o livro, bastante participada e animada, terminou com o julgamento de Fausto, o que foi bastante divertido e, estou convencida, contribuiu para que estes jovens regressem e tragam mais uns quantos.


30 de março de 2025

CLUBE DE LEITURA JUVENIL

 A partir do dia 9 de abril de 2025, irei dinamizar um Clube de Leitura Juvenil, na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira, para jovens entre os 12 e 15 anos. Estou ansiosa para conhecer os novos leitores e partilhar com eles experiências de leituras.


21 de março de 2025

21 DE MARÇO - DIA MUNDIAL DA POESIA

 

imagem gerada por IA (chat gpt)

Despedida em tons de branco

Almofada

Fios de cabelo

Lençol

Colcha  

Chinelos

Cortina

Janela

Luz

Luar

Suspiro

Sopro

Nuvem

Fim