6 de junho de 2026

TAMBÉM EU!

imagem criada por IA (Chat GPT


Também eu, também eu, tal como o poeta,

Edifiquei alto castelo (também foi esse o grande mal!)

Todo lápis-lazúli e dourado

Com portas abertas ao amor.

Sei bem o dia em que desmoronou,

Se tornou pó.

Sei bem o dia em que, pelas portas escancaradas,

Não entrou ninguém.

Mas não sou poeta.

Não sei usar metáforas que escondam o que sinto.

Sinto, e isso é quanto basta.

O castelo desmoronou.

Já não há portas. Já não há janelas. 

Só pó.

Um espaço desfeito.

E um vazio onde devia haver um ninho.


31 de maio de 2026

O QUE ACABEI DE LER

 Prémio Leya 2024

Sinopse:

"Um retrato poderoso e simbólico do fim de um regime, uma história de dificuldades e esperança que bem podia ter acontecido. Estamos em 1962, num país orgulhosamente só, e vem aí a construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo, para a qual vão ser precisos cerca de três mil homens. A obra irá mudar para sempre a paisagem da capital, muito especialmente para quem vive em Alcântara, como é agora o caso de Victor Tirapicos, instalado na casa dos tios depois de ter envergonhado o pai com dois anos de cadeia só por ter roubado pão e batatas para fintar a miséria.É, de resto, pelos olhos deste serralheiro de vinte e dois anos que veremos a ponte erguer-se um pouco mais todos os dias e, ali mesmo ao lado, partirem os navios cheios de rapazes para a guerra do Ultramar, donde muitos acabarão por voltar estropiados, endoidecidos ou mortos. Porém, apesar de a modernidade parecer estar a matar a vida e os costumes do pátio operário onde convivem (amigavelmente ou nem tanto) uma série de figuras inesquecíveis entre elas o mestre sapateiro que faz as chuteiras para o Atlético Clube de Portugal e um velho culto que aprende a desler , Victor Tirapicos encontra o amor de uma rapariga que é muda mas consegue escutar o planeta, pressentindo a derrocada da estação do Cais do Sodré e outra catástrofe ainda maior, que se calhar tem pés de barro e só acontece neste romance, mas bem podia ter acontecido."

Opinião:

Cada palavra de Pés de barro, merece o prémio que o livro ganhou. Mesmo os palavrões, tão assertivos, tão usados no momento certo, a raiva, o ódio, o sofrimento, exigiram-nos.

Pés de barro é um livro de contrastes.

Um livro que, com muita ironia, deixa entranhado no leitor o cheiro putrefacto da fome, da miséria, da guerra, do sofrimento  de um povo vítima da ditadura salazarista que contrasta com o maravilhoso cheiro do chocolate produzido na fábrica Regina. O povo português, saloio, pacóvio, analfabeto e servil, contrasta com o povo americano, evoluído e civilizado, que projetou a ponte sobre o rio Tejo. A bondade e a ternura de algumas personagens contrastam com a rigidez, a estupidez e o mau caráter de outras.

Um livro doloroso, que aperta o coração e faz soltar as lágrimas com as descrições das atrocidades cometidas pela PIDE e do horror da guerra no ultramar, tudo em nome da pátria, esta pátria "orgulhosamente só" e orgulhosamente ignorante.

Um livro em que  o Deus é posto em causa, pois permite tanto sofrimento e tanta dor aos mais vulneráveis que a Ele se agarram e nada recebem em troca, a não ser injustiças e luto: "Deus estava lá em África quando ele pisara a mina mas preferia olhar para o lado."

E só uma revolução poderia preencher o vazio destas vidas sofridas, deixar de ser vazio para ser esperança.

16 de maio de 2026

CIDADE-JARDIM

A minha homenagem à cidade, S. João da Madeira, que comemora 100 anos da criação do concelho, conquista que se concretizou em 11 de outubro de 1926.

Cidade-jardim

Quando as árvores se vestem de luzes, o Natal acontece.

Quando os canteiros são berço de tulipas, a cor explode, a primavera acontece.

Quando as magnólias despertam, abrem-se em silêncio, anunciam o fim do inverno.

Quando os jacarandás pintam as ruas de lilás, é poesia que passeia pelas ruas.

E as cegonhas sobrevoam esta cidade-jardim e instalam-se. Partem, de tempos a tempos, para levarem notícias de cá. Regressam todos os anos. Trazem notícias de lá.

Longe do rebuliço do centro da cidade, há refúgios. Ali, os habitantes caminham, dialogam com a natureza, buscam o silêncio. 

Há paz na cidade!


8 de março de 2026

NÃO ESPERES!

No Dia Internacional da Mulher, uma homenagem a todas que não se calaram e não ficaram à espera! A elas devo a minha liberdade!
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Não esperes que fique fechada em casa

a cozinhar 

a lavar

a passajar

a bordar 

a tricotar

Não esperes que fique sentada à tua espera 

a fingir sentir-me bela e fresca 

a fingir querer sexo consentido 

porque vens cansado de trabalhar 

e queres relaxar

Não esperes que eu espere que me cortes as asas

Não esperes que me cale

Não esperes que engula as palavras para não incendiar a casa


Os meus olhos transbordam cansaço

Galgam margens como rio tresloucado


Hoje levanto-me, inteira

Há um novo rumor que me impele

Hoje, levanto-me e grito

Não sou silêncio. Sou voz.