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25 de dezembro de 2025

NATAL É CASA

É manhã, ainda muito cedo, mas a agitação já se sente e a cozinha transforma-se numa fábrica em plena produção.

A mãe é a chef de serviço, amparada por um batalhão de subchefes que não têm mãos a medir. 

A cozinha é um festival de cheiros, cores e sabores. Canela, ovos açúcar, vinho do Porto, nozes, passas, avelãs, alho, azeite, couves, bacalhau… competem entre si, mas todos concordam: Natal é o cheiro e o brilho da palavra casa.

Na sala engalanada, a mesa comprida orgulha-se por estar tão bem vestida, tão elegante. Aqui, o festival é outro. Ensaiam-se canções de Natal. Mesmo que as vozes desafinem e não se acerte na nota correta, ninguém repara, ninguém se importa. A harmonia vem da alegria que se instala e permanece ao longo da noite que cresce devagar.

E as histórias do passado regressam todos os anos. Porque os que já partiram continuam ali. Sempre presentes em cada memória, em cada gargalhada, em cada olhar.

- Este ano as rabanadas não ficaram tão boas, o pão não era grande coisa! Mas, em contrapartida, que lindos estão os sonhos e os bilharacos! E reparem nas cores deste leite creme e desta aletria! E o bacalhau? O que acham? - pergunta a chef, exigente como sempre. - Todos os anos é a caldeirada o que mais me custa fazer! 

Ninguém contesta. É tradição!

E é assim, todos os anos: um teatro sem guião, sem ensaio, sem papéis definidos. Só família, música, alegria, aromas espalhados pela casa inteira e o sabor do amor.

É já madrugada quando todos partem. A lareira continua a remoer as últimas achas e, na sala, agora vazia, ecoam as gargalhadas e a satisfação pelas prendas recebidas.

Nos embrulhos desfeitos, no caos dos papéis e fitas rasgados, nos pratos das sobremesas semivazios, resta a essência desta família:  uma confusão maravilhosa que nenhum de nós trocaria por nada deste mundo.


2 de março de 2025

AS GIRAFAS TAMBÉM GOSTAM DE MOLHAR OS PÉS

A girafa Josefa viajou da savana até ao mar. Durante o longo percurso, conheceu outras girafas, de outras estórias, e com elas aprendeu algumas lições.

Agora, vai viajar de escola em escola, no meu Agrupamento, para que as crianças a conheçam e a ajudem a resolver o dilema final.

31 de dezembro de 2024

FELIZ ANO NOVO!


Caro 2024,

Este é o teu último dia e não sei se me quero despedir. O teu sucessor vai entrar e, estou convencida, não vai ser meigo. 

Não é que tu tenhas sido muito meigo, trouxeste alguns contratempos, mas nada que não se resolvesse e, feito o balanço, até foste um ano bom. Profissionalmente continuo a fazer o que gosto e a ter alguns sucessos, a Beatriz, finalmente, está na casa dela e vejo-a feliz (quando os filhos estão felizes, as mães também são felizes), e a família está bem e continua unida.

Não sou mulher de sofrer por antecipação e, normalmente, sou positiva e otimista. No entanto, o teu sucessor traz-me alguma preocupação. O mundo está feio! Guerras que nunca mais acabam e ameaças de outras ensombram-nos. A pressa com que vivemos, sufoca-nos. A falta de tolerância, a desigualdade social cada vez mais acentuada, o egoísmo exacerbado desumanizam-nos.

Por isso, não quero um Ano Novo apenas pintado com novas tintas que apenas escondem o negro que fica por baixo. 

Quero que a partir de janeiro as coisas mudem, que seja um ano mesmo novo, não seja remendado. Quero que, em todo o mundo, a justiça seja plantada, que a liberdade se espalhe e contagie, que os direitos sejam respeitados. E, parafraseando Carlos Drummond de Andrade, que entre os homens e as nações tudo seja claridade, recompensa e justiça.

Será querer o impossível? Em todo o caso, peço-te que entregues este recado a 2025 antes de partires.

26 de dezembro de 2024

CONTO DE NATAL!


imagem gerada por IA (Chat GPT)

O dia nasceu fosco, apesar de ser dia de festa. No parque, as árvores despidas não se mexiam. Parecia que a vida parara. Só o rio aparentava ter vida e continuava a correr, indiferente ao dia e a tudo o que se passava na cidade.

Ali, a velhinha (ou talvez não fosse tão velhinha assim), qual farrapo humano, arrastava-se pela rua, fustigada pela solidão, cansada da sua cama de chuva com lençóis de vento. Mendigava amor. Mas, nem uma mão estendida, nem um abraço se via. Todos se tinham recolhido no seu egoísmo, apenas preocupados com as prendas que ainda não tinham comprado. As montras pareciam insultá-la, com tanto brilho dourado e azul prateado a contrastar com os remendos das suas roupas, com as suas mãos calosas, com o seu magro rosto vermelho de frio, com os seus olhos tristes sulcados pelas lágrimas de uma vida tirana. E via nestas montras a sua fome projetada em cada luzente bolo-rei.

Entretanto, Amélia saíra de casa para fazer umas compras rápidas. Precisava de meia hora de estacionamento para o seu carro. Meia hora! O tempo que demoraria a fazer as compras, tempo que teria de pagar. Fosse esse o mal maior!

Apercebeu-se da velhinha que, vagarosamente, fazia o seu percurso.  Na rua ouvia-se uma suave melodia de Natal. “Noite Feliz! Noite Feliz”. Porém, as moedas não entravam no seu bolso, para que ela tivesse o vislumbre de alguma felicidade. Tinham outro destino. Alimentavam máquinas! 

Amélia sentiu-se mal. Enquanto se dirigia ao parquímetro para lá depositar umas moedas, a velhinha aproximou-se. Uma velhinha que, a essa mesma hora, sozinha, só pensava nos seus, os três netos e a filha. E pedia ajuda para lhes dar de comer.


(Há lares nus, rotos, mais gelados do que a neve!)


Amélia sentiu-se terrivelmente mal! Cada iguaria que iria comprar, teria um sabor amargo. Ela dispunha-se a alimentar a máquina. A velhinha não tinha como alimentar a família. 

Uns metros à frente, um de cada lado da rua, dois homens fardados vigiavam ferozmente os carros estacionados. E multavam todos os que não exibissem o papelucho das malditas maquinetas. Alguns condutores teriam ido, provavelmente, apenas tomar um simples café ou dar um rápido recado. E o dia saiu-lhes caro. E os homens agiram assim, como lobos esfaimados atrás da presa. E era véspera de Natal! Mas, fosse esse o mal maior!

Não houve mais ninguém para perguntar à pobre mulher se estava bem ou mal. Apenas Amélia a olhou e, através de um sorriso, disse-lhe enquanto lhe mostrava uma nota:

- Venha comigo!

Dirigiram-se ambas a um dos homens fardados. Amélia conteve-se para não gritar e conseguiu falar com toda a calma possível. 

- Vê esta nota? Vai direta para o bolso desta senhora que vive o Natal da desolação sem um queixume. A máquina não vai receber um único cêntimo meu. E não se atreva a deixar uma multa no meu carro! Tenha um feliz Natal!

E os sinos continuavam a tocar. É Natal! É Natal! É Natal!...

imagem gerada por IA (Chat GPT)

25 de abril de 2023

25 DE ABRIL, 49 ANOS DEPOIS

Há 49 anos era eu uma miúda ignorante da vida, ignorante do mundo, a quem uma revolução veio abrir os olhos e fazer crescer no conhecimento.

Apesar de, nessa altura, já gostar de escrever, nunca me passaria pela cabeça que, hoje, teria livros publicados e, sobretudo, dois livros que, certamente, seriam proibidos e levariam uma enorme cruz azul, símbolo da censura, se a revolução do 25 de Abril não tivesse acontecido.

O primeiro a ser publicado, Do cinzento ao azul celeste, é um manifesto pela liberdade. Uma estória para os mais novos onde se fala da escola e dos professores, da liberdade e da falta dela, dos poetas, da poesia e de livros, de escritores e de cantores, de bibliotecas cheias de sol de cor e de saber. As belíssimas ilustrações da Helena Veloso levá-la-iam, também, à prisão. Iríamos juntas, numa cumplicidade de palavras e imagens.

O último a ser publicado, A vassoura que desvassourou, é uma brincadeira, mas séria, pois, à moda de Gil Vicente, “ridendo castigat mores”.

Cansada de tanto varrer, a vassoura decide fazer greve. Solidários, e também eles fartos de trabalhar, esfregões, panos, tachos, panelas, frigideira e, ainda, o galo, que prevê o seu fim num enorme tacho, juntam-se à vassoura numa manifestação tão ruidosa que deixam a velha (a dona dos objetos que explora) enloucada.

Felizmente, os Capitães de Abril tiveram a audácia, a coragem e o discernimento necessários para, hoje, podermos ler o que nos apetecer, mesmo, e sobretudo, os livros que nos abrem os olhos. Os meus começaram a ser abertos com o livro Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, um livro proibido pela censura que, imediatamente ao 25 de Abril de 1974, passou a ser lido nas escolas.

Abençoado dia!


21 de março de 2022

"A VASSOURA QUE DESVASSOUROU" ANIMA AS CRIANÇAS

 A vassoura que desvassourou anda a fazer as delícias das crianças de S. João da Madeira. As personagens saem do livro para suas as mãos e é animação garantida.










26 de fevereiro de 2022

LEITURA EM VOZ ALTA - ESTÓRIA DE AMOR




No mês dos afetos, a Rita levou para a escola o meu livro Em poucas palavras para partilhar com os amigos e a diretora de turma (a quem muito agradeço o envio do vídeo) uma estória de amor em 77 palavras. Sim, porque o amor não precisa de palavras, precisa de gestos. Partilhar uma leitura é um gesto de amor.

31 de dezembro de 2021

ADEUS, 2021!

 Estúpido 2021! Com que então não quiseste ficar atrás do teu antecessor e vieste de má cara, continuaste de má cara e terminas ainda com cara pior. Parece que te zangaste comigo por não te ter recebido condignamente, por ter optado por vestir o pijama e dormir cedo em vez de ir para a ramboia com champagne e gente aos montes, bem sabes que não se podia fazer isso, o idiota do bicho não deixava, e ainda não deixa, mas houve quem o tenha feito, dizes tu e eu bem sei, mas sabes que eu sempre gostei de cumprir as regras, acho que tenho de deixar de o fazer, ando sempre lixada com tanto cumprimento que até ando zonza da cabeça que é para não dizer um palavrão, que por dentro tenho dito muitos, mas enfim, vamos ao que interessa e o que interessa é que podes continuar zangado pois se não fiz festa para te receber, também não faço festa para te mandar para os quintos dos infernos, nem para receber o teu sucessor. Ainda pensei comprar um pijama de lantejoulas, sempre dava um bocado de glamour à noite, mas não encontrei nenhum e, para o efeito ia dar no mesmo, quem sabe as lantejoulas não me deixariam dormir descansada e dormir é o que eu mais quero, enquanto durmo, não vejo, não ouço, não discuto, não penso. Por isso, avisa o teu sucessor que tire o cavalinho da chuva pois festa para o receber também não vai haver e diz-lhe para deixar de lado a estupidez e que se livre de querer imitar-te. Ah! Há outra coisa que eu mais quero que é apagar palavras do dicionário, pois os entendidos em feng shui, seja lá o que isso for, dizem que esta noite é de lua minguante por isso em vez de pedirmos coisas boas devemos pedir que as coisas más diminuam e é por isso que quero eliminar muitas palavras, vai-se a ver começam todas com a mesma letra, deve ser o karma que tem muita força e tu trouxeste alguns desaires à minha família durante este teu ano estúpido e se não acreditas faço-te uma lista, desastre e destruição do automóvel, despesas, doenças, discórdias, discussões, descrédito, desilusão, desânimo, distância, desamigamentos… e nem vou continuar!

Põe-te fino e passa a palavra a 2022 para que se ponha fino, também, e que deixe as idiotices de uma vez por todas que já estamos todos fartos.


23 de outubro de 2021

LANÇAMENTO DO LIVRO "A VASSOURA QUE DESVASSOUROU"

Muita emoção nesta noite do lançamento do meu novo livro com fantásticas ilustrações da Cátia Vide e editado por João Manuel Ribeiro (Editora Trinta Por uma Linha). A apresentação esteve a cargo da Dr.ª Cristina Marques e a Autarquia fez-se representar pela vereadora Dr.ª Paula Gaio.

Sinopse: A vassoura está gasta, já quase sem pelos. Cansada de tanto varrer, decide fazer greve. Solidários, e também eles fartos de trabalhar, esfregões, panos, tachos, panelas, frigideira e, ainda, o galo, que prevê o seu fim num enorme tacho, juntam-se à vassoura numa manifestação tão ruidosa que deixam a velha enloucada.







6 de agosto de 2020

HÁ DIAS COM SABOR A VERÃO

Em março, foi apresentado ao público o meu último livro intitulado Os dias são assim. Cinco meses depois, os dias continuam assim, uns mais apetecíveis, outros menos.

Hoje, foi um dia assim. 

Um dia de abrir as portadas e dar os bons dias ao sol. De encher as tostas com compota e saborear o leite frio. De trincar a fruta preferida. De aterrar num cantinho do paraíso. De encher os pulmões com o ar do mar. De mergulhar entre algas, peixes, caranguejos e mexilhões partilhando o seu reino. De observar as idas e vindas das marés que, nas suas viagens, transfiguram a praia. De apreciar o voo louco das gaivotas. De respirar à sombra de uma árvore. De sentir a brisa a soprar. De cheirar a infância nos odores da mata. De passear um livro. De beber poesia na esplanada de um café. De lamber o gelado a derreter. De ver as horas a passar lentamente. De deixar o dia andar devagar. De saber esperar. De absorver a paz da noite que, entretanto, trouxe o silêncio.

Hoje, foi dia de ficar quieta a ser feliz.

Há dias assim, com sabor a verão.




22 de maio de 2020

DIA DO AUTOR PORTUGUÊS

Hoje, é o Dia do Autor Português. Foi com o propósito de o homenagear e de destacar a sua importância no desenvolvimento da cultura e do bem-estar da comunidade que se criou esta data em 1982. 
Este dia assinala igualmente o aniversário da Sociedade Portuguesa de Autores.
Na qualidade de autora de alguns livros publicados, aqui fica a gravação da leitura de um dos meus (muitos) microcontos em 77 palavras, do livro Em poucas palavras.


19 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XXXVIII

Hoje é domingo e está sol. Já perdi a conta aos domingos em casa. Nada a que não esteja habituada, normalmente passo os domingos em casa. Mas parece que, quando não se pode ou não se deve sair, é quando mais apetece. É aquela coisa do fruto proibido.
Hoje saí apenas para dar uma caminhada à volta do quarteirão. Nada que seja proibido ou que seja uma forma de me pôr em perigo ou de pôr alguém em perigo. Mas lá vêm os remorsos. A sensação boa de ter o sol a inundar o rosto, parece um crime! Ainda por cima, passa um carro com um altifalante a vociferar "FIQUE EM CASA"! Pronto! A caminhada só durou 10 minutos.
Então, porque é domingo e mais um dia de recolhimento, vou ser egoísta e esquecer, por umas horas, que o mundo está em guerra contra um ser tão microscópico, mas tão poderoso que os poderosos não o conseguem matar. Nem sabem nada sobre o ele!
Insisto, hoje vou ser egoísta e pensar em mim. E ficar orgulhosa porque os meus textos começam a chegar um bocadinho mais longe.
Desta vez, chegaram à Rádio Tropelias & Companhia, ao programa "Leituras Miúdas", da responsabilidade do escritor João Manuel Ribeiro que, gentilmente, me convidou para o programa de hoje que pode ser ouvido AQUI.



21 de março de 2018

17 de dezembro de 2017

MARCAS

Era um provador, numa loja de roupa, como qualquer outro provador. Um cubículo pequeno com um espelho para refletir as vaidades. 
Por momentos, tudo mudou. Não era vaidade que estava ali, era o tempo a fazer das suas. O tempo, esse inimigo da juventude. O tempo, esse implacável vilão que não perdoa e deixa marcas dolorosas. 
Ela só queria experimentar as calças. 
Eu só queria dar uma opinião e ter a prenda de Natal resolvida. Um problema a menos, se as calças servissem.
(...)
Continua, in Os dias são assim

29 de março de 2017

LEVOU-ME UM LIVRO...

...a um mundo a transbordar de amigos!


Branca de Neve. Cinderela. Aurora. As primeiras amigas. Com elas percorri salões de palácios magníficos, frequentei animados bailes cheios de luz e de cor e até dancei com príncipes! Foram dias magníficos de fantasia e diversão.
Os três porquinhos. O gato das botas. O gato Pompom. Crina Branca. Os amigos de quatro patas que não tinha em casa estavam nos livros. Com eles e com elas, preenchia os meus dias de uma infância feliz, quase sem televisão nem parafernália de jogos computorizados.
Cresci. Estes meus amigos e amigas não quiseram crescer comigo. Foram fazer outros amigos, mas deles ficaram guardadas as lembranças doces, bem fundo.
Outros amigos surgiram, ainda mais aventureiros!
Quanta adrenalina com os cinco amigos Júlio, Ana, David, Zé, e o seu cão! Quanto divertimento com as gémeas no colégio das Quatro Torres e no colégio de Santa Clara! Quantas aventuras vividas em cheio com os Sete!
Veio a adolescência. Romance. Amores. Sofrimento. Finais felizes.
Brigitte, Isabel, miss Grey, Margarida, Diana, Catarina, a Menina Aguaceiro, as mulherzinhas Zé, Gui, Melita e Bel eram agora as minhas melhores amigas e povoavam os meus sonhos e ilusões. Preenchiam por completo a minha vida. A mãe podia chamar, as irmãs gritar e o mundo desabar. Nada. Só a elas ouvia, só com elas convivia, sofria ou ria.
O tempo foi passando inexoravelmente e a lista de amigos crescia, aumentava, engrossava...
Foi então que surgiu na minha vida o surrealista e inconformista João Sem Medo. Veio também o escravo Pai Tomás mostrar-me a violência da História.
E os anos passavam...
Como sofri com Maria quando o Romeiro apareceu!
Como chorei, solidária, com Teresa e Simão Botelho!
Que famílias injustas as de Romeu e Julieta!
Que crueldade, a partida que a vida pregou a Carlos da Maia e Eduarda!
E aprendi mais. Aprendi que há sofrimentos maiores do que o do amor!
Prisão. Tortura. Pobreza. Miséria...
Como gostaria de tirar da miséria o Gineto e seus amigos de rua e poder salvar os meninos desprovidos de tudo apenas donos da areia da praia.
Como gostaria de dar a liberdade aos amigos que a perderam apenas por lutarem, justamente, contra as injustiças, por quererem aquilo a que tinham direito. Jofre, Carlos, João, Mariana e outros tantos resistentes apenas queriam um mundo melhor, livre.
Por essa mesma liberdade lutou o filho de Pelageya. Como sofreu esta mãe e me fez sofrer!
Como doeu a falta de liberdade de Anne Frank! Uma adolescência privada de tudo o que a adolescência tem de bom. Uma vida perdida vítima de tiranos assassinos.
Pobre Jean Valjean, sempre fugido!
Encontrei, também, outro tipo de falta de liberdade. Esta, voluntária, sem razão de ser, sem pretexto nem desculpas. Christiane F. é toxicodependente. Filhos da droga, muitos, levaram-me a ver esse mundo de decadência e degradação física do qual não há retorno. Morte, apenas! Vi. Aprendi.
Vi também outra dependência: a do jogo. Casino, roletas, dinheiro perdido, infelicidade. Alucinação! Foi Alexis Ivanovitch que me apresentou este mundo completamente desconhecido e impensado, até então.
Os livros permitiram sempre a viagem a mais um mundo: o do crime calculado, frio, insensível. Mas eram convidados os meus amigos Poirot, Miss Marple e Sherlock Holmes para os deslindarem. E faziam crescer, de forma bem inteligente, a expectativa até à última página.
Depois de tanta emoção, os amigos divertidos e brigões apareciam para descontrair e fazer rir. Sempre prontos para mais uma sessão de pancadaria nos romanos, lá estavam Astérix e o gordo Obélix. Gordo? Perdão, gordo não, cheio de peito. E lá estavam, também, a contestatária Mafalda. A irreverente Guidinha. O traquina Nicolau.
Hoje sou adulta. A lista de amigos não pára de crescer. Cada vez mais sofisticados, mais complexos.
A papisa Joana tão corajosa e lutadora. Guilherme de Baskerville tão inteligente e perspicaz. Como se tivesse entrado numa máquina do tempo, eles levaram-me à Idade Média.
Vianne Rocher, Júbilo e Lucha, Tita e Pedro levaram-me ao império dos sentidos...
E o desfile continua. Blimunda e Baltasar. Montag, o incendiário de livros. O fiel Florentino Ariza. A fria e traidora Teresa Raquin. O desesperado e infeliz Raskolnikov. A selvagem Eva Luna. O espantoso e fascinante Petter, a Aranha, vendedor de histórias. O severo professor Crastaing. O hediondo Jean Baptiste Grenouille.
Mais recentemente, e a idade isso permite, outros seres vieram engrossar a lista: Simon Axler e senhor Ulme , apresentam a realidade nua e crua do envelhecer. Carlos Brauer faz-nos percorrer a literatura universal. Eszter faz-nos ver a manipulação existente no mundo que nos rodeia. 
E tantos outros. Sem fronteiras, vencendo a geografia sem mapas nem GPS, fui criando laços. Estes meus amigos nunca me abandonaram. Estão sempre lá. Na saúde ou na doença, nas férias ou no trabalho, na solidão ou no meio do barulho, são a melhor companhia, um refúgio, uma animação. Ou, simplesmente, evasão. E todos eles, que me mostraram tantos mundos, fizeram-me criar o meu próprio mundo, fizeram-me criar as minhas estórias, que, agora, levo aos outros partilhando o que tenho dentro de mim. 
Levou-me um livro? 
Não! Levaram-me muitos.

30 de outubro de 2015

TERCEIRO ANIVERSÁRIO DO CLUBE DE LEITURA

Frio lá fora. Chove
Mas não neste clube 
Os livros aquecem.

A sessão de outubro do Clube de Leitura, na BM de S. João da Madeira, foi muito animada, apesar do tema morte, tema do livro do mês, As intermitências da morte, de José Saramago. Sendo a data de comemoração do terceiro aniversário do Clube, o grupo fez um "piquenique de burguesas", à boa moda de Cesário Verde. E, sim, "Houve uma coisa simplesmente bela,/E que, sem ter história nem grandezas,/Em todo o caso dava uma aguarela."



Como desafio, as leitoras foram convidadas a apresentar um texto que incluísse todos, ou grande parte, dos títulos lidos e os que já estão selecionados para futuras leituras. Deu nisto: 

 Carta de amor a um livro sem ninguém
 Se numa noite de inverno, debaixo de algum céu, um viajante me pedisse para escrever uma carta de amor, seria a ti. Dir-te-ia:
Livro, és o meu amor de perdição, sem fim à vista, mesmo que sejas um livro sem ninguém dentro. És a metade maior deste meu admirável mundo novo.
Contigo nas mãos, nenhuma humilhação me afeta e a desumanização do mundo esvai-se. Deixo de ser o homem duplicado, aquele que tem a vida que deseja ter e a vida que os outros acham que eu deva ter. Contigo, não preciso de fingir e, juntos, tornamo-nos transparentes.
Apenas contigo consigo criar fortes laços de família. Tu és a minha única família e, para não ter de te partilhar, escondo-te na casa dos budas ditosos, o meu refúgio, onde rapidamente passo do cinzento ao azul celeste das emoções. 
Que importa a fúria do mar se te tenho à mão para me acalmares?
Que importa viver constantemente no fio da navalha se te tenho ao lado para me salvares?
Tu és o meu livro do ano, todos os anos! Por favor, nunca me deixes!
Sempre teu,
Leitor anónimo

Nota: autores dos livros lidos e/ou a ler, por ordem de entrada no texto:
  1. Pedro Guilherme-Moreira
  2. Italo Calvino
  3. Nuno Camarneiro
  4. José Luís Peixoto
  5. Camilo Castelo Branco
  6. Raquel Ochoa
  7. Julieta Monginho
  8. Aldous Huxley
  9. Philip Roth
  10. valter hugo mãe
  11. José Saramago
  12. Ondjaki
  13. Clarice Lispector
  14. J. Ubaldo Ribeiro
  15. Ana Oliveira
  16. Ana Margarida Carvalho
  17. Somerset Maugham
  18. Afonso Cruz
  19. Kazuo Ishiguro

23 de setembro de 2015

FIM! (primeira versão)

Tanto que pode dizer uma imagem!!! Fotografia de Pedro Teixeira Neves.

Para mim deixou de haver amanhã. Contas feitas, sobrou nada. Desde o dia em que os móveis foram doados e apenas a poltrona, de tão velha e sem serventia, fora atirada para o jardim, tão mal cuidado como ela, como eu. E tanto que temos para contar. 
Já não sei quantos anos tenho. Setenta? Oitenta? Só sei que nada poderia acabar assim. 
 Destroços. Solidão. Abandono. É o que existe agora, é o que eu sinto, eu que conheci tanta vida! Mas os velhos ficaram mais velhos e a partida para o lar tornou-se inevitável. Como a poltrona ficou, também, velha e gasta, sem serventia, vai para a lixeira. Eu fui vendida, vou ser restaurada. Os novos donos não querem nada velho. Não seria melhor demolirem-me? 
(...)
Continua, in Os dias são assim

7 de setembro de 2015

VIDAS

O homem estendido na areia despertava a curiosidade de todos os banhistas que iam chegando. 
Uma toalha de praia como lençol amparava-lhe o sono. Cabeça enconchada numa grande mochila, pele tisnada, sapatilhas e chinelos simetricamente alinhados com a toalha, o homem tinha ali passado a noite, pela certa. Ou o que restara da noite! E, pelo jeito, iria ali passar o dia, a dormir. Volta e meia, levantava as pálpebras, a querer dar os bons dias ao sol, mas este não estava para aturar madraços. Logo nesse dia em que tinha decidido ficar mais esperto e queimar tudo onde pousava. Por isso, espetava-lhe os raios e cegava-o e o homem voltava a fechar os olhos e a dormir.
(...)
Continua, in Os dias são assim

19 de agosto de 2015

VARREDURA

Alberta não aguentou mais tanto sentimento acumulado e saiu de casa com a alma pesada, manhã cedo, ainda o sol não despertara. Montou a bicicleta e voou estrada fora, perseguida por mil borboletas escapadas dos seus sonhos, há tanto aprisionados. Chegara a hora de batalhar, de obliterar o casamento, qual bilhete caducado, de se libertar de tanta tralha amontoada no coração e na cabeça. Foram sonhos adiados, decisões tomadas e não concretizadas, receios de enfrentar o vazio, falta de espaço. 
Foram dias, foram meses, foram anos. Sempre a mesma rotina. Sempre as mesmas palavras, sempre os mesmos gestos. Sem lugar para a novidade. Sentia-se à deriva dentro de si própria mas não procurava o caminho para se reencontrar e não sabia (ou não queria saber) como interpretar os diálogos travados com a sua consciência. 
A última arrumação das gavetas foi a bússola, o farol, o GPS, algo que lhe apontou a saída. Aquela varredura anual dos armários… uma metáfora? 
(prolongamento do microconto "Como bilhete caducado")
(...)
Continua, in Os dias são assim