Entrevista que me foi feita por 3 alunas, parar participação no concurso "Jornalistas em Rede", promovido pelo jornal Público e RBE.
Professora de Português, professora bibliotecária e escritora
Ana Paula Oliveira, uma mulher multifacetada
Ana Paula Oliveira é a nossa professora de Português e começou a carreira em 1982. Dedica-se às bibliotecas escolares, desde 1997, exercendo, até à data, o cargo de professora bibliotecária. O contacto permanente com os livros e com a leitura junto de crianças e jovens levou-a a escrever e a publicar livros infantojuvenis tendo publicado o seu primeiro livro, Do cinzento ao azul celeste, em 2007. Nesta entrevista, queremos conhecer melhor todas as suas valências.
Começamos por questioná-la como professora. Estando à beira da aposentação, que conselhos daria a futuros professores e a atuais alunos?
Futuros professores, aconselho-vos a virem preparados para conseguirem enfrentar as novas gerações que não são fáceis!
Agora, fora de brincadeiras, as novas gerações têm características diferentes das anteriores e aprendem de forma muito diferente. A tradicional exposição da matéria não funciona. Por isso, além de empático e apaixonado pela profissão, o professor atual tem de ser criativo e tem de encontrar estratégias “fora da caixa” que cativem os alunos e os façam gostar de aprender e de estar na sala de aula.
Aos alunos, aconselho que se tornem pessoas com elevado espírito crítico, cada vez mais necessário, e que sejam ávidos de conhecimento para poderem enfrentar os desafios que têm pela frente. A liberdade e a democracia correm sérios riscos e só com conhecimentos sólidos é possível defendê-las. Como sempre digo, “Saber é poder!”.
O que pensa sobre a atual falta de professores?
É uma situação catastrófica. Uma escola só é escola com alunos e professores. Faltando um destes agentes, não podemos falar em ensino-aprendizagem. E eu não gostaria nada de ver os professores substituídos por tutores criados pela Inteligência Artificial. Na educação tem de haver emoção.
Qual é a sua opinião sobre a utilização da IA (Inteligência Artificial) nas aulas?
Uso a IA e provoco os alunos a usá-la, de vez em quando, nas aulas, precisamente para que se apercebam que a IA não nos pode substituir, mas, sim, ajudar-nos e poupar-nos tempo. Deixar que a IA faça tudo por nós, nos tire a criatividade e a capacidade de imaginar, nunca. Por esta razão, esse tem sido o meu papel, também como professora bibliotecária: discutir o assunto com os alunos, em sessões que tenho dinamizado, e fazê-los ver que não devem depender da máquina nem usá-la indiscriminadamente.
Como professora bibliotecária, o que faz para motivar os alunos a frequentarem a biblioteca?
Desenvolvo atividades dinâmicas que os alunos consideram atraentes. O fundo documental das bibliotecas é atualizado regularmente com livros do agrado dos alunos. Dinamizo projetos de leitura e escrita, alguns já financiados pela Rede de Bibliotecas Escolares e pelo Plano Nacional de Leitura. Lanço vários desafios, uns imaginados por mim outros lançados a nível nacional, que têm dado prémios aos alunos e às bibliotecas. Faço montras temáticas mensais para que os livros saiam das estantes e fiquem ao alcance dos olhos dos leitores. Mantenho o espaço agradável, convidativo, equipado com computadores e jogos de tabuleiro para que os alunos lá fiquem a estudar, depois das aulas, e ocupem tempos livres. O maior segredo: a simpatia e abertura ao diálogo com todos que lá entram.
Tem alguma formação especial para desempenhar o cargo?
Comecei com um curso de 200 horas, na Faculdade de Psicologia, no Porto, e apesar de não ter formação académica, mestrado ou pós-graduação, tenho imensas horas de formação contínua.
Como professora bibliotecária gosta da expressão idiomática “Ratinhos de biblioteca”?
Adoro! Além de haver muitas histórias em que os ratinhos são personagens muito queridas, a expressão é carinhosa e remete para alguém que passa muito tempo a ler, na biblioteca, como se fosse a sua casa. Tal como o ratinho, o ratinho de biblioteca, no sentido metafórico, também é um roedor que se alimenta de conhecimento.
Finalmente, estamos muito curiosas com a sua atividade como escritora. Qual foi o livro que lhe deu mais prazer escrever?
Todos, pois, para mim, é um prazer escrever. Mas, o mais divertido é A vassoura que desvassourou, apesar de ter um assunto sério, o direito à greve.
Qual foi o livro que lhe custou mais escrever?
O conto “Nyambura”, publicado no livro 39 poemas e contos contra o racismo, que ganhou o primeiro lugar, escalão adultos, num concurso promovido pelo Alto Comissariado para as Migrações. Custou-me muito escrevê-lo, fez-me sofrer, devido ao tema, o racismo. Foi muito duro ter escolhido como personagens uma criança negra e uma professora racista. Fiz pesquisa. Isto acontece e não deveria!
Por que razão começou a escrever?
Comecei a escrever muito nova, mas, mais regularmente, depois de ser professora bibliotecária: em primeiro lugar, porque muitas vezes não encontrava o livro adequado para dinamizar as atividades na biblioteca e escrevia as histórias de acordo com o que pretendia; em segundo lugar, para dar exemplo aos alunos: quando lhes pedia para escrever um texto, era eu a primeira a fazê-lo, para provar que não estava a pedir nada impossível.
No entanto, escrever não é sinónimo de publicar. Escrevi muitos contos, mas apenas publiquei oito.
Tenciona publicar mais algum livro?
Sim, tenho um novo conto pronto para ser publicado, mas ainda é segredo!
Gostaríamos que nos recomendasse três livros para jovens.
Recomendar os meus preferidos é impossível, três é muito pouco. Como adoro livros com livros dentro, recomendo estes que têm os livros e as bibliotecas em destaque: Firmin, do americano Sam Savage, A biblioteca mágica, do norueguês Jostein Gaarder, O que procuras está na biblioteca, do japonês Michiko Aoyama.
A sua vida profissional interfere com a sua vida pessoal?
Além da vida profissional, dinamizo, a título pessoal, desde abril de 2025, um Clube de Leitura Juvenil, na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira. E ainda sobra algum tempo para os meus hobbies: pilates, leitura e tricô. Obviamente, tudo isto interfere na minha vida familiar, pois não tenho tempo para me dedicar mais à família. Mas, como são todos muito queridos, dão-me espaço e têm muito orgulho em mim!

