Mostrar mensagens com a etiqueta reflexões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta reflexões. Mostrar todas as mensagens

23 de abril de 2023

DIA MUNDIAL DO LIVRO


Sendo, hoje, o Dia Mundial do Livro, gostaria de vos falar de um, para mim muito especial. Como sua autora, desde logo se torna suspeito, mas o livro merece. Ele tem 12 histórias para contar e a sua própria história daria uma 13.ª, a que se segue.
Os dias são assim foi apresentado aos leitores no dia 6 de março de 2020 e confinou logo de seguida. O Mundo acabara de entrar numa pandemia e toda a gente se fechou em casa. E, durante dois anos, os dias foram assim, isolados, fechados, tristes. E foram canceladas todas as apresentações previstas.
Três anos passados, as histórias que ele tem para contar continuam cheias de amores e desamores, de encontros e desencontros, de lutas, fracassos, mas também de conquistas, porque os dias são assim, cheios de vidas. Umas inventadas, outras verdadeiras, outras um misto de realidade com pura ficção. E é o leitor que tentará descobrir onde está a vida real, onde está a ficção.
Boas leituras!


6 de março de 2022

LIVROS QUE ME MARCARAM

A literatura não muda o mundo, mas pode mudar a maneira como as pessoas o veem, logo, pode fazer com que as pessoas o mudem. Mas, para isso, têm de ler os livros que as vão abanar e fazer mudar.

No contexto atual, um contexto de guerra na Europa, não poderia deixar de destacar os autores russos que me marcaram, para mostrar a quem desencadeou a guerra e a apoia que deve ler os seus próprios autores. Para refletir, aprender, respeitar os direitos humanos e, assim, melhorar o mundo em vez de o destruir. 

Fiódor Dostoievski, uma das maiores referências do existencialismo, demonstra quão complexas e contraditórias podem ser as pessoas. Na sua obra faz, com mestria, uma análise social dos comportamentos humanos e de todos os erros que o ser humano pode cometer. Entre outros, aborda temas como o sofrimento e a culpa, a pobreza, a violência, o assassinato, além de analisar transtornos mentais.

Em Crime e Castigo, um livro que me marcou para a vida, o autor expõe os dramas psicológicos sofridos pela personagem principal, Raskolnikov, autor de um homicídio que lhe deixou a consciência a sufocá-lo e o seu íntimo desfeito pela culpa. 

Em O Idiota, o autor expõe a problemática do indivíduo que se considera superior, num mundo obcecado por dinheiro, poder e conquistas. Nesta sociedade corrompida, recheada de pessoas desonestas, corruptas e perversas, alguém dotado de uma grande generosidade e de benevolência é considerado um idiota, um inadaptado.

No seu conto “A árvore de Natal e o casamento” Dostoievski mostra, com ironia, que os interesses económicos estão muito acima dos valores familiares e do respeito pelo outro. 

Outro excelente autor russo, Lev Tolstói escreveu três romances e dezenas de contos e novelas. A Morte de Ivan Iliitch, apresenta-nos as reflexões de um homem em sofrimento que, à beira da morte, questiona as suas decisões e o percurso de vida.

 Maximo Gorki acusado de exercer atividades subversivas foi preso; mais tarde, militou em inúmeros grupos revolucionários o que o levou, novamente, à prisão. Deste autor li, apenas, A mãe, numa altura em que estava, ainda, a descobrir a liberdade e a luta pelos direitos. Este romance mostra a transformação de uma mulher oprimida que passa a ser uma guerreira na luta pelos ideais, contra as injustiças do mundo.

São livros como estes, que deixam a nu os problemas sociais e morais, a ambição e a corrupção desmedidas, que deveriam ser lidos por todos para, assim, todos contribuírem para mudar o mundo, para não se repetirem os erros do passado. 

31 de dezembro de 2021

ADEUS, 2021!

 Estúpido 2021! Com que então não quiseste ficar atrás do teu antecessor e vieste de má cara, continuaste de má cara e terminas ainda com cara pior. Parece que te zangaste comigo por não te ter recebido condignamente, por ter optado por vestir o pijama e dormir cedo em vez de ir para a ramboia com champagne e gente aos montes, bem sabes que não se podia fazer isso, o idiota do bicho não deixava, e ainda não deixa, mas houve quem o tenha feito, dizes tu e eu bem sei, mas sabes que eu sempre gostei de cumprir as regras, acho que tenho de deixar de o fazer, ando sempre lixada com tanto cumprimento que até ando zonza da cabeça que é para não dizer um palavrão, que por dentro tenho dito muitos, mas enfim, vamos ao que interessa e o que interessa é que podes continuar zangado pois se não fiz festa para te receber, também não faço festa para te mandar para os quintos dos infernos, nem para receber o teu sucessor. Ainda pensei comprar um pijama de lantejoulas, sempre dava um bocado de glamour à noite, mas não encontrei nenhum e, para o efeito ia dar no mesmo, quem sabe as lantejoulas não me deixariam dormir descansada e dormir é o que eu mais quero, enquanto durmo, não vejo, não ouço, não discuto, não penso. Por isso, avisa o teu sucessor que tire o cavalinho da chuva pois festa para o receber também não vai haver e diz-lhe para deixar de lado a estupidez e que se livre de querer imitar-te. Ah! Há outra coisa que eu mais quero que é apagar palavras do dicionário, pois os entendidos em feng shui, seja lá o que isso for, dizem que esta noite é de lua minguante por isso em vez de pedirmos coisas boas devemos pedir que as coisas más diminuam e é por isso que quero eliminar muitas palavras, vai-se a ver começam todas com a mesma letra, deve ser o karma que tem muita força e tu trouxeste alguns desaires à minha família durante este teu ano estúpido e se não acreditas faço-te uma lista, desastre e destruição do automóvel, despesas, doenças, discórdias, discussões, descrédito, desilusão, desânimo, distância, desamigamentos… e nem vou continuar!

Põe-te fino e passa a palavra a 2022 para que se ponha fino, também, e que deixe as idiotices de uma vez por todas que já estamos todos fartos.


17 de abril de 2016

SOMOS NADA!!!

Não entendo como alguém se pode retirar da vida! 
Talvez porque sou feliz, disseram-me!
Quem é feliz quer viver, quer prolongar cada instante mesmo que tenha de travar lutas diárias. 
Hoje, do alto do meu quinto andar, depois de ter ouvido um estrondo no exterior, vi uma mulher estendida na linha do comboio.
Acabou de fumar um cigarro, esperou que o comboio se aproximasse e entregou-se-lhe. Literalmente abalroada, ali ficou estendida, horas, sozinha, debaixo de chuva, amortalhada, até que as autoridades se dignassem levá-la para terminar, com alguma dignidade, tão triste episódio. 
Não sei quem é. Não sei o que pensou no momento (se pensou!). Não sei o que a levou a fazer tal ato de desespero frente a testemunhas. Só sei que somos mesmo “bichos da terra tão pequenos”, como o escreveu Luís de Camões. Frágeis. Indefesos. Impotentes. Somos nada.

31 de dezembro de 2015

PAZ-NA-TERRA-AOS-HOMENS-DE-BOA-VONTADE!

Hoje senti-me mal. Terrivelmente mal!
Precisei de meia hora de estacionamento para o meu carro. Meia hora que tive de pagar. Fosse esse o mal maior!
Último dia do ano. Época de balanços. E a balança tombou pesadamente para o lado da miséria.
Enquanto punha umas moedas nos parquímetros, uma velhinha aproximou-se a pedir dinheiro para dar de comer aos três netos e à filha. Eu alimentava a máquina. Ela não tinha com que alimentar a família. Tão velhinha, deveria ter quem se preocupasse com ela, não deveria ser ela a estar preocupada com os seus.
Uns metros à frente, um polícia vigiava ferozmente os carros estacionados. E multava todos os que não exibissem o papelucho das malditas maquinetas. Alguns condutores teriam ido, provavelmente, apenas tomar um simples café ou dar um rápido recado. E o dia saiu-lhes caro. E os polícias agiram assim, na véspera de Natal e hoje, também! Como lobos esfaimados atrás da presa. Mas, fosse esse o mal maior!
A velhinha continuou vagarosamente o seu percurso. Na rua continuava a ouvir-se uma suave melodia de Natal. “Noite Feliz! Noite Feliz”. Porém, as moedas não entravam no seu bolso, para que ela tivesse o vislumbre de alguma felicidade. Tinham outro destino. Para alimentar quem? O que se faz com o dinheiro que as máquinas engolem diariamente? Serve o bem-estar social? Ou alimenta ideias megalómanas?

Porque o espírito natalício ainda paira por aí e hoje é o último dia do ano e todos desejam um feliz-ano-novo a todos, só apetece dizer: Glória-a-Deus-nas-alturas-e-paz-na-terra-aos-homens-de-boa-vontade. 

26 de janeiro de 2014

O MURO

Hoje, sentada frente ao computador, depois de ter encontrado antigos alunos numa rede social, decidi dedicar uns minutos à limpeza da alma... Recordar. Reviver momentos duros mas que me tornaram mais humana, mais sensível e mais tolerante. 
As recordações levaram-me a um tempo, algures entre o espanto e o medo, entre a impotência e a esperança. 
Era a primeira vez que me atribuíam uma turma assim. Eram quinze. Quinze vivências complicadas, quinze problemas. Mas um sobressaía: o problema maior. 
Luís era um rapaz de doze anos mas não era um rapaz como qualquer outro. Doze anos e tanta mágoa acumulada! 
Tinham-lhe amputado a infância! Não aprendeu a brincar, nem a conviver, nem a conversar, nem a ser ouvido. Nunca ouvira a voz carinhosa duma mãe, nunca vira o sorriso de orgulho de um pai, nunca escutara uma história no aconchego dos lençóis. 
(...)
Continua, in Os dias são assim

29 de junho de 2013

QUANDO A INDIGÊNCIA NOS CAI AO LADO

"Faça o que puder, com o que tem, onde estiver." Theodore Roosevelt 

Hoje, provei um Porto de vários sabores. Consumi Porto durante os quatro anos que duraram o curso na Faculdade de Letras. E o Porto ficou ferrado cá dentro. Fundo. 
Muitos anos se passaram desde então. Já não passeava a baixa desta cidade há imenso tempo e, hoje, voltei. A tarde convidava a calcorreá-la e, depois de um inverno rigoroso, foi como se tivesse acordado estremunhada nas suas ruas, ladeadas de esplanadas cheias de gente a abraçar o sol que, desde manhã cedo, desabou sobre a cidade. Em quase todos os cafés, cartazes apregoavam a gulosa francesinha. Descobri que Santa Catarina continua com o seu ar cosmopolita de que me lembrava. E tudo à sua volta se mantinha. As mesmas lojas, as mesmas montras. Os mesmos carris a sulcar as ruas, agora sem elétricos.
E a saudade de tempos tão felizes deu lugar à surpresa. Distraída à procura de vestígios de alguma mudança, caiu-me ao lado a indigência. 
(...)
Continua, in Os dias são assim

14 de julho de 2012

CONVERSAS QUE MAGOAM


Há conversas que magoam. Não porque sejam insultuosas ou rebaixantes. Magoam porque revelam uma realidade tão cruel que até dói. Esta, ouvida, hoje, na caixa de pagamento do hipermercado, não foi propriamente uma conversa. Começou por ser um monólogo que a menina da caixa transformou em diálogo, penso que por obrigação ou mera simpatia, pois era eu que estava a ser atendida. O monólogo começou atrás de mim. Uma senhora de aspeto humilde e envelhecido, (certamente de idade inferior à que aparenta), exclamou:
- As cenouras estão por um preço que não se pode. Subiram para o dobro. Ainda há pouco estavam a 30 ou 35 cêntimos e, agora, estão a 75.
E continuou, sozinha, a desfiar o rosário dos preços altos.
Ao fim de algum tempo, a menina da caixa comentou:
- Já estão a esse preço há uma semana. Não sei se há falta e, por isso, o preço subiu.
A senhora continuou:
- Não se admite! Subiram para o dobro. Nem levo!
Paguei e saí, sem abrir a boca, incomodada e culpada. Eu levava cenouras e não sabia o preço delas.

1 de maio de 2012

MISÉRIA A PASSOS LARGOS


A cidade onde vivo é considerada uma das cidades do país onde há melhor qualidade de vida. Sempre o senti. Vivo aqui há vinte e seis anos e sempre me senti bem. Eu e todos que cá vivem. Tudo é pacífico, o trânsito não provoca engarrafamentos de perder a paciência, não falta nada. Não faltava.
Nunca pensei, até hoje, que iria testemunhar uma situação tão oposta. Mesmo frente ao meu prédio, mesmo no contentor onde despejo diariamente o meu lixo doméstico. Hoje, não me atrevi a deixar ali o saco. Faltou-me a coragem!
Não consegui despejar o meu lixo que um ser humano iria escabulhar para recuperar algo que a minha abundância se atrevera a desperdiçar da mesma forma que já escabulhava os despojos e desperdícios de outros. Operação demorada, a dele!
Isto passou-se hoje, ao início da noite. Num dia em que se festejou (festejou?) o Dia do Trabalhador. Este homem gostaria, provavelmente, de ser um trabalhador e de ter trabalhado neste 1º de maio.
Isto passou-se hoje, no final de um dia em que a população portuguesa se atropelou, se esgadanhou, se digladiou numa cadeia de hipermercados para comprar indiscriminadamente, sem critério ou necessidade, e gastou mais de 100€ para poupar 50%. E gastou tempo e paciência e tolerância e, certamente, comprou produtos que nunca vai gastar. Um dia mais tarde, é quase certo, estes produtos irão parar ao contentor onde este homem irá de novo vasculhar para encontrar algo que encha a sua panela.
Este homem viveu o feriado do trabalhador mas não o festejou.
Este homem não teve 100€ para ir a correr gastá-lo no hipermercado da louca promoção.
Este homem não teve comida no prato.
Este homem festeja a vida com os restos que encontra no contentor do lixo.
Está a ficar assim a cidade onde vivo? Se é uma das cidades com melhor qualidade de vida do país, como anda o país?
Tenho vergonha! Se os olhos não veem, o coração não sente. Os meus olhos viram. Doeu. Dói.