Mostrar mensagens com a etiqueta estórias de vida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta estórias de vida. Mostrar todas as mensagens

26 de janeiro de 2014

O MURO

Hoje, sentada frente ao computador, depois de ter encontrado antigos alunos numa rede social, decidi dedicar uns minutos à limpeza da alma... Recordar. Reviver momentos duros mas que me tornaram mais humana, mais sensível e mais tolerante. 
As recordações levaram-me a um tempo, algures entre o espanto e o medo, entre a impotência e a esperança. 
Era a primeira vez que me atribuíam uma turma assim. Eram quinze. Quinze vivências complicadas, quinze problemas. Mas um sobressaía: o problema maior. 
Luís era um rapaz de doze anos mas não era um rapaz como qualquer outro. Doze anos e tanta mágoa acumulada! 
Tinham-lhe amputado a infância! Não aprendeu a brincar, nem a conviver, nem a conversar, nem a ser ouvido. Nunca ouvira a voz carinhosa duma mãe, nunca vira o sorriso de orgulho de um pai, nunca escutara uma história no aconchego dos lençóis. 
(...)
Continua, in Os dias são assim

29 de junho de 2013

QUANDO A INDIGÊNCIA NOS CAI AO LADO

"Faça o que puder, com o que tem, onde estiver." Theodore Roosevelt 

Hoje, provei um Porto de vários sabores. Consumi Porto durante os quatro anos que duraram o curso na Faculdade de Letras. E o Porto ficou ferrado cá dentro. Fundo. 
Muitos anos se passaram desde então. Já não passeava a baixa desta cidade há imenso tempo e, hoje, voltei. A tarde convidava a calcorreá-la e, depois de um inverno rigoroso, foi como se tivesse acordado estremunhada nas suas ruas, ladeadas de esplanadas cheias de gente a abraçar o sol que, desde manhã cedo, desabou sobre a cidade. Em quase todos os cafés, cartazes apregoavam a gulosa francesinha. Descobri que Santa Catarina continua com o seu ar cosmopolita de que me lembrava. E tudo à sua volta se mantinha. As mesmas lojas, as mesmas montras. Os mesmos carris a sulcar as ruas, agora sem elétricos.
E a saudade de tempos tão felizes deu lugar à surpresa. Distraída à procura de vestígios de alguma mudança, caiu-me ao lado a indigência. 
(...)
Continua, in Os dias são assim

14 de julho de 2012

CONVERSAS QUE MAGOAM


Há conversas que magoam. Não porque sejam insultuosas ou rebaixantes. Magoam porque revelam uma realidade tão cruel que até dói. Esta, ouvida, hoje, na caixa de pagamento do hipermercado, não foi propriamente uma conversa. Começou por ser um monólogo que a menina da caixa transformou em diálogo, penso que por obrigação ou mera simpatia, pois era eu que estava a ser atendida. O monólogo começou atrás de mim. Uma senhora de aspeto humilde e envelhecido, (certamente de idade inferior à que aparenta), exclamou:
- As cenouras estão por um preço que não se pode. Subiram para o dobro. Ainda há pouco estavam a 30 ou 35 cêntimos e, agora, estão a 75.
E continuou, sozinha, a desfiar o rosário dos preços altos.
Ao fim de algum tempo, a menina da caixa comentou:
- Já estão a esse preço há uma semana. Não sei se há falta e, por isso, o preço subiu.
A senhora continuou:
- Não se admite! Subiram para o dobro. Nem levo!
Paguei e saí, sem abrir a boca, incomodada e culpada. Eu levava cenouras e não sabia o preço delas.

1 de maio de 2012

MISÉRIA A PASSOS LARGOS


A cidade onde vivo é considerada uma das cidades do país onde há melhor qualidade de vida. Sempre o senti. Vivo aqui há vinte e seis anos e sempre me senti bem. Eu e todos que cá vivem. Tudo é pacífico, o trânsito não provoca engarrafamentos de perder a paciência, não falta nada. Não faltava.
Nunca pensei, até hoje, que iria testemunhar uma situação tão oposta. Mesmo frente ao meu prédio, mesmo no contentor onde despejo diariamente o meu lixo doméstico. Hoje, não me atrevi a deixar ali o saco. Faltou-me a coragem!
Não consegui despejar o meu lixo que um ser humano iria escabulhar para recuperar algo que a minha abundância se atrevera a desperdiçar da mesma forma que já escabulhava os despojos e desperdícios de outros. Operação demorada, a dele!
Isto passou-se hoje, ao início da noite. Num dia em que se festejou (festejou?) o Dia do Trabalhador. Este homem gostaria, provavelmente, de ser um trabalhador e de ter trabalhado neste 1º de maio.
Isto passou-se hoje, no final de um dia em que a população portuguesa se atropelou, se esgadanhou, se digladiou numa cadeia de hipermercados para comprar indiscriminadamente, sem critério ou necessidade, e gastou mais de 100€ para poupar 50%. E gastou tempo e paciência e tolerância e, certamente, comprou produtos que nunca vai gastar. Um dia mais tarde, é quase certo, estes produtos irão parar ao contentor onde este homem irá de novo vasculhar para encontrar algo que encha a sua panela.
Este homem viveu o feriado do trabalhador mas não o festejou.
Este homem não teve 100€ para ir a correr gastá-lo no hipermercado da louca promoção.
Este homem não teve comida no prato.
Este homem festeja a vida com os restos que encontra no contentor do lixo.
Está a ficar assim a cidade onde vivo? Se é uma das cidades com melhor qualidade de vida do país, como anda o país?
Tenho vergonha! Se os olhos não veem, o coração não sente. Os meus olhos viram. Doeu. Dói.