23 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XLI

Com o passar dos dias, e tantos já passaram desde que foi declarado o estado de emergência em Portugal, é normal sentir um cansaço, até dos próprios pensamentos e, sobretudo, dos medos e das incertezas. 
O mundo está menos físico e mais virtual. E mais incerto. E mais precário. E não está mais meigo. Parece que as pessoas estão a perder o hábito dos afetos e que o ditado "longe da vista, longe do coração" começa a fazer sentido.  O longe começa a arrefecer as relações. Parece.
Felizmente, há algo dentro de nós que nos chama e nos faz ver uma outra luz, nos dá um alento, uma força que faz empurrar qualquer ideia mais negativa que tanto cansaço traz.

21 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XL

Em época de reclusão vale tudo! Até transformar um quarto em ginásio.


Valha-nos a tecnologia (mais uma vez o digo!) que nos permite dar aulas aos alunos, receber aulas dos instrutores do ginásio, fazer compras, descobrir novas plataformas e aplicações, encontrar novas receitas culinárias.

Deste jeito, nem tenho sentido o tempo a passar e, quando me apercebo que as semanas estão a correr a uma velocidade desmesurada e que não consigo fazer tudo o que quero, porque o tempo não chega, assusto-me. O que vale, para acalmar, são as aulas de pilates e de yoga. Abençoado quem as inventou!


20 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XXXIX

O 25 de abril aproxima-se e já dividiu o país. Um evento que deveria ser para unir, jamais separar.
Há quem defenda que o mundo, depois desta pandemia, vai mudar e ficar melhor. E que tudo vai ficar bem. Nunca tive essa esperança.
Num momento em que estamos confinados e de liberdade perdida, não é tempo para guerrinhas nem melindres.
Comemorar o evento na Assembleia da República, no meu ponto de vista, não é violar as regras. É uma adaptação, da mesma forma que outros locais de trabalho foram adaptados para cada um exercer a sua profissão. Da mesma forma que as empresas de adaptaram, as escolas se adaptaram, os transportes de adaptaram, os supermercados se adaptaram. A AR também se adaptou para não deixar passar em claro um dia tão importante na História de Portugal. 
E ninguém me venha dizer que proibir os festejos da Páscoa e/ou as romarias aos cemitérios  e permitir fazer uma atividae na AR, com todas as regras de segurança, é uma atitude contraditória e incoerente. Nem sequer é comparável! 
Mas isto é, apenas, uma mera opinião!

19 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XXXVIII

Hoje é domingo e está sol. Já perdi a conta aos domingos em casa. Nada a que não esteja habituada, normalmente passo os domingos em casa. Mas parece que, quando não se pode ou não se deve sair, é quando mais apetece. É aquela coisa do fruto proibido.
Hoje saí apenas para dar uma caminhada à volta do quarteirão. Nada que seja proibido ou que seja uma forma de me pôr em perigo ou de pôr alguém em perigo. Mas lá vêm os remorsos. A sensação boa de ter o sol a inundar o rosto, parece um crime! Ainda por cima, passa um carro com um altifalante a vociferar "FIQUE EM CASA"! Pronto! A caminhada só durou 10 minutos.
Então, porque é domingo e mais um dia de recolhimento, vou ser egoísta e esquecer, por umas horas, que o mundo está em guerra contra um ser tão microscópico, mas tão poderoso que os poderosos não o conseguem matar. Nem sabem nada sobre o ele!
Insisto, hoje vou ser egoísta e pensar em mim. E ficar orgulhosa porque os meus textos começam a chegar um bocadinho mais longe.
Desta vez, chegaram à Rádio Tropelias & Companhia, ao programa "Leituras Miúdas", da responsabilidade do escritor João Manuel Ribeiro que, gentilmente, me convidou para o programa de hoje que pode ser ouvido AQUI.



18 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XXXVII


Pela manhã, bem cedo, gosto
Do som das pombas que atropelam o telhado
Do som do elevador que anuncia vida
Do sol que desperta e espreita na janela ainda fechada
Da chuva que bate na vidraça
Do despertador que eu desperto
Do cheiro das torradas
Do sabor amargo do café

Pela manhã, que já vai longa, gosto
Da mulher que, à janela, sacode o pó
Do pai que, na varanda, embala o filho
Da criança que, no baloiço, voa para o futuro
Das aves que riscam o espaço e me espreitam
E eu espreito-as e invejo-as.

Como as aves, quero voar
Mas, talvez seja melhor adiar!...

17 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XXXVI

As notícias são animadoras. A percentagem de novos casos Covid-19, hoje, não chega a 1% e a diretora da DGS diz que "vem aí a normalidade possível". A cerca sanitária de Ovar vai ser retirada amanhã. O comércio vai abrir gradualmente. Há empresas a retomar a atividade laboral. Talvez as creches venham a abrir.
No entanto, não convém esquecer que a "normalidade possível" não é toda a gente a correr para a praia pois o mar está a fazer muita falta. A "normalidade possível" não é começarmos todos a sair de casa como se o vírus estivesse morto e enterrado. O isolamento social terá de se manter, isso é "a "normalidade possível".
O que vale é que a chuva veio para ficar e para travar ânsias.

16 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XXXV

Troveja. Parece que o ar cinzento e pesado ralha com o maldito vírus que continua a matar. Hoje, levou o escritor chileno Luís Sepúlveda e a literatura sofreu uma pancada.
Chove. E esta chuva pesada não alivia a sensação de frustração pelos tempos que vivemos e para os quais não estamos preparados. Nem estaremos nunca. E as gotas da chuva que escorrem, metáfora das lágrimas que gostaria que escorressem cara abaixo e não consigo que escorram, não aliviam nem lavam a alma.
Aparentemente há paz lá fora, na paisagem vista da minha janela. Mas, será apenas a paz que há de ser. Não existe paz nos corações que saltam de medo na iminência do risco.
Luís Sepúlveda partiu. A sua obra fica. Uma obra onde o autor nos leva a passear pela Patagónia, pelo Chile Austral, em defesa das baleias, pelo cais de Hamburgo (onde amamos gatos que amam gaivotas) e por Munique (onde amamos gatos que fazem amizade com ratos), nos ensina a ler romances de amor e a importância da lentidão.
E, como escreveu Fernando Pessoa, se "A morte é a curva da estrada/morrer é só não ser visto", acredito que este grande escritor e, segundo dizem todos os que o conheceram pessoalmente, um grande ser humano, será encontrado na curva de qualquer estrada, que é como quem diz, de qualquer biblioteca, de qualquer livraria.



15 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XXXIV

Agora que o terceiro período começou e, com ele, as aulas, deveria ter recomeçado a rotina, mas não.
Se há coisa que não existe nestes tempos de pandemia e de pandemónio, é rotina.
Aulas por videocoferência, aprendizagem para lidar com a nova plataforma. 
Criação de conteúdos para os alunos trabalharem online, através do Quizizz, formulários Teams, escola virtual, aula digital...
Receção de trabalhos de alunos, pelo Teams, por email, pelo messenger.
Dúvidas a tirar aos alunos pelo Teams, por email, pelo messenger, pelo telemóvel.
Novos recursos didáticos: aprendizagem/formação pelo Zoom, pelo Hangout, pelo Youtube, pelo Google...
Apoio aos colegas/turmas, como professora bibliotecária, pelo blogue, pelo Facebook, pelo Instagram, pelo Padlet..
Catalogação no GIB.
Tenho a cabeça cozida de tanta tecnologia!!!

E, hoje, uma notícia menos boa para a Literatura: morreu o escritor brasileiro Rubem Fonseca, de ataque cardíaco, aos 94 anos, um dos vencedores do Prémio Camões (2003). O último livro dele, publicado em 2018, Carne crua, foi o último livro dele que li. Um livro de contos marcante, desconcertante, onde o autor revela a verdadeira arte de usar as palavras como arma que deixam os sentimentos e as sensações em "carne viva". Um livro cru onde se encontram assassinatos, traições, muita injustiça social. Mas, também por lá andam, de mãos dadas, o amor e a poesia.


14 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XXXIII

Vivemos um paradoxo: lutamos contra a crise, passamos dificuldades e, agora que a situação tendia a equilibrar-se e o poder de compra começava a melhorar, de nada nos serve. Acordamos e não podemos sair à rua. Há um mês em casa. Saídas, só para as compras, de longe a longe.

13 de abril de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO XXXII

Ontem, dia de Páscoa, houve confinamento concelhio, não eram permitidas saídas para fora do concelho de residência. É evidente que o tradicional compasso de Páscoa não saiu e as cruzes não entraram nas casas das famílias católicas.
Não obstante, numa terreola de Barcelos, em Martim, alguém decidiu vir para a rua com a cruz para ser beijada. E não faltaram fiéis a fazê-lo, sem qualquer medida de proteção, violando descaradamente as regras de afastamento social. 
E em Vermoim, Vila Nova de Famalicão, um grupo de fiéis fez um lanche pascal numa mesa montada na na rua, para confraternização.
Até onde vai a fé? Até onde vai a estupidez?  Que fiéis são estes, infiéis às regras, ao bom senso, à proteção individual e coletiva?
As pessoas não estão suficientemente alertadas para o contágio? As imagens de sepulturas, por esse mundo fora, não as choca? A fé dá-lhes imunidade? 
Para estas pessoas, só com um pano encharcado nas trombas! A ver se aprendem!