15 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO - III

Hoje seria um domingo normal, se não fosse a anormalidade da situação. Choveu e a vontade de sair diminuiu.
As redes sociais ganham força numa altura destas , mas apetece desligar tudo. Já não se aguenta a televisão, já não se aguentam os boatos no Facebook. Ora é uma gravação de um suposto médico que não se identifica e tem um discurso altamente perturbador de tão alarmista. Ora é um contacto que substitui a linha 24 e que não existe. Ora é o Cristiano Ronaldo que vai transformar os seus hotéis em hospitais (e sobe a sua popularidade e grandiosidade!!!). E o pessoal partilha tudo a torto e a direito, porque sim! E os jornalistas incendeiam ainda mais. Há os que ligam para a linha saúde 24 para provar que a linha está entupida! 
Quanta estupidez habita este mundo! Uma estupidez bem mais perigosa do que o vírus. 

14 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO - II

Sábado de um fim de semana que se adivinha... diferente!
Não houve a habitual saída à Praça para um café e compras.
Não houve saída para o cabeleireiro.
Não houve saída para um café, depois de almoço, nem para jantar fora.
Hoje seria dia de aniversário. 80 anos da mãe. A festa programada há meses foi suspensa. O sacana do vírus não está para festas. O seu mau humor ataca tudo que possa. É preciso ter muita cautela e o grupo seria grande. Muitos andaram por fora, por lugares contaminados. Nenhum de nós se atreveu, sequer, a ir dar um beijo à aniversariante. Triste. Tão triste!
Choveram mensagens o dia todo no whatsapp da família e no Facebook. As minhas mensagens:
"A criança via fazer uma birra e só vai nascer quando todos puderem estar juntos para lhe fazerem a festa que ela merece. Mais uma vez, está a ser posta à prova para mostrar que é uma guerreira. Muitos parabéns. Teremos muitos anos para festejar porque os 100 ainda estão longe. Beijinhos enormes."
"Muitos parabéns pelos teus 80 anos de vida. E obrigada por tantas vidas que geraste. A tua festa não se fará hoje, mas não perdes pela demora! Se não for antes, festejaremos em agosto o meu e o teu aniversários. Ainda haveremos de festejar juntas os meus 80 e os teus 100. Muitos beijinhos."

Abençoada tecnologia que nos juntou todos. Conseguimos cantar os parabéns em simultâneo e conversar em tempo real. Não houve bolo, nem velas, nem comida a rodos. Mas houve união, mesmo que à distância.

13 de março de 2020

DIÁRIO DE UM TEMPO DE MEDO - I

Parece que uma sexta-feira 13 cumpriu a missão de trazer o azar!
Até hoje, a minha apreensão e o  meu medo face ao coronavírus eram muito relativos. Hoje, porém, tudo mudou. Os casos em Portugal começaram a subir e fala-se em fechar as escolas a partir do próximo dia 16.
A minha escola, hoje, parecia quase uma escola fantasma. Os alunos anteciparam-se à ordem do Ministério e ficaram em casa (espero eu!). Dos 25 alunos da minha turma apenas cinco estiveram presentes.
De repente, com o anúncio de todas as atividades extracurriculares canceladas, fiquei apenas com um trabalho para fazer: catalogação. E assim passei toda a manhã, além de aconselhar livros aos alunos que foram à escola e quiseram ir para casa prevenidos.
- Professora, quantos livros posso requisitar para os dias todos em casa? 
- Professora, posso ir escolher livros? Serão 4 semanas em casa! 
Só espero que o vírus da leitura seja altamente contagioso!
Saí da biblioteca com um saco de livros para catalogar. Não sabia, ainda, se o fecho das escolas implicaria que os professores ficassem a trabalhar em casa. Muitos rumores se leram na Internet, com opiniões contraditórias!
Durante a tarde ainda fui trabalhar numa biblioteca do 1ºciclo. Trouxe para casa mais um saco para catalogar.
A informação definitiva que os professores iriam ficar em casa, em teletrabalho, chegou, finalmente! Voltei à escola para trazer mais livros. Ficou a tenda montada no meu escritório.
E a tarde terminou depois de ter enviado emails de trabalho. A biblioteca terá de ser usada fora de portas, através do blogue e das redes sociais.
E a preocupação instalou-se! Afinal, o caso é sério! Afinal, estamos a viver uma pandemia que está a alastrar a um ritmo vertiginoso. Quando irá parar? Onde iremos parar?

8 de março de 2020

"OS DIAS SÃO ASSIM" - LANÇAMENTO NA BIBLIOTECA MUNICIPAL RENATO ARAÚJO

O dia 6 de março de 2020 fica marcado na minha história, enquanto autora, como o dia do nascimento do sexto livro, o segundo com vários contos para um público mais crescido.
Os dias são assim é um livro com 12 contos, mas há uma 13ª história que não está nele. É a história do título que mudou três vezes.
Inicialmente, dei-lhe o título “O pintor da noite e outros contos”. O pintor da noite é o primeiro conto, para mim o mais poético, pelo que seria um título apelativo. Mas, seguido de “e outros contos”, seria banal pois há imensos livros assim, com o título de um dos contos e … outros contos. Então, pensei noutro que, numa única palavra, abrangesse o assunto de todos os contos, que fosse transversal a todos. Surgiu “Silêncios”. Soou-me bem. Se há palavras que são gritos, chamadas de atenção, há outras que escondem silêncios, por vezes mais ruidosos que um grito. Neste livro há silêncios gritados que se ouvem nas entrelinhas da maioria dos contos. Os seus leitores, provavelmente, irão ouvir esses gritos mudos que as palavras tentam esconder. E foi este título que a Isabel trabalhou para a ilustração da capa, com um S estilizado a ocupar toda a página.
Mas, no dia em que um amigo apresentou o seu último livro, uma sua amiga poetisa falou de um livro que tinha escrito e que se intitulava… Silêncios. O céu desabou sobre mim. Como poderia eu dar um título a um livro meu se ele já tinha dono?
Foi preciso repensar, mudar, criar outro. Até que surgiu este, Os dias são assim. O que veio complicar a vida à Isabel Pelaez, a ilustradora, pois ela teria de mudar a capa de uma palavra para quatro. 
De facto, os dias são assim, cheios de complicações. Mas também são cheios de vidas que vivem cá dentro do livro. Umas reais, outras inventadas, outras com um cruzamento de realidade e ficção. Cabe a cada leitor tentar imaginar quais são as histórias reais e as fictícias. Depois mo dirão. Mas, peço-vos, não tentem encontrar dados autobiográficos que não os vão encontrar. A minha vida não tem nada digno de uma história. Pelo contrário, as histórias deste livro estão cheias de vidas sentidas. O olhar atento da Isabel fê-la vislumbrar no novo título um S em todas as palavras. Deste modo, teve a feliz ideia de manter o S estilizado inicial e adaptar-lhe o resto das letras. Os silêncios mantêm-se, assim, ao longo deste S e nas ilustrações a preto e branco. Porque os dias são assim. Uns cheios de palavras, outros de silêncios. Uns cheios de claridade, outros de cinzas. 
Desejo a todos os leitores que o meu novo livro lhes proporcione bons momentos de leitura. Tão bons como os que eu passei a escrevê-lo.

Notícia no jornal Labor.


29 de fevereiro de 2020

"OS DIAS SÃO ASSIM" - LANÇAMENTO



Com um menu recheado, a "Poesia à Mesa", em S. João da Madeira, inclui o lançamento do meu novo livro de contos.

27 de fevereiro de 2020

"OS DIAS SÃO ASSIM" - LANÇAMENTO DO LIVRO

É com muita alegria que vejo aproximar-se o dia do lançamento do meu novo livro. 
A sessão decorrerá na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira, pelas 21h30, no dia 6 de março.
Trata-se de um livro com doze contos ilustrados pela minha amiga Isabel Pelaez e editado pela Coolbooks.

Sinopse: 
Os dias são assim, cheios de histórias. De amores e desamores. De encontros e desencontro. De lutas, fracassos. mas também conquistas.
Os dias são assim, cheios de vidas.
 A apresentação ficará a cargo da minha amiga Cristina Marques. Estão todos convidados.

14 de fevereiro de 2020

DIGO AMOR E JÁ NÃO CORO

Digo amor e já não coro.
Corava quando me corrias atrás.
Agora, envelheço.
Olho-me (malfadado espelho!!!). Assusto-me.
Mas já não coro.
As manhãs despreocupadas desapareceram.
Hoje, a alma dói.
Primavera partida. Inverno chegado.
E faz frio.
Transportámos tantos sonhos. Esfumaram-se...
Impossível manter-te ao meu lado, agora que já não coro.
Outros caminhos levaram-te.
Eu fiquei. Aqui. Sem cor.

(3º lugar "Poesia na corda", S, João da Madeira, março 2018)





13 de fevereiro de 2020

TEMPO

Na época em que eu tinha tempo
para ter tempo
deixei que o tempo passasse
e, a contratempo, o tempo passou
inflexível
inexorável
e não voltou

Agora sei
que lutei contra o tempo
que não o deixei andar devagar
que fui descuidada, apressada
deixei-o passar!

Agora que não tenho tempo
porque ele passou
e não voltou
agora sei
que a vida não é mero passatempo

 Agora que queria ter tempo
(nem que fosse para o prender num poema)
do tempo sairei

Agora que o tempo já nem tempo é
vão-se a vida e o tempo…
 (2º lugar "Poesia na corda", S, João da Madeira, março 2019)

15 de janeiro de 2020

FOI TÍTULO NO JORNAL

2019 acabara como começara. Com desconfianças e insultos. Com incompreensões e agressões. 
Ano novo, vida nova. Como ela acredita nisto!!!! 
Dia um de janeiro. Dia Mundial da Paz. Repentinamente, o silêncio quebra-se. Ouvem-se gritos, palavras agressivas. Choro entrecortado por lamúrias. Depois um estrondo. Talvez de corpo tombado.
Todo o prédio ouviu. Todos sentiram forte arrepio. Não, não era frio. Era pavor. Nenhum se manifestou, porém. Entre marido e mulher…
“Mãos violentas matam companheira”. Foi título num jornal. 

2 de janeiro de 2020

DECISÕES

Sentada frente ao espelho, antes de tomar a decisão, Elsa travou um diálogo com a sua imagem. 
- Corto?
- Não sei! Sempre me habituei aos cabelos compridos. 
- Cabelo comprido, tão branco, não combina. A juventude é tempo passado!
- Mesmo assim. São muitos anos a refletir a mesma imagem. Não sei se me habituo à mudança!
- Paciência! Perdido por cem, perdido por mil. Corto. E bem curtinho! 
Cortou. E saiu do cabeleireiro mais leve e com menos dez anos.