4 de agosto de 2013

PROVA ORAL


– E sobre Shakespeare, o que sabe?´
– Tipo, “ser ou não ser, eis a questão”? É como me sinto, tipo confusa, deve ser daquele período do mês, tipo benfica-a-jogar-em-casa, logo eu, sempre tão despachada, tipo Speedy Gonzalez, mas a vida tem coisas bué chatas (tipo pais bué mal-encarados, desemprego, divórcio, falta de tempo para nós) que nos fazem arrancar cabelos e dizer palavrões e, pior ainda, nos fazem pensar naquela figura triste, tipo caveira de foice na mão…

desafio nº48 da Margarida Fonseca Santos 
(diálogo onde uma das personagens tem um tique de linguagem)

27 de julho de 2013

NO PAÍS DOS PESADELOS


Perdi o hábito de dormir porque habito, agora, no país dos pesadelos. 
No silêncio da noite, silencio-me para pensar. Não foi isto que os meus pais me legaram. Ofereceram-me a liberdade e ensinaram-me a respeitá-la. Sábia lição! 
 Mas ela foi roubada e eu não sabia!!! Desde que descobri, debato-me, madrugadas dentro, com o monstro que me rouba o sono. Nesta angústia, gelo. Como se todo o gelo do planeta me caísse em cima.
- Liberdade, quem te retém?

(desafio nº47 da Margarida Fonseca Santos, 77palavras blogspot)

23 de junho de 2013

AMOR AO PRIMEIRO ENCONTRO

Foi amor ao primeiro encontro e a relação intensificou-se. Longe deles, sinto ansiedade, o desassossego é difícil de controlar. 
Absorvo o cheiro das suas peles, tão macias, acaricio-as com entusiasmo e, após uns momentos de namoro, a quietude regressa. É uma relação polígama, bem sei, mas desejo-os para recuperar a serenidade. Sem eles, a imaginação atrofia, as ideias acorrentam-se e a solidão torna-se insuportável. Sem eles, tudo é escuridão. Eles trazem a luz. Tranquilamente provocadores. Os livros.

desafio nº45 da Margarida Fonseca Santos

16 de junho de 2013

NÃO HÁ FEIRA, MAS HÁ ESCRITORES

Num mundo (leia-se país) onde anda tudo do avesso, não haver Feira do Livro no Porto faz todo o sentido. E a culpa disto é da chuva que cá se instalou e do sol que cá não se quer instalar. 
A economia em Portugal não cresceu por causa da chuva. O investimento caiu por causa da chuva. Está tudo tolo devido a tanta água. 
A decisão de não haver Feira do Livro no Porto, provavelmente, também se deve à chuva. Pois, se todos os anos, no período em que decorre a Feira, chove, faz frio e as orvalhadas de S. João são regra, para quê tirar as pessoas de casa, sujeitas a ficarem doentes? 
Quando a Feira do Livro decorria no Palácio de Cristal, vá lá, entendia-se que se realizasse, sempre era um espaço fechado, as pessoas não se molhavam. Mas, na Avenida dos Aliados, não é assim. Os leitores molham-se, os autores que lá estão a dar autógrafos apanham resfriados, os editores e livreiros, de plantão todo o dia e noite, correm o risco de apanhar pneumonias… E isto não é nada bom para o país. Os doentes não produzem e aumentam a despesa pública! 
Portanto, está explicado. 
Feira do Livro para quê? As pessoas que vão à Feira do Livro compram livros e quem compra livros tem o hábito de os ler (com chuva ou sem ela!!!). Quem lê aprende a pensar e a criticar, a contestar e a incomodar, mesmo com chuva! 
Numa altura em que o país regride a olhos vistos, parece que vai voltar ao tempo em que pensar e incomodar é crime. 
E o silêncio instalou-se no Porto. Um silêncio que nem as marchas populares conseguem contrariar porque morreu um evento com tantos anos de vida. 
Gosto do Porto. Não gostei que o Porto tivesse matado a Feira do Livro.

11 de junho de 2013

ESPERA

Pedro esperou pacientemente, a vida toda, que Laura lhe dissesse sim. Mas, sempre que ouvia sim da boca dela, não era o sim que queria ouvir. Tinha o sabor amargo do não. 
- Não te preocupes, sim? Um dia de cada vez. 
- Espera, sim? Para quê tanta pressa? 
- Sim, já pensei. 
Finalmente disse sim. Mas disse-o ao Luís, na presença de cento e cinquenta convidados que animaram a festa onde as lágrimas de Pedro não entraram. 

(77palavras, desafio Rádio Sim nº2: usar 7 vezes a palavra SIM)

LER ACALMA

ilustração de Jessie Willcox Smith

Chega a noite e o sol já dorme. Lia não quer que a luz se vá. Tem medo do negro da noite. Pega num livro, trilho para a calma. Lê e ri. Solta os medos sempre que vira mais uma folha. 
Pousa o livro e dorme. Sonha com bruxas e fadas, elfos e magos. As horas passam, lentas. E nasce uma manhã nova feita de risos claros. Sem fome nem frio. Sem lama, sem manchas, sem sombras.

(77palavras, desafio nº44:  usar apenas palavras com uma ou duas sílabas)

27 de maio de 2013

ENCONTRO COM AFONSO CRUZ



Hoje, Afonso Cruz esteve em S. João da Madeira. De tarde, na escola Oliveira Júnior e, à noite, na Biblioteca Municipal com o Clube de Leitores.
Afonso Cruz é escritor, ilustrador, realizador de filmes de animação e compõe para a banda de blues/roots The Soaked Lamb. É um homem multifacetado que adora viajar e conhece mais de sessenta países. 
Em 2008, publicou o seu primeiro romance, A Carne de Deus: aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites e, em 2009, Enciclopédia da Estória Universal, galardoado com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco - APE/Câmara Municipal de Famalicão. São seus, também, Os livros que devoraram o meu pai (Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009), A contradição humana (Prémio Autores 2011 SPA/RTP; seleção White Ravens 2011; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011), A boneca de Kokoschka, Jesus Cristo bebia cerveja e O livro do ano.

14 de maio de 2013

ERA ABRIL...


Só podia ser premonição. Dormia mal mas, naquela noite, não sossegava. O ar tinha um cheiro diferente que adivinhava mudança. E teve pesadelos. 

Uma porta fecha-se ferozmente atrás dele e uma prisão escura, sem ar, rouba-lhe o alento. Agarrado às grades, abana-as, tenta arrancá-las para poder fugir. Grita mas ninguém lhe responde…

Apenas a rádio lhe respondeu com uma canção proibida. Grândola, vila morena. Abriu a janela e a noite cheirava a cravos vermelhos. Abril trazia esperança.

77PALAVRAS NA RÁDIO SIM



O projeto dos contos em 77 palavras chegou à Rádio Sim. Margarida Fonseca Santos, a mentora do projeto, lê diariamente um conto dos muitos que têm chegado ao seu blogue 77palavras. 

Hoje, foi a vez de ser lido um dos meus microcontos que pode ser ouvido aqui

5 de maio de 2013

DIA DA MÃE


Mãe, mulher maravilha
Amante sem limites
É infinitamente infinita!

Terno é o seu sorriso,
Eterno, também! Dos lábios não se esvai
Mesmo que os olhos marejem.

Cada MÃE é especial e única.
Arma que arremessa contra o perigo
Luz que apaga a escuridão
Mistério que dá vida
Anda, Mãe, vamos brindar!