12 de novembro de 2012

VENTO QUE AS LEVE!!!

A melga escanzelada voou uns quilómetros ao encontro da melga anafada para lhe pedir ajuda. 
-Não aguento a penúria, não tenho mais onde sugar! 
-Isso pensas tu. Sê esperta, faz como eu! 
Obedecendo-lhe cegamente, picou e sugou onde pensava já não ser possível. Mas continuava escanzelada e cada vez mais subserviente à medonha melga gorda. 
Desanimada, questionou: 
- Eu sugo, sugo, e tu é que engordas? 
A resposta não veio. 
Veio o vento. Zangado soprou, nenhuma escapou. 

                                                                                          



                                   (desafio nº24 da Margarida Fonseca Santos)

QUEM MUITO FALA...

O doutor Leitão sabe tudo (pensa ele!) e nunca se cala. Apetece-me enfiar-lhe uma rolha, goela abaixo, ou pisar-lhe a língua, num almofariz, para o calar.
Parece programado, como despertador que não se atrasa, para dar todas as respostas, a qualquer hora. Como bola de ténis, as suas palavras voam, arremessadas com violência. E fala, fala. O que diz pica, qual vespa viperina. Que papel grotesco!
Apenas ignora que “quem muito fala dá bom dia a jumento”.

(desafio nº23 da Margarida Fonseca Santos)

6 de novembro de 2012

OUTONO



Há já algum tempo que ganhei o hábito de andar sempre com a máquina fotográfica na carteira. Compensa o peso. Nunca se sabe onde está a imagem, o momento, o inesperado, a simplicidade que vale a pena reter.
Trazer a máquina na carteira obriga a olhar e a ver o que normalmente passaria despercebido. Pormenores. Bocados.
No entanto, as cores do outono não passam despercebidas. Fulgurantes, arrebatadoras, chamam a atenção, pedem para serem fotografadas como modelos que sabem de cor a pose a fazer na passerelle.
Não entendo as árvores que se vestem de cor para, logo de seguida, se despirem e despedirem das suas roupagens.
Gosto de cores que enfeitiçam os olhos. E gosto de romãs e de diospiros. Outono é isto.





26 de outubro de 2012

"CADAVRE EXQUIS"

Foi com muito agrado que, em setembro passado, participei neste cadavre exqui, que circulou por quem andava nos jardins do Palácio de Cristal, durante o festival organizado pelo Bairro dos Livros, no qual o grupo do Clube de Leitores teve um papel preponderante.

Um "cadáver esquisito", em francês cadavre exquis, é um jogo coletivo inventado por volta de 1925 em França pelo movimento surrealista, pretendendo subverter-se o discurso literário convencional.  
Como funciona? Cada pessoa escreve duas linhas, dobra o papel tapando a primeira e deixando à vista apenas a segunda, e o autor seguinte continua o texto, sem a menor noção do que foi escrito. 
O resultado é hilariante.

"O Jardim é um palácio que floresce entre pavões e bancos
Confusões e felizes prantos que nos habitam o interior
Das recordações dos disparates e da evolução do mundo, que
Avança com ou sem razão das esperas que não acontecem
Pois o tempo, ou a falta dele, esse é o grande problema.
Estas esperas devem pois, ser bem calculadas.
Pois agir sem pensar não é de todo aconselhável
Assim, vejamos a situação:
O corpo estava a entrar em decomposição.
A cara estava branca, gelada, apesar do calor da noite.
A solidão estava marcada, bem presente.
E sono, muito sono realmente!
É no estado em que o homo sapiens se tem encontrado
Desde o início da sua civilização
Não interessa
Tudo era natureza
Tudo era morte
Tudo se torna em veludo azul
A coisa mais rara neste mundo, as pessoas pensarem por si próprias.
É raro mas quando acontece é mágico.
É assim que vivemos, sorrimos e amamos.
Por isso vamos a isso.
Mas cuidado… Os lobos e as meninas andam por aí
E sabem sempre o que querem!
Mas o que quererão afinal?
E será que alguma vez o saberão?
Essa é a questão filosófica que se impõe!
Essa e a questão da origem do universo das bandas desenhadas
que surgem nas bancas das papelarias sem ninguém saber como!
Como é que ninguém sabia dessa porcaria!
Tanta coisa para nada!
Aumentando a vontade de conquistar o infinito, sem porém
Julgar a vontade do(s) outro(s).
E acham-se importantes por fazê-lo!
Acho graça a essa gente, a nossa gente.
A nossa gente é capaz de tudo.
Andar desalinhada, só isso!
No dia em que descobrir o seu próprio poder, tudo acontecerá!
Somos uma gente capaz! Capazes!
A propósito de capazes, acho que ou capaz de comprar uma bimby…
Ando a pensar nisso há tempo… Acho que vou…
Comprar o tal livro da selva e, mergulhando na sua leitura
Vou viver a aventura que ele me sugerir
Não sei o que vi nele, nem o que me atraiu. O olhar transparente?
O sorriso nos lábios grossos? Não sei. Em todo o caso, embarquei na aventura.
O primeiro dia foi repleto de medos, inseguranças… e à medida que
O dia ia passando mais eu me libertava destes medos e deixava a energia
Fluir, e um sorriso aparecia na minha cara.
«Mandato de despejo aos mandarins da Europa! Fora!
Se quiserem ficar lavem-se!»
E lavem-se de preconceitos e opiniões
Lembra-te que é hoje!
Sim, hoje, porque é hoje que estás a ler isto.
Aliás, agora!!! Acabei de ler e vou “desencanar” o burro.
Alea jacta est! “Alea jacta est”.
Afirmação de boa memória e omnipresente
Nos livros de Asterix, que me encheram a infância.
A infância, aquele tempo em que não tinha horários e passava
O tempo a brincar!! Além do Asterix, havia a pequena sereia.
Mas o meu preferido era o Bocas. Um boi vermelho, vestido com
uma jardineira de botões amarelos. A sua melhor amiga, a tartaruga Mike
ficou muito feliz ao saber que o jardim estava lindo e cheio de flores.
Ao ver tudo aquilo quis abraçá-la e agradecer para todo o sempre.
No sempre a eternidade do amor e a salvação!
Mas um belo dia o canto de jades esfumou-se.
O encanto foi-se.
 E ele ficou com uma caixa cheia de sonhos vazios.
Pensou como gostava dela…
Como ela era injusta.
Nunca preparava o café a meu gosto.
E ainda dizia: “a culpa é tua”.
Mas nem sempre a culpa é nossa!
Não queiras pôr culpas onde não queremos!
Sentimento que inflama, que nos aprisiona.
Perdoa-te e vive com a tua alma por inteiro!"

4 de outubro de 2012

O QUE ACABEI DE LER

Se me pedissem uma única palavra para caracterizar Nunca me deixes, usaria o adjetivo estranho, até ao meio do livro. É estranho o leitor não saber o que são os dadores e os ajudantes. É estranha a educação dada no colégio. É estranho que as personagens tenham toda a liberdade sexual mas não possam ter filhos. É estranho que o colégio tenha um cuidado redobrado com a alimentação das crianças. É estranho o título que não condiz com o conteúdo. Ao longo da leitura, e ligando algumas pontas, fui fazendo as minhas conjeturas sobre o que seriam os ajudantes e os dadores. Acertei. A narradora autodiegética acaba por confirmá-lo. Mas, o papel desempenhado pelas personagens começa a ficar claro e uma ideia surge. Não, não é possível! E é então que se dá o nó na cabeça. O tema é demasiado polémico, não consensual, quase tabu, para ser abordado assim, de forma tão natural. Depois do meio do livro, substituo o adjetivo estranho pelo adjetivo chocante para caracterizar o livro. Foi um choque para mim quando as minhas suspeitas foram confirmadas. Afinal, o título tem toda a razão de ser e está ligado a uma atitude da narradora, enquanto criança, também ela chocante depois de ouvida a explicação. A palavra-chave foi escrita apenas duas vezes em todo o livro. Como se o assunto não fosse importante. Como se fosse muito natural. E é esta naturalidade com que o tema é abordado que faz abanar consciências (algumas, mais frágeis, poderão, mesmo, ficar abalroadas!!!), refletir (muito) e concluir que, afinal, a palavra certa para caracterizar o livro de Ishiguro é perturbador!

26 de setembro de 2012

UM SENTIDO PARA VIDA

Brincar aos anagramas!

Anda atrás de um sentido para a sua vida. Mas, tonta que é, nada a satisfaz e a vida só fará sentido se casar. Tanto se lhe dá que ele seja um mulherengo depravado sem emenda! 
Foi à rasca que conseguiu sacar dele a promessa do tão desejado casamento. Arcas abarrotadas de rico enxoval esperaram, durante um ano, o grande dia. 
O grande dia chegou mas, afinal, mostrou-se curto, muito curto. Quanto às arcas… nunca se abriram.

(desafio nº19 da Margarida Fonseca Santos, 77palavras.blogspot.com)

11 de setembro de 2012

DESISTIR OU RESISTIR?



Passou verão e inverno embrulhada na sua melancolia feita de muitas melancolias tecidas ao longo dos anos. Parou de sorrir à vida. Afastou o brilho do olhar. Deixou de querer. 
Desistir. Verbo medonho! 
Decidi, então, riscar no dicionário a palavra desistir e todas as suas derivadas. Tudo porque ela desistiu da vida e se deixou apagar, dia a dia, qual vela a arder lentamente e a desvanecer. 
Na folha rasurada do dicionário, escrevi em maiúsculas: EXISTIR. RESISTIR.

(desafio nº18 da Margarida Fonseca Santos, blogue 77palavras)

8 de setembro de 2012

LER FAZ MAL? QUEM DISSE?

ilustração de Dulce Esperanza Juárez

 - Não leiam muito, à noite muito menos, faz mal aos olhos. 
Esta era uma frase insistentemente repetida pela avó que se preocupava muito com a nossa saúde. Mas nós éramos leitoras compulsivas. Os livros espraiavam-se por toda a casa. Por onde passávamos, tínhamos um livro a olhar para nós e a suplicar-nos (não muito pois não era necessário!) para lhe pegarmos e o folhearmos e o lermos. 
- Faz mal, uma ova! – respondíamos, olhando-a por cima dos óculos! 

 (desafio nº17 da Margarida Fonseca Santos, 77palavras.blogspot.com)

5 de setembro de 2012

LUTO

Domingo triste. A chuva espreitava por entre os vitrais da igreja cobrindo-os de pequenas gotas, pérolas vindas de longe, há muito esperadas. 
Eva ajoelhou-se e, depois de rezar a primeira Ave-maria, parou de acariciar o rosário. Era demasiado religiosa para ter dúvidas mas, naquele momento, tudo estava em causa. A reviravolta na sua vida e a enorme raiva que sentia provocaram demasiados conflitos interiores e vacilaram a sua fé. Agarrada à aliança, chorou e não mais rezou.


(nova participação no desafio nº17 da Margarida Fonseca Santos, publicado em 77palavras)

1 de setembro de 2012

ESTÓRIA DE AMOR


Estava escrito nas estrelas que seria para toda a vida.
Nasceram em locais opostos do mundo mas foi em Roma que se encontraram e passaram parte do verão. Viram-se, apresentaram-se e… o amor surgiu como avalanche incontrolável.
A lua vestia o seu mais brilhante vestido quando ele lhe colocou o anel no dedo e lhe perguntou:
- Queres ouvir comigo a mesma canção até ao fim das nossas vidas, Lena?
Estava escrito nas estrelas mas eles não sabiam.

 desafio nº17 da Margarida Fonseca Santos (77palavras)