26 de outubro de 2012

"CADAVRE EXQUIS"

Foi com muito agrado que, em setembro passado, participei neste cadavre exqui, que circulou por quem andava nos jardins do Palácio de Cristal, durante o festival organizado pelo Bairro dos Livros, no qual o grupo do Clube de Leitores teve um papel preponderante.

Um "cadáver esquisito", em francês cadavre exquis, é um jogo coletivo inventado por volta de 1925 em França pelo movimento surrealista, pretendendo subverter-se o discurso literário convencional.  
Como funciona? Cada pessoa escreve duas linhas, dobra o papel tapando a primeira e deixando à vista apenas a segunda, e o autor seguinte continua o texto, sem a menor noção do que foi escrito. 
O resultado é hilariante.

"O Jardim é um palácio que floresce entre pavões e bancos
Confusões e felizes prantos que nos habitam o interior
Das recordações dos disparates e da evolução do mundo, que
Avança com ou sem razão das esperas que não acontecem
Pois o tempo, ou a falta dele, esse é o grande problema.
Estas esperas devem pois, ser bem calculadas.
Pois agir sem pensar não é de todo aconselhável
Assim, vejamos a situação:
O corpo estava a entrar em decomposição.
A cara estava branca, gelada, apesar do calor da noite.
A solidão estava marcada, bem presente.
E sono, muito sono realmente!
É no estado em que o homo sapiens se tem encontrado
Desde o início da sua civilização
Não interessa
Tudo era natureza
Tudo era morte
Tudo se torna em veludo azul
A coisa mais rara neste mundo, as pessoas pensarem por si próprias.
É raro mas quando acontece é mágico.
É assim que vivemos, sorrimos e amamos.
Por isso vamos a isso.
Mas cuidado… Os lobos e as meninas andam por aí
E sabem sempre o que querem!
Mas o que quererão afinal?
E será que alguma vez o saberão?
Essa é a questão filosófica que se impõe!
Essa e a questão da origem do universo das bandas desenhadas
que surgem nas bancas das papelarias sem ninguém saber como!
Como é que ninguém sabia dessa porcaria!
Tanta coisa para nada!
Aumentando a vontade de conquistar o infinito, sem porém
Julgar a vontade do(s) outro(s).
E acham-se importantes por fazê-lo!
Acho graça a essa gente, a nossa gente.
A nossa gente é capaz de tudo.
Andar desalinhada, só isso!
No dia em que descobrir o seu próprio poder, tudo acontecerá!
Somos uma gente capaz! Capazes!
A propósito de capazes, acho que ou capaz de comprar uma bimby…
Ando a pensar nisso há tempo… Acho que vou…
Comprar o tal livro da selva e, mergulhando na sua leitura
Vou viver a aventura que ele me sugerir
Não sei o que vi nele, nem o que me atraiu. O olhar transparente?
O sorriso nos lábios grossos? Não sei. Em todo o caso, embarquei na aventura.
O primeiro dia foi repleto de medos, inseguranças… e à medida que
O dia ia passando mais eu me libertava destes medos e deixava a energia
Fluir, e um sorriso aparecia na minha cara.
«Mandato de despejo aos mandarins da Europa! Fora!
Se quiserem ficar lavem-se!»
E lavem-se de preconceitos e opiniões
Lembra-te que é hoje!
Sim, hoje, porque é hoje que estás a ler isto.
Aliás, agora!!! Acabei de ler e vou “desencanar” o burro.
Alea jacta est! “Alea jacta est”.
Afirmação de boa memória e omnipresente
Nos livros de Asterix, que me encheram a infância.
A infância, aquele tempo em que não tinha horários e passava
O tempo a brincar!! Além do Asterix, havia a pequena sereia.
Mas o meu preferido era o Bocas. Um boi vermelho, vestido com
uma jardineira de botões amarelos. A sua melhor amiga, a tartaruga Mike
ficou muito feliz ao saber que o jardim estava lindo e cheio de flores.
Ao ver tudo aquilo quis abraçá-la e agradecer para todo o sempre.
No sempre a eternidade do amor e a salvação!
Mas um belo dia o canto de jades esfumou-se.
O encanto foi-se.
 E ele ficou com uma caixa cheia de sonhos vazios.
Pensou como gostava dela…
Como ela era injusta.
Nunca preparava o café a meu gosto.
E ainda dizia: “a culpa é tua”.
Mas nem sempre a culpa é nossa!
Não queiras pôr culpas onde não queremos!
Sentimento que inflama, que nos aprisiona.
Perdoa-te e vive com a tua alma por inteiro!"

4 de outubro de 2012

O QUE ACABEI DE LER

Se me pedissem uma única palavra para caracterizar Nunca me deixes, usaria o adjetivo estranho, até ao meio do livro. É estranho o leitor não saber o que são os dadores e os ajudantes. É estranha a educação dada no colégio. É estranho que as personagens tenham toda a liberdade sexual mas não possam ter filhos. É estranho que o colégio tenha um cuidado redobrado com a alimentação das crianças. É estranho o título que não condiz com o conteúdo. Ao longo da leitura, e ligando algumas pontas, fui fazendo as minhas conjeturas sobre o que seriam os ajudantes e os dadores. Acertei. A narradora autodiegética acaba por confirmá-lo. Mas, o papel desempenhado pelas personagens começa a ficar claro e uma ideia surge. Não, não é possível! E é então que se dá o nó na cabeça. O tema é demasiado polémico, não consensual, quase tabu, para ser abordado assim, de forma tão natural. Depois do meio do livro, substituo o adjetivo estranho pelo adjetivo chocante para caracterizar o livro. Foi um choque para mim quando as minhas suspeitas foram confirmadas. Afinal, o título tem toda a razão de ser e está ligado a uma atitude da narradora, enquanto criança, também ela chocante depois de ouvida a explicação. A palavra-chave foi escrita apenas duas vezes em todo o livro. Como se o assunto não fosse importante. Como se fosse muito natural. E é esta naturalidade com que o tema é abordado que faz abanar consciências (algumas, mais frágeis, poderão, mesmo, ficar abalroadas!!!), refletir (muito) e concluir que, afinal, a palavra certa para caracterizar o livro de Ishiguro é perturbador!

26 de setembro de 2012

UM SENTIDO PARA VIDA

Brincar aos anagramas!

Anda atrás de um sentido para a sua vida. Mas, tonta que é, nada a satisfaz e a vida só fará sentido se casar. Tanto se lhe dá que ele seja um mulherengo depravado sem emenda! 
Foi à rasca que conseguiu sacar dele a promessa do tão desejado casamento. Arcas abarrotadas de rico enxoval esperaram, durante um ano, o grande dia. 
O grande dia chegou mas, afinal, mostrou-se curto, muito curto. Quanto às arcas… nunca se abriram.

(desafio nº19 da Margarida Fonseca Santos, 77palavras.blogspot.com)

11 de setembro de 2012

DESISTIR OU RESISTIR?



Passou verão e inverno embrulhada na sua melancolia feita de muitas melancolias tecidas ao longo dos anos. Parou de sorrir à vida. Afastou o brilho do olhar. Deixou de querer. 
Desistir. Verbo medonho! 
Decidi, então, riscar no dicionário a palavra desistir e todas as suas derivadas. Tudo porque ela desistiu da vida e se deixou apagar, dia a dia, qual vela a arder lentamente e a desvanecer. 
Na folha rasurada do dicionário, escrevi em maiúsculas: EXISTIR. RESISTIR.

(desafio nº18 da Margarida Fonseca Santos, blogue 77palavras)

8 de setembro de 2012

LER FAZ MAL? QUEM DISSE?

ilustração de Dulce Esperanza Juárez

 - Não leiam muito, à noite muito menos, faz mal aos olhos. 
Esta era uma frase insistentemente repetida pela avó que se preocupava muito com a nossa saúde. Mas nós éramos leitoras compulsivas. Os livros espraiavam-se por toda a casa. Por onde passávamos, tínhamos um livro a olhar para nós e a suplicar-nos (não muito pois não era necessário!) para lhe pegarmos e o folhearmos e o lermos. 
- Faz mal, uma ova! – respondíamos, olhando-a por cima dos óculos! 

 (desafio nº17 da Margarida Fonseca Santos, 77palavras.blogspot.com)

5 de setembro de 2012

LUTO

Domingo triste. A chuva espreitava por entre os vitrais da igreja cobrindo-os de pequenas gotas, pérolas vindas de longe, há muito esperadas. 
Eva ajoelhou-se e, depois de rezar a primeira Ave-maria, parou de acariciar o rosário. Era demasiado religiosa para ter dúvidas mas, naquele momento, tudo estava em causa. A reviravolta na sua vida e a enorme raiva que sentia provocaram demasiados conflitos interiores e vacilaram a sua fé. Agarrada à aliança, chorou e não mais rezou.


(nova participação no desafio nº17 da Margarida Fonseca Santos, publicado em 77palavras)

1 de setembro de 2012

ESTÓRIA DE AMOR


Estava escrito nas estrelas que seria para toda a vida.
Nasceram em locais opostos do mundo mas foi em Roma que se encontraram e passaram parte do verão. Viram-se, apresentaram-se e… o amor surgiu como avalanche incontrolável.
A lua vestia o seu mais brilhante vestido quando ele lhe colocou o anel no dedo e lhe perguntou:
- Queres ouvir comigo a mesma canção até ao fim das nossas vidas, Lena?
Estava escrito nas estrelas mas eles não sabiam.

 desafio nº17 da Margarida Fonseca Santos (77palavras)

30 de agosto de 2012

MARIA MAR


Ainda faltavam quatro semanas para o nascimento mas ela impôs-se. Nasceu no mar. O marulhar das ondas foi a primeira música que ouviu e que a embalou. Por isso lhe chamaram Maria Mar. Por isso o sol foi o padrinho e a lua a madrinha. Por isso, foi abençoada pelas estrelas. Também por isso, herdou a personalidade inconstante do mar. Ora calma e sossegada, ora irascível e tempestuosa, tal como o mar, viveu livremente, cheia de mistério.

desafio nº16 da Margarida Fonseca Santos (77palavras.blogspot.pt)

28 de agosto de 2012

PRAIA DA FALÉSIA, VILAMOURA - IMPRESSÕES


Quem ruma a sul, mais concretamente à praia da falésia em Vilamoura, com intenção de passar férias isoladas e silenciosas, desengane-se. Mas a confusão é compensada pela enorme biodiversidade humana. 
Gosto de me sentar na areia ou numa esplanada, frente ao mar, e observar. Além do colorido de guarda-sóis, toalhas, cestos, chapéus e biquínis que transformam a praia em múltiplos arco-íris (gosto do branco, na praia, e do amarelo, e do laranja, e do rosa fúcsia), a variedade de pessoas fascina-me. Pessoas altas e baixas, pessoas magras e gordas; corpos esbeltos e bem torneados, corpos atacados pela celulite e por gorduras indesejadas; peles brancas e peles bronzeadas; peles lisas e peles enrugadas, vincadas pelo tempo; peles secas, peles brilhantes, peles pintadas com artísticas tatuagens; cabelos curtos, cabelos compridos que se estendem costas abaixo, cabelos apanhados em longos rabos de cavalo, ausência total de cabelo em cabeças carecas. Velhos, novos, crianças e jovens. E bebés. Bebés na praia, a qualquer hora do dia. E pessoas que chegam depois do meio-dia. E pessoas que passam o dia inteiro na praia e abrem grandes lancheiras donde saem sandes, bebidas frescas e fruta. E batatas fritas, claro!
E a variedade de línguas estrangeiras misturadas promiscuamente com o português (nos seus variados sotaques e regionalismos) encanta-me. “Queres pom?” – é a pronúncia do norte no seu melhor! 
Ouve-se francês (imenso), inglês (bastante), espanhol (muito), alemão (um pouco) apesar de o jornal Expresso desta semana (18 de agosto) trazer um artigo intitulado “Turistas alemães salvam ano no Algarve” (parece que a srª Merquel os enviou para aqui, “que os pobres coitados dos portugueses estão a precisar do nosso dinheiro!”). 
Ouvem-se os pregões dos vendedores que inundam a praia e a transformam num grande centro comercial, alguns até com Multibanco. 
Passam os exuberantes brasileiros vendedores da bolinha de Berlim e da bolacha americana. 
- Olhá bolinha, chegô! Tá chamando, eu vô!
- Chora, nenem chora, que a mamãe te dá a bola! 
- Comê, comê, para crescê! 
Passam outros exóticos brasileiros vendedores de biquínis. 
- Olhó biquíni brasilero originau! 
Passam os tímidos vendedores portugueses. 
- Água, cerveja, coca-cola. 
- Bolacha americana e pastel de amêndoas! 
Passam os discretos e calados indianos vendedores de pratas e vestidos de algodão e os também discretos marroquinos carregados de pilhas de toalhas de praia, carteiras e óculos de sol. 
E o sol vai queimando. E a água fria refresca todos estes corpos, toda esta gente que veio para sul esquecer a crise enterrando-a na areia ou afogando-a no mar.


10 de agosto de 2012

MARCHA NUPCIAL

O desafio nº15 da Margarida Fonseca Santos: escolher um livro de que se goste, abri-lo ao acaso e escolher uma frase, ou parte de frase, que chame a atenção; depois, usar essa frase no texto a criar. 

Adoro Jorge Amado e a Bahia exerce uma forte atração sobre mim. Escolhi Mar morto e, abrindo o livro ao acaso, calhou o início do capítulo "Marcha nupcial".

Praia do Forte, Bahia

O casamento seria daí a doze dias e tudo estava pronto para ouvirem a marcha nupcial. Mas, o condutor embriagado destruiu o sonho. 
Dias depois, enquanto deambulava pela praia deserta, pontapeava a areia com violência, vingando os pensamentos zangados. Fixou o horizonte. Uma mulher de longos cabelos prateados, de espuma vestida, surgiu das ondas. Anjo ou sereia feiticeira? 
Foi prazer o que sentiu quando o mar lhe fustigou as pernas, depois o peito e, finalmente, o engoliu.