25 de junho de 2012

FRANCISCO


ilustração de Cyril Rolando

Não sei o que vai na cabeça do Francisco. Mas sei o que vai no seu olhar. De um azul cristalino e transparente, os seus olhos despejam o mar quando chora, espelham o sol quando ri, iluminam a noite quando pensa. Piscam de curiosidade, tremem enquanto busca o desconhecido, brilham quando encontra o saber. Mas são as mãos que tateiam e o guiam pelas páginas da vida. Observo-o! Sei o que não vai na cabeça do Francisco!

(microconto publicado no blogue 77palavras - desafio nº10)

23 de junho de 2012

SORRISOS


Sorrisos, tímidos ou rasgados, furtivos ou atrevidos, são como os abraços e os apertados laços.

(participação no novo passatempo da Artidar)

17 de junho de 2012

O GALGO E A TARTARUGA

Fábula revisitada, sem a letra e


Não foi por acaso, não! Ganhando a corrida ao galgo, a tartaruga ganhou a aposta.
Mas, do início, vamos a história contar.
Numa morna manhã, a tartaruga, vagarosa, divagava. Um galgo distâncias galgava.
Irónico, zombou:
 – Mandriona! Com tal ritmo, tanto vagar, quantas vitórias irás alcançar?!
 – Vai bugiar. Vai uma aposta?
O galgo riu. Aprovou a proposta. Confiado, à sombra dormiu, sonhou...
A tartaruga, ultrapassando-o, a fita ambicionada cortou.
Vitoriosa, muito orgulhosa, bradou:
 – Fanfarrão! Tiras daqui a lição?

desafio nº9 da Margarida Fonseca Santos publicado no blogue 77palavras

10 de junho de 2012

ÁRVORE AGRADECIDA


        Curvada,
        beijo, agradecida, a terra que me alimenta.

7 de junho de 2012

DESCANSO

Desafio nº8 da Margarida Fonseca Santos (blogue 77palavras): no texto apenas podem aparecer palavras com as letras A E O T R S P L M N D C



A tarde decorre lentamente. O sol espera-me. Pretendo estender-me, descansar. Toco no acelerador, o carro estremece. Paro no local deserto, (apesar de tão perto!), onde encontro calma, onde todos os contratempos, até os (aparentemente) sem desenlace, se apartam como por encantamento. O tempo está sereno e, desasado, não se apressa. Solto o pensamento. Nado compassadamente, no espaço, sem cansaço, e depressa alcanço o éden.
Calor. Ondas. Mar.
E, para completar o concerto, o soneto no areal traçado.


6 de junho de 2012

OS "HERÓIS" DE PORTUGAL

Quino

Até que enfim! Encontrei alguém que me compreende! Não, não é a Mafalda. É um  homem! Escreveu João Tordo, na sua crónica da revista do Expresso, no passado dia dois de junho:
“A chegada de mais um campeonato europeu (…) é um regalo para o governo: milhões de portugueses andarão, durante um mês inteiro, distraídos dos assuntos fundamentais (…) e concentrados na nossa droga de excelência…”
Ora, a nossa (deles, restantes portugueses, porque minha não é!!!) droga é o futebol, que, para mim, é mais uma praga do que um desporto. Não é o futebol em si que me irrita. É tudo o que está à sua volta.
O que me irrita é a cegueira que ele provoca, os milhões de euros que envolve, a corrupção a que está ligado.
O que me irrita, são os jogadores (e particularmente os da seleção!) sem instrução, sem educação, vaidosos, que se sentem superiores a tudo e a todos só porque calçam chuteiras, ganham e gastam quantias obscenas.
O que me irrita, são os adeptos (a começar pelos dois cá de casa) que perdem o tino, a razão e, muitos, o dinheiro que não têm e vibram com os jogos como se disso dependesse as suas vidas ou a solução de todos os problemas do país.
O que me irrita é o facto de esses jogadores serem considerados heróis pela comunicação social que exacerba e alimenta uma importância e um valor que não têm.
Que nervos!

4 de junho de 2012

PARTISTE...



Partiste antes do tempo, há sete anos.
Vieram sete demónios, atacaram-te impiedosamente, não te pudeste defender.
Roeram-te as entranhas, fizeram-te sofrer sete meses…
Não tinhas sete vidas para viver. Partiste!
Sete anjos olharam por ti enquanto te debatias. Mas, de longe, veio outro, de grandes asas brancas, e arrancou-te das garras que te sufocavam. Deu-te a paz.
Sete de abril. Ficamos nós, as sete, a chorar a tua partida, a aplaudir a tua vitória.
Já não sofrias!

desafio nº7 lançado no blogue 77palavras, de Margarida Fonseca Santos

27 de maio de 2012

PAIXÃO


De dia, viam-se pouco mas isso não importava. Ela esperava ansiosamente que a noite chegasse e o encontro era mais intenso. Os seus afazeres profissionais não lhe permitiam que se cruzassem mas, assim que entrava em casa, depois de um dia de trabalho cumprido (e comprido!), logo ela se lhe dirigia, numa enorme vontade de lhe tocar, de o afagar, de o possuir até se cansar. E pensar que, há bem pouco tempo, detestava computadores! Quem diria...!

Mais um desafio para o blogue 77palavras

20 de maio de 2012

AMANHÃ...

Microconto lido na Rádio Sim; OUVIR AQUI
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ilustração de Shiori Matsumoto


Amanhã não haverá mais lágrimas nem acusações.
Amanhã só haverá ausências pois contigo partirão afetos e ternuras.
Não haverá músicas nem danças, não haverá beijos nem festanças.
Haverá silêncios e tudo o que foi bom não voltará.
Mais não! Chega! Não pretendo pedir o impossível. Quero secar
lágrimas. De tanto lembrar, quero esquecer o que foi vivido!
Nem me vou preocupar em apanhar os cacos. Quero apagar
acusações para não lamentar nem odiar. Apenas continuar e… perdoar.
 desafio nº5 da Margarida Fonseca Santos, no blogue 77palavras

15 de maio de 2012

CONTADOR DE ESTÓRIAS

ilustração de Tilly Strauss


Sou um bule rachado, sou! Mas não diminuído nem inútil. Como já não tenho o prazer de receber a água fervente, que a minha finíssima porcelana deixa verter, tornei-me um contador de estórias.

Sempre que novas folhas de chá mergulhavam em mim e se abriam em flor, lá vinha uma estória. Tantas ouvi. Da China, Ceilão, Índia, Japão. Ri, chorei, arrepiei-me, comovi-me. Todas cá ficaram. Agora, encanto com elas os visitantes deste museu, o meu novo lar.


microconto publicado no blogue 77palavras