12 de janeiro de 2012

MICROCONTOS

Mais dois microcontos: O poder da música e O poder da poesia, publicados aqui.
1.
Absorta nos seus pensamentos, Isabel regressa da escola no autocarro apinhado, colada aos outros passageiros. Com toda uma vida à sua frente, não se importa com o futuro, ainda tão distante. O mundo não é perfeito e Isabel sabe-o. Para quê estragar a sua juventude com pensamentos cinzentos? Desliga-se do mundo e liga-se à música que irrompe, ouvidos adentro, via iphone. E a música fá-la planar e fantasiar, esquecer e não sofrer, enfrentar a loucura da vida.

2.
A cidade é ruidosa, desumana. Homens e mulheres ruidosos e desumanos atravessam-na mecanicamente como fantoches manipulados por forças ocultas. Abrigada no seu quarto branco, ela sonha com um mundo melhor. E isso só o conseguirá com poesia. Sai, silenciosamente. Sem falar mas com um sorriso eloquente nos olhos, distribui papéis coloridos ao seu redor: nas árvores, nos para-brisas, nas caixas de correio… E os pequenos poemas levam àquela gente a cor, o saber, o sabor da alegria.

2 de janeiro de 2012

O SANTO GULOSO

O santo guloso vai ser publicado ainda este mês.

Há mais de 500 anos, a região de Santa Maria da Feira foi assolada por um surto de peste que dizimou parte da população. Em troca de proteção, o povo prometeu oferecer a S. Sebastião um pão doce chamado fogaça. Quando a população deixou de cumprir a promessa, a peste voltou a matar muita gente. Desde então, a promessa é cumprida anualmente, na Festa das Fogaceiras, dia 20 de janeiro, com a tradicional procissão.
O santo guloso é uma fábula que recria esta história verídica e, como todas as fábulas, encerra uma moral: o prometido é devido e as promessas têm de ser cumpridas, sob pena de fortes castigos.

30 de dezembro de 2011

MICROCONTOS

Desafiada pela escritora Margarida Fonseca Santos a redigir pequeníssimos contos com, exatamente, 77 palavras, reduzi dois, escritos anteriormente, sofri muito e eis o resultado publicado aqui:

1.
Sento-me, desenho e vislumbro o Sena que desliza ao som de acordeões. A Noite quer entrar. Traja um vestido de veludo negro estrelado. Como reparou em mim?
- Desenha-me – pede.
Hoje, veio sozinha sem a inseparável amiga Lua.
Desenho-a, timidamente. Traço a traço.
- Está lindo! Nunca me pintaram com tanta perfeição.
A Manhã chega, estremunhada. A Noite vai partir.
Adoro este vigésimo andar. Fica afastado da rua mas perto do céu. Aqui, a Noite chega primeiro.


2.
Marci é simpático, meigo, desengonçado. Observa tudo ao redor, com os três olhos bem abertos. As longas antenas captam sons da casa e da rua: música a tocar, gente a falar, carros a buzinar. Mas não está confortável onde o alojaram. O dono cresceu, já não dorme naquele quarto tão arrumado. Marci sente-se só, enjoado.
Quer brincar, não tem com quem.
Quer conversar, não há ninguém.
Quer ver mundo, sair. Que tristeza! Não mais se poderá divertir?

29 de dezembro de 2011

LIVROS COLETIVOS

Por convite da Rede de Bibliotecas de S. João da Madeira, dei início a um conto que as escolas continuaram e ilustraram. O resultado final é um livro onde constam as várias estórias surgidas do mesmo início: Maria é uma criança que sonha ser uma bailarina famosa. E dança, dança, dança...


Eva Cruz e Josias Gil foram, também, autores convidados que iniciaram outras estórias.

28 de dezembro de 2011

O SANTO GULOSO

Parece que é desta que um novo livro vai surgir. O santo guloso está nas mãos da Helena Veloso que trabalha a toda a velocidade para acabar as ilustrações. Por enquanto, fica uma imagem para aguçar o apetite (literalmente!!!).

24 de outubro de 2011

LIVROS COLETIVOS

A pedido da Rede de Bibliotecas Escolares de S. João da Madeira, iniciei um conto que circulou pelas escolas do concelho e, ideia a ideia, frase a frase, desenho a desenho, o conto foi ganhando várias formas, conforme as escolas por onde passou. O resultado está exposto no Centro Comercial 8ª Avenida onde decorreu, hoje, a cerimónia de inauguração.













"TRAMBOLHÃO NO PASSADO" - MENÇÃO HONROSA


Em parceria com alunos, escrevi o conto intitulado Trambolhão no passado que foi enviado para o concurso Grande C, em maio de 2011. Publicados os resultados no final de setembro, tivemos uma agradável surpresa quando soubemos que o conto tinha ganho uma menção honrosa. O prémio foi entregue em Cascais, durante a festa do Grande C, onde os alunos puderam conviver com imensas pessoas conhecidas ligadas às artes: atores, músicos, realizadores, escritores.

O conto é uma aventura vivida na época das invasões francesas, quando as tropas francesas atacaram Arrifana durante a noite e deixaram a povoçã0 a arder.

4 de outubro de 2011

AS MINHAS VIAGENS

Agosto 2011






É a magia… *
… dos dias de calor mesmo quando chove;
…. da alegria e do ritmo nos corpos de chocolate;
… da autenticidade de um povo hospitaleiro e genuíno, apesar da vida agreste;
…. da adrenalina que sobe à medida que as moto4 agridem a areia e avassalam as dunas;
… de uma paisagem lunar quando, do alto das dunas, se avistam quilómetros de praia branca;
… do marulhar de um mar que não se quer cansar e traz ondas folionas;
… da nuvem teimosa que não foi convidada mas vem e molha quem brinca na areia;
… dos ventos alísios, brincalhões.
… do sol que se deita e convida a um mergulho nas águas tépidas do mar que o acolhe e se torna dourado;
… do dia que acaba e da noite que vem vestida de festa;
… do jantar engolido porque a festa já está à espera;
… dos paladares da cachupa e da lagosta;
… das noites animadas, aquecidas pelo grogue e pela música que se começa a ouvir mal chegam as primeiras sombras;
- das músicas de ritmos diferentes: lento e quente das mornas; enérgico do kuduro; sensual do funaná;
… dos corpos molhados, moldados pelas t-shirts suadas;
… das estrelas que dão brilho à noite escura;
… da morabeza distribuída gratuitamente;
… da Boa Vista, ilha num arquipélago onde a pressa não entra. Porque, em Cabo Verde, no stress!



*Texto publicado na revista Fugas, suplemento do jornal Público, no dia 29 de outubro de 2011.