25 de abril de 2021

INFÂNCIA


Infância, lá longe! 

Brincar na rua, saltar à corda na terra estafada, trincar a amora madura colhida na silva atrevida. 

E o verão preguiçoso prolonga-se no tempo.


2 de abril de 2021

ABRIL TRAZ DENTRO A LIBERDADE

 Há um ano, comecei a escrever neste espaço, nesta casa que, agora, sinto como minha. E o meu segundo texto publicado aqui teve Abril como tema. Um ano depois, repito o tema. Abril nunca se esgota. Abril tem dentro dele a liberdade.

Há 47 anos, em abril, conquistou-se a liberdade em Portugal, após um regime de ditadura que durou 48 anos. E, só aí, me apercebi, efetivamente, que ela existia. Era eu uma criança com 13 anos, sem nada saber do mundo. 

Antes do dia 25 de abril de 1974, vivia no meu pequeno meio, rodeada de irmãs, primas e primos e divertíamo-nos, supúnhamos, livremente. Sem nunca ter ouvido a palavra liberdade. Sem imaginar, sequer, que essa palavra era proibida. Sem sentir que não a tínhamos. 

Na escola não se falava disso, claro! A escola servia o poder reinante. Tudo o que interessava que soubéssemos era memorizado. E, se não fosse naturalmente memorizado, a impiedosa palmatória tratava do assunto. No manual único, aprendíamos o português, a história, a geografia, a matemática e a doutrina cristã. No mapa, apontávamos as serras, os rios e os caminhos de ferro. Ensinavam-nos a bordar, a coser botões, a tricotar. Mas não nos ensinavam a descobrir, nem a pensar, muito menos a contestar. 

Em casa, também não se falava disso, apesar de algumas tentativas. Havia um disco de Zeca Afonso que o meu pai nos proibiu de ouvir. Porquê? Veio uma resposta lacónica. 

Quando umas amigas (deduzi, mais tarde, que a família estaria envolvida, clandestinamente, com o partido comunista) disseram que a professora de Educação Visual era da PIDE, não percebi. Em casa, questionei a mãe. Veio uma resposta lacónica.

As minhas leituras de então levavam-me a mundos de aventuras e de grandes paixonetas. Divertiam-me e apaixonavam-me, mas não me ensinavam nada da vida real e, muito menos, de política. 

Vivíamos encarcerados numa sociedade onde prevaleciam o obscurantismo, o preconceito e a falta de direitos. Onde o medo existia porque o perigo de uma denúncia espreitava em todas as esquinas. Mas eu só tinha 13 anos e o meu mundinho era dourado! E não imaginava que alguém lutava e sofria para que a liberdade chegasse um dia e fizesse o país recuperar os sorrisos. 

Portanto, o meu pequeno mundo de ignorância continuou até à Revolução. 

Não posso esquecer a sensação de ver, na televisão, a libertação dos presos políticos e, pela primeira vez, ouvir testemunhos das atrocidades que lhes fizeram nas prisões. 

Não posso esquecer o ambiente eletrizante vivido no Liceu de S. João da Madeira que eu frequentava nessa altura. E houve professores que foram mesmo destituídos por estarem ligados ao regime fascista e que viram as suas vidas viradas do avesso de um dia para o outro. 

O dia 26 de abril de 1974 foi um dia diferente. Respirava-se outro ar. Havia uma sensação de alívio e de libertação. Havia gritos de alegria. Até no vocabulário. Lembro-me de uma amiga dizer o que, na altura, era um palavrão impensável de se dizer em voz alta: “Agora já podemos dizer merda!”.

Bonitas eram as palavras novas que começaram a entrar no léxico de quem as desconhecia, como eu, inocente e ignorante das coisas do mundo. Palavras cheias de sonoridades, de significados, de poesia. Liberdade. Democracia. Direitos. Fim da guerra colonial. 

E, só no ano seguinte, na escola, comecei as leituras que me fizeram abrir os olhos e a mente. Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, e Constantino, guardador de vacas e de sonhos, de Alves Redol, foram os primeiros livros que me fizeram mergulhar na realidade portuguesa e refletir sobre as desigualdades sociais. Até esse momento, nunca me tinha questionado por que motivo as minhas colegas da escola não tinham continuado os estudos comigo, sobretudo a melhor aluna da turma, que fora trabalhar numa fábrica, com dez anos. Até esse momento, não me questionava sobre nada. Mas, a liberdade recém-conquistada permitiu chegar às estantes os livros proibidos e esses permitiram-nos aprender a refletir e a questionar, a criticar e a contestar. Os discos proibidos também puderam ser colocados na aparelhagem e ouvidos. E as canções de Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira, Pedro Barroso, Ary dos Santos cantava-as eu em alta voz. Finalmente, tinha percebido o quanto "fazia falta avisar a malta". 

A Revolução tinha chegado. O país começara a mudar. E, finalmente, os sonhos em incubação começaram a tomar forma. O amanhã já não era longe demais.

texto publicado na revista online "A casa do João"


7 de março de 2021

INCÊNDIO


Não é preciso um fósforo para atear o incêndio. 

Em fogo lento, arde a cidade. 

Bastou uma sílaba acesa: flor.






6 de março de 2021

A LITERATURA É UMA FORMA DE ENCANTAR

"Tudo é poetável, desde o amor, passando pelo arroz de tomate, ou às ervilhas com ovos escalfados” disse a poetisa Ana Luísa Amaral, numa entrevista ao JN, em 2015.

É um facto. Dentro de um mesmo texto podem coabitar a ficção e a realidade, o concreto e o imaginário, a prosa e a poesia. Tudo depende da forma como o escritor escreve o que vê e o que sente. O escritor tem um olhar diferente e uma diferente forma de sentir. O escritor “não pode olhar para onde toda a gente está a olhar, mas para o outro lado.”, escreveu Gonçalo M. Tavares.

Através do olhar de um escritor, uma pessoa comum pode originar uma personagem fantástica; um acontecimento banal, ocorrido num dia banal, pode originar uma ação empolgante que deixa o leitor expectante com pressa de chegar à conclusão. E, se o fim for inesperado, melhor ainda, vai fazer com que o leitor estremeça, se questione, chore, ria, se revolte, se deixe enovelar em múltiplas emoções e, sobretudo, que fique inquieto e queira mais.

A literatura é isso mesmo, uma forma de encantar. É um olhar, um sentir com todos os sentidos e perspetivar a vida e o mundo de uma outra forma. Não a do ser humano comum que se cruza com a realidade, ficando, muitas vezes, indiferente ou, quando muito, impressionado durante alguns instantes passageiros, mas a do escritor que se cruza com a realidade e a reconta. À sua maneira, é certo, mas de forma a abanar consciências, a chamar a atenção, como se as palavras fossem gritos dados no silêncio das páginas. Porque o escritor tem essa obrigação (missão? poder?): desassossegar.E foi isso que pretendi (passo a imodéstia) com os contos que fazem parte do meu último livro Os dias são assim. Com grande crueza, se denuncia o fim das coisas e das pessoas nos contos “Fim” ou “D. Cármen Garcia, a bruxa que odiava crianças”. Em “Um Porto de vários sabores“, “Vidas” e “O muro” há pedidos de socorro que não foram ouvidos porque a sociedade, surda e cega, parece fazer questão de ficar muda.

A literatura tem um poder enorme. Não o poder de mudar o mundo, pois, se assim fosse, talvez o mundo fosse perfeito. O seu poder consiste em provocar, revolucionar o pensamento, não deixar esquecer e proteger-nos da tirania e da estupidez através do conhecimento.

Não é por acaso que “Os governos suspeitam da literatura porque é uma força que lhes escapa.”, escreveu o escritor francês Emile Zola.

texto publicado na revista online "A casa do João"

19 de fevereiro de 2021

COM REALISMO

Vivo sempre no presente, pois claro! Com realismo, pés na terra e cabeça bem firme em cima dos ombros.

O futuro, não o conheço. Por isso mesmo, não vale a pena antecipá-lo, nem tentar imaginar o que será. O que for virá. Quero, no entanto, estar cá para o receber.

O passado, já o não tenho. Foi-se. Não que quisesse vê-lo fugir. Antes pelo contrário! Com ele foram-se grandes momentos e as memórias começam a esfumar-se. Lamentavelmente!

Desafio nº 233 – citação de Fernando Pessoa

13 de fevereiro de 2021

1 de fevereiro de 2021

31 de janeiro de 2021

O HOLOCAUSTO NA LITERATURA

 Texto escrito para a revista online A Casa do João.


27 de janeiro, dia do aniversário da libertação do Campo de Concentração e Extermínio Nazi de Auschwitz-Birkenau, é dia de lembrar que milhares de pessoas foram vítimas da intolerância levada a extremos.

Uma data que não deveria existir. No entanto, o Holocausto existiu. E, por ter existido, não pode ser esquecido. Não lembrar o passado é um passo para o repetir.

Foram assassinadas milhões de pessoas em nome da pureza da raça ariana, vítimas da sofreguidão de um homem. Hitler chegou ao poder legitimamente com promessas que convenceram. E destruiu a Europa.

Analisando o estado do mundo atual, tudo leva a crer que a História se pode repetir. Os ditadores andam aí, mais ou menos disfarçados de salvadores da pátria, e a enorme crise, desencadeada por uma situação de pandemia, faz os mais crentes (leia-se ingénuos, ignorantes, ou simplesmente cansados da política e dos políticos) acreditarem que, realmente, irão mudar o mundo assim que chegarem ao poder. Engano perigoso!

Há uma urgência em criar mais humanidade. O Holocausto é o exemplo de um período negro de desumanidade, de atrocidades, de violações constantes dos direitos humanos. Um exemplo que gente de bem não quer repetir. O Holocausto existiu. Não foi inventado por escritores nem por realizadores.

Sempre acreditei que a literatura, e as artes em geral, a par da História, poderiam humanizar o Mundo. E continuo a acreditar. Mas, para isso acontecer, teriam de ser “consumidas” por todos.

Costumo dizer aos meus alunos que toda a gente, sem exceção, deveria ler, pelo menos, um livro sobre o Holocausto. E visitar os campos de concentração na Polónia. Para perceber o que se passou. Para saber o que é ter, verdadeiramente, fome, sede e frio. E saudade! Para saber o que é estar doente e não ter direito nem a assistência médica nem a medicamentos. Para sentir os maus odores. Para sentir a dor da separação, do cativeiro e da tortura. Para sentir o desespero e o medo. Para se lembrar que, mais do que nunca, se torna necessário combater o antissemitismo, o racismo e quaisquer outras formas de intolerância que possam levar à violência. Para não seguir discursos de extremistas que apenas conduzirão, mais tarde ou mais cedo, à destruição da democracia e da paz.

Para isso, e na impossibilidade de viajar, é preciso ler. Os livros dedicados ao tema do Holocausto levam-nos a um passado recente de terror, de barbárie e desumanidade. Lendo-os, temos a obrigação de aprender e impedir que a História se repita.

Os livros e filmes que abordam o tema do Holocausto são muitos e têm vindo a proliferar. Todos chocantes. Todos emocionantes. Todos capazes de levar à reflexão. Todos bons exemplos daquilo que não se deve repetir. Nunca mais!

De entre tantos, saliento e aconselho quatro autores que têm escrito recorrentemente sobre o Holocausto:

Primo Levi participou na Resistência, foi preso e internado no campo de concentração de Auschwitz. Notabilizou-se pela autoria de vários livros sobre a experiência naqueles campos, uma experiência que o marcou profundamente. De acordo com as suas próprias palavras, o seu símbolo “é a tatuagem que até hoje trago no braço: o meu nome de quando não tinha nome, o número 174517. Marcou-me, mas não me tirou o desejo de viver. Aumentou-o, porque conferiu uma finalidade à minha vida, a de dar testemunho, para que nada semelhante alguma vez volte a acontecer. É esta a finalidade que têm os meus livros.»

Entre os seus títulos encontram-se Se isto é um homem, Assim foi Auschwitz, escrito com Leonardo De Benedetti, Se Não Agora, Quando?, Os Que Sucumbem e os Que Se Salvam.

Morris Gleitzman (o seu site pode ser consultado em https://www.morrisgleitzman.com/) é um autor com vários livros cujo tema é o Holocausto. Um dia, Em breve, Depois, A seguir, Talvez são cinco dos títulos publicados e dirigidos a um público juvenil para que entenda os horrores da guerra.

João Pinto Coelho, um autor português, e um dos vencedores do prémio Leya, também se tem dedicado ao tema do Holocausto através de uma visão original e criativa. O seu último livro Um tempo a fingir, foi publicado recentemente e vem na sequência dos anteriores Perguntem a Sarah Gross e Os loucos da rua Mazur.

Ilse Losa nasceu na Alemanha. Por ser judia, viu-se forçada a sair do seu país pelo que se refugiou em Portugal, onde casou, adquirindo a nacionalidade portuguesa.

O mundo em que vivi, Rio sem ponte, Sob céus estranhos, e alguns contos integrados em Caminhos sem destino são as obras publicadas que retratam o Holocausto.

Para concluir, e como é de pequenino que se aprende, destaco o meu livro de eleição, dirigido a um público infantil, aquele que não me canso de ler aos meus alunos, tenham eles a idade que tiverem, aquele que me embarga a voz e me humedece os olhos sempre que o leio, aquele que deveria estar em destaque em todas as bibliotecas do mundo: Fumo, de Antón Fortes, com belíssimas e intensas ilustrações de Joanna Concejo, da editora OQO.


30 de janeiro de 2021

LER NUMAS QUANTAS PALAVRAS

Vai valer a pena partir aceleradamente, com todos os sentidos alerta, e descobrir o mundo.

Viajar numa galera, mar afora.

Explorar galerias labirínticas por entre rochas e grutas.

Voar pelos ares numa vassoura mágica.

Perder-se por aí, sentir cores e sabores, sons e ritmos.

Ouvir os silêncios. E até alguns gritos.

Descobrir a beleza das histórias. Ler. Reler

A solidão é intolerável. Os livros têm gente dentro, trazem o mundo para dentro de cada um de nós.

Desafio nº 232 – 8 vezes LER