30 de dezembro de 2020

A ZANGA DO Z

O Z zangou-se. E a vingança foi terrível. Instaurou uma ditadura no alfabeto e, na tomada de posse, declarou:

- O S e o X roubaram-me! Avizo que, desde hoje, só passará no ezame quem me uzar como mereço. Não quero zaragatas! Nem zangas! Nem surprezas! Quero ezibir-me com êzito! Mostrar toda a minha beleza! Quem zelar pela ordem será um bom ezemplo e ezaltado nos melhores prontuários. Os outros? Azar! Irão bazar para o ezílio! Em ziguezague!

"Desafia-te", Re-word-it: “O Z acha que ninguém lhe liga”




14 de novembro de 2020

E TODAS AS DESCULPAS SÃO BOAS PARA LER!

É noite. Fecho os olhos para melhor ouvir quem me chama. E há uma chamada que me inquieta, um desejo que não sossega e teima em ficar.

São os livros que, nas estantes onde moram, anunciam vidas.

Há gritos e sussurros. Há lágrimas e gargalhadas. Há todo um mundo lá dentro.

Eles têm tanto para contar! E como é bom ter tantas vozes para ouvir e com quem dialogar.

E todas as desculpas são boas para ler!

7 de setembro de 2020

VALEU A PENA

Era o último. Vira os companheiros sumirem-se, um a um, durante vários dias. Vivia fechado, sem liberdade, mas antes isso do que a morte.

Chegou o dia. A caixa abriu-se e ele ali, só, olhava as mãos que o iriam destruir. 

Valeu a pena. Deu a vida para acender a vela que iluminou o escritor enquanto escrevia o seu melhor romance. 

Lá fora, a tempestade rugia. Sem luz elétrica, o escritor sorria, iluminado por uma chama incandescente.

Desafio nº 218 - texto sugerido pela imagem


19 de agosto de 2020

UM VERÃO INVULGAR

Que se lixe 2020, o ano que já deveria ter "passado à História"!

Numa altura em que já toda a gente "trepava pelas paredes" e "arrancava cabelos", eis que chega o verão e as tão desejadas férias para nos pormos à "sombra da bananeira". Mas, todo o cuidado continua a ser pouco. Então, marcam-se ou não se marcam as tão desejadas férias fora de casa? E lá fica toda a gente "de pé atrás", "a torcer o nariz", na dúvida se deve ou não deve sair. 

É preciso "andar na linha" que o bicho morde! Mas, "perdido por cem, perdido por mil"! Vamos "abrir mão" de uma oportunidade de apanhar sol estendidos na praia, de mergulhar entre peixes e moluscos, de "comer do bom e do melhor" sem ter de cozinhar…? No way!!! "Tire-se o cavalinho da chuva"! Já se anda a "bater na mesma tecla" há muitos meses!!! Há que "fazer orelhas moucas" e "vista grossa" e agarrar o verão "com unhas e dentes". 

As pessoas querem "soltar a franga", é um direito! E, quem "se armou até aos dentes", com gel desinfetante e máscaras, e partiu, muito se admirou, sobretudo quem partiu cedo. Se, em anos anteriores, entrar em certas praias portuguesas era como "meter o Rossio na Betesga", este ano sobrava areia!

Ora, então, "façamos o balanço" da situação: para quem partiu de férias e se divertiu, esses dias são "favas contadas". Quem hesitou e ficou em casa "a ver navios", vai ter, possivelmente, "dor de cotovelo" dos ousados (ou inconscientes, vá-se lá saber!).

"Uma mão lava a outra" e as duas sacodem o vírus! Esperemos, apenas, que ninguém tenha "metido a pata na poça" e que quem "andou à chuva" não se tenha molhado!


6 de agosto de 2020

HÁ DIAS COM SABOR A VERÃO

Em março, foi apresentado ao público o meu último livro intitulado Os dias são assim. Cinco meses depois, os dias continuam assim, uns mais apetecíveis, outros menos.

Hoje, foi um dia assim. 

Um dia de abrir as portadas e dar os bons dias ao sol. De encher as tostas com compota e saborear o leite frio. De trincar a fruta preferida. De aterrar num cantinho do paraíso. De encher os pulmões com o ar do mar. De mergulhar entre algas, peixes, caranguejos e mexilhões partilhando o seu reino. De observar as idas e vindas das marés que, nas suas viagens, transfiguram a praia. De apreciar o voo louco das gaivotas. De respirar à sombra de uma árvore. De sentir a brisa a soprar. De cheirar a infância nos odores da mata. De passear um livro. De beber poesia na esplanada de um café. De lamber o gelado a derreter. De ver as horas a passar lentamente. De deixar o dia andar devagar. De saber esperar. De absorver a paz da noite que, entretanto, trouxe o silêncio.

Hoje, foi dia de ficar quieta a ser feliz.

Há dias assim, com sabor a verão.




3 de agosto de 2020

"UM MILAGRE GUARDADO NA ESPERANÇA"

Já tinha perdido a conta. Já não sabia quantas vezes fora ignorado, humilhado, maltratado.

Desde que começara a frequentar a escola.

Desde que começara a procurar emprego para o qual se formara.

Desde que decidira confrontar o mundo com a namorada branca.

Desde que deixara de ignorar os abusos.

- Igualdade! - foi o grito interior de Tomé, já sem forças para respirar. Mas, antes do último suspiro, ainda conseguiu balbuciar: a igualdade é "um milagre guardado na esperança".

Desafio 212 ― Frase de Valter Hugo Mãe

30 de julho de 2020

E AGORA?

 O teste deu positivo! E agora?

Agora tinha um caso bicudo para resolver.

Como iria dar a notícia ao seu pequeno mundo, tão fechado, onde se guardavam todas as distâncias? Como foi possível ter-se deixado cair em tentação?  Como se esquecera dos votos?

Não resistira a uns insinuantes olhos azuis, nem a umas mãos maliciosas entranhadas nos seus longos cabelos. Estremeceu.

E agora?

Iria deixar cair a máscara de santa e ficar com a criança nas mãos.

Desafio nº 215 - 7 palavras obrigatórias


21 de julho de 2020

Ano 2020

Número duplamente par.

Número redondo.

Número sonante, aliterado. 

2020 tinha tudo para ser um ano perfeito.

No entanto, não só não está a ser perfeito (e meio ano já está passado!), como se cobriu de feias cicatrizes (acho que não há cicatrizes bonitas!).

O Coronavírus transporta consigo um conjunto de mazelas que, dificilmente, passarão e deixarão marcas profundas na sociedade.

A saúde ficou comprometida. A economia ficou de rastos. As aulas à distância, cansativas, pouco produtivas, deixaram as escolas viradas do avesso. As paciências e tolerâncias esgotaram-se. Penso que, neste momento, já ninguém tem fé no “vai ficar tudo bem”.

As máscaras tornaram-se um acessório de moda obrigatório. Na rua, nas lojas, as pessoas parecem cães açaimados. Já não há sorrisos. Não se veem!

No meio de tantas mortes, este foi o ano da morte de gente que me toca particularmente. Os escritores Luís Sepúlveda, Carlos Ruiz Zafon, Rubem Fonseca. Os atores (tão jovens!) Filipe Duarte e Pedro Lima. O amigo Carlos Faria.

Este foi o ano do lançamento do meu último livro, Os dias são assim. E os dias ficaram assim, a partir de 13 de março. Parados, sem gente nas ruas, sem gente nas escolas, sem gente nos espaços culturais. Como tal, o livro teve o primeiro lançamento e as sessões marcadas que se seguiriam foram canceladas. Frustração!

Julho a acabar e as cicatrizes continuam. Filha em layoff. Marido com um episódio de amnésia global transitória passa um dia no hospital. Dia de stress e, sabe-se lá, quantos mais dias de stress virão à espera de novos episódios!

E tantos outros dias à espera, na indecisão do que será o próximo ano letivo. Setembro aproxima-se e todos estão conscientes das dificuldades e das provações que aí vêm.

Férias marcadas, mas cheias de restrições.

Adivinha-se um reforço da pandemia no outono.

A primavera não se sentiu e o verão…. Veremos!

O mundo precisava urgentemente de tomar o rumo da solidariedade, da igualdade e da inclusão. Veio uma pandemia à escala mundial e as diferenças acentuaram-se assustadoramente. 

Um ano que tinha tudo para ser perfeito tornou-se um Frankenstein medonho que todos querem eliminar das suas vidas. Gostaria de ter um corretor bem possante que o apagasse. Porque não há antirrugas que lhe disfarcem as cicatrizes.


12 de julho de 2020

DESENRAIZADA

Gemeu quando a cortaram, mas os seus gemidos foram em vão. Ninguém a ouviu (ou ninguém a quis ouvir!). O destino estava traçado e, em breve, a árvore seria uma peça de mobiliário ou o chão de uma casa qualquer.

Então, ousou sonhar. Não queria que lhe matassem a alma e só haveria uma forma de continuar viva. Desenraizada da terra, desejou ser transformada num barco. Enraizar-se-ia no mar, viajaria, veria mundo e poderia continuar a sorrir.