O meu marido sempre foi duro de ouvido, quer para cantar, quer para línguas estrangeiras.
Fomos de férias para o sul de Espanha e passámos uma noite num hotel, em Sevilha, onde jantámos.
Na hora de pagar, disse-lhe a rececionista:
- Tu tienes una cena…
- Cena???? Não houve cena nenhuma. A minha mulher deitou-se e dormiu toda a noite…
- Como asi???
De longe, apercebi-me da atrapalhação de ambos. Às gargalhadas, gritei-lhe:
- O jantar de ontem! É para pagar!
25 de junho de 2017
14 de junho de 2017
DESCONCERTO
Acordou com o sonho bem presente. O céu era uma pauta onde bailavam as nuvens cinzentas transformadas em notas musicais. O mundo tornara-se numa orquestra. Um afinado concerto, sob a alegre batuta do maestro, muito alinhado, transmitia harmonia.
Agora, desperta, olha a realidade. A loucura instalada, o bom senso desinstalado.
Como sentir paz neste mundo desafinado?
Como viver neste desconcerto?
Como suportar a desarmonia dos dias?
Tudo tão desalinhado!
Tantos sonhos descosidos querem, urgentemente, ser novamente cosidos.
12 de junho de 2017
SOBRE “O HOMEM PARTIDO”
Escreveu Raul Brandão:
“Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior
escondido.”
A Casa da Criatividade
abriu as suas portas, neste domingo 11 de junho, para o provar.
Pequenos talentos
soltaram toda a sua energia e descontração para dar uma grande lição aos
adultos. E, de facto, só as crianças, com toda a sua naturalidade e
espontaneidade conseguem mostrar que a vida deveria ser “olho por olho, dentro
por dentro”.
“O homem partido” é
mais do que uma peça de teatro interpretada por crianças. É um convite (que
poderia ser convocatória!) a que cada um seja “bicho do mato, ou extrovertido
ou os dois em diferentes tempos”, porque o mundo irá, certamente,
identificar-se com cada um, segundo as palavras do poeta sanjoanense Fábio
Silva, que colaborou com um texto poético seu, incluído no texto dramático.
“O homem partido” é um
olhar profundo sobre as pessoas, é uma entrada triunfal no mais fundo de cada um,
é uma saída terramoto que tremeu consciências.
Enquanto espetadora, senti-me fortemente abalada pelo impacto. Mas, ao contrário do esperado em
situações de catástrofes naturais, não quis fugir em busca de proteção. Quis
ficar ali, a absorver cada palavra dita, cada momento vivido e sentido pelos
pequenos-grandes atores que tão bem olharam por dentro a sociedade em que
vivem, uma sociedade cheia de estereótipos, de preconceitos, de olhares
cruzados, críticos, mordazes, mesquinhos.
O homem partido não
é aquele que não tem um braço ou uma perna. O homem partido é aquele que vive
pela metade.
Porque o ciúme, a
inveja, a maledicência, a falsidade e o pessimismo existem.
Porque há gente
cinzenta que não vê o colorido do vizinho.
Porque há gente que só
olha para si e não vê quem se senta ao pé de si, numa mesa de café ou em
qualquer outro lugar público.
Porque há gente que se
acomoda e não se levanta para ajudar aquele que caiu ao seu lado.
Porque há gente que
não acredita.
Mas, também, porque há
gente diferente (diferente?!) que só quer uma palavra amiga, nem que para isso
tenha de recorrer a uma peúga abandonada e transformá-la em fantoche.
Porque há gente
curiosa que só quer respostas que a sosseguem.
Porque há gente que,
aparentemente, nada tem e, afinal, tem tanto para dar.
Porque há gente.
E porque há gente, o preconceito, existe, é um facto.
E porque há gente, o
preconceito deve ser combatido, destruído e abolido.
E foi contra o
preconceito que os Ecos Urbanos lutaram, neste projeto nascido do zero, com
palavras escritas pelo próprio grupo “Oficina de
artistas”, com uma interpretação fantástica e uma magnífica encenação de
Mariana Amorim e Mafalda Tavares, e deram resposta ao repto “Olhem para
estranhos. Olhar de ver com curiosidade e de lhes descobrir os traços”. Um
projeto de um grupo que acredita em cada um, que tem paixão pelo ser humano e
que convidou toda a plateia a olhar mais para dentro e menos para fora, a
despir a máscara que deverá ficar circunscrita ao teatro, não à vida diária.
E a mensagem passou,
tiro certeiro disparado ao coração, através das palavras do brasileiro Chico Xavier:
“A gente pode morar
numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e
até ter um governo mais ou menos. A gente pode dormir numa cama mais ou menos,
comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser
obrigado a acreditar mais ou menos no futuro. A gente pode olhar em volta e
sentir que tudo está mais ou menos...
TUDO BEM!
O que a gente não pode
mesmo, nunca, de jeito nenhum... é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos,
ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e
acreditar mais ou menos.
Senão a gente corre o
risco de se tornar uma pessoa mais ou menos.”
Parabéns, “Oficina de
artistas” dos Ecos Urbanos, por terem feito eco para não deixarem os adultos serem
pessoas mais ou menos. Só pessoas por inteiro fazem a mudança.
10 de junho de 2017
"LETRAS INCLUSIVAS"
Hoje, no Mosaico Social, em Arrifana, foi apresentado o projeto interdisciplinar "Letras inclusivas", a partir do meu livro O santo guloso.
A equipa da Educação Especial do agrupamento de escolas Coelho e Castro, Fiães fez um trabalho espetacular com os alunos. A partir da história original, na revista hoje apresentada, surgem quadras a recontá-la, trava-línguas, palavras cruzadas, uma história em 77 palavras, a receita da fogaça, ilustração...
2 de junho de 2017
CRISÂNTEMOS
Balouço no bolso do avental de Odete que caminha apressada, abraçada ao molho de flores acabadas de colher. Crisântemos. Não sabe porquê, mas sempre foi apaixonada por eles. Coloca-os na jarra e guarda apenas um, vermelho, para pô-lo ao peito. O jantar vai ser de cerimónia, quer estar bonita. Eu ajudarei, prendendo o crisântemo. Eu, um alfinete inútil! A flor fará sobressair o decote. O decote fará entrever uns seios de seda. Ele declarar-se-á, finalmente. Espera ela!
15 de maio de 2017
"OPERAÇÃO" FÁTIMA
Eduarda espanta-se. Não se lembra de ver muitas das suas amigas dirigirem-se regularmente a um local de prece. Porém, fotos públicas mostram-nas no meio da “operação” Fátima, repentinamente devotas.
Ela sabe que os tempos são de incerteza e de medo, de injustiça e de maldade. São tempos de provações. Mas, se o ser humano não acredita em si próprio nem no seu semelhante, como irá a Humanidade mudar e melhorar se espera o milagre, silenciosa e pacientemente?
3 de maio de 2017
SEMANA CULTURAL DA UNIVERSIDADE SÉNIOR DE SANTA MARIA DA FEIRA
À imagem do ano passado, a Universidade Sénior de Santa Maria da Feira está a dinamizar a sua semana cultural com eventos espalhados pelos cafés e restaurantes da cidade, terminando na Biblioteca Municipal no dia 5 de maio.
E, à imagem do ano passado, fui convidada para estar presente numa sessão e registar o momento, com palavras. Coube-me a sessão dedicada aos anos 60. Não poderia ser melhor. Foi na década de 60 que nasci (inaugurei a década, pode-se dizer!) e abri os olhos para a vida.
No final, o texto ficou pronto. Transcrevo-o:
A máquina do tempo vai arrancar. A viagem vai
começar numa noite espiada pela lua em quarto crescente. Ao longe, o castelo
observa a Taberna do Xisto que, hoje, se transformou e misturou novos sabores,
de saberes cruzados.
Um, dois, três… Partida! Destino: anos 60. Cá
vamos nós!
Chegamos. Aterramos.
Em Portugal, cresce a desilusão perante um regime
ditatorial.
Depois de uma guerra mundial, cresce a revolta
perante uma guerra colonial.
Cresce a frustração.
Cresce a contestação contra um Estado parado,
vazio, alheado do mundo onde grassa a desigualdade.
“Mas há sempre alguém que resiste, há sempre
alguém que diz não”. Não à ditadura, não à ignorância, não a qualquer forma de
tirania. E muitas foram as formas de dizer não. Com palavras de contestação,
mas forradas de poesia. Com pincéis e tintas (por vezes mais eloquentes do que
as palavras). Com música interventiva mais certeira do que balas no combate à
injustiça. Com a moda provocatória. Com danças energéticas. Com manifestações
hippies num colorido e relaxado festival Woodstock. “All we need is love”, “Peace
and love”, “Make peace not war” são gritos de paz porque a guerra não é
bem-vinda. Nem hoje, nem amanhã. Nem nunca!
“Quantos caminhos tem um homem de percorrer para
que lhe chamem homem? Quantos anos podem alguns existir antes que lhes seja
permitida a liberdade?” Perguntas feitas pelo recém Nobel da Literatura Bob
Dylan. Muitos caminhos foram percorridos e muitos anos passaram para que a
liberdade nos fosse permitida.
Hoje, aqui e agora, viveram-se momentos
impossíveis de serem vividos sem liberdade, esse bem precioso que nos permite
respirar, correr e gritar aos quatro ventos. E esta gente da Universidade Sénior
de Santa Maria da Feira correu, cantou, dançou para trazer até nós uma época tão
rica em cultura, apesar de, ou, talvez, devido à ditadura e à consequente contestação.
Monstros consagrados vieram até à Taberna trazendo na bagagem o seu saber.
Cinquenta décadas depois, vivemos dias frenéticos,
mas, hoje, não fomos derrotados pela pressa, derrotamos a pressa. Revivemos
momentos. E nem foram precisos charros nem máscaras. Porque há gente que sempre
lutou e gente que continua a lutar, contra ventos e marés. Assim, deixo a minha
homenagem a todos, eles e elas, gente da Universidade Sénior, num texto à moda
de Ana Hatherly, mulher da cultura portuguesa em destaque nos anos 60.
Esta Gente
O que é preciso é gente
gente com garra
gente que tenha garra
que mostre a garra
O que é preciso é gente
gente com garra
gente que tenha garra
que mostre a garra
O que é preciso é gente
gente que não seja malevolente
nem indolente
nem insolente
nem prepotente
mas, sim, gente polivalente
nem indolente
nem insolente
nem prepotente
mas, sim, gente polivalente
RESILIENTE
O que é preciso
é gente
gente com mentes sãs
mesmo que carreguem algumas cãs
gente com alma sadia
gente com alma sadia
que não viva uma vida vazia
O que é preciso é gente
que espicace toda essa gente
que, dominada pela indolência,
não é gente
como esta gente
que não se deixa dominar por gente
INDIFERENTE!
que, dominada pela indolência,
não é gente
como esta gente
que não se deixa dominar por gente
INDIFERENTE!
Gente que é gente
Vai à luta
Só assim sabe
que é gente
Gente que é
gente
Partilha o
saber
E, em todos os
seus gestos,
Esta gente dá
amor
Esta gente traz
palavras que têm cor
E todos os seus
gestos emanam calor
Esta gente solta freios
E mata os silêncios
alheios.25 de abril de 2017
NASCI CRAVO
Nasci flor. Vermelho em todo o seu esplendor. Discreta e sem vaidade, de suave odor mas com muita cor. Cor do amor.
Enchia campos, enchia jarras de cristal. Um tempo houve em que enchi espingardas. Calei-as, não cuspiram balas, nem deram coronhadas!
Então, o meu destino mudou. Agora, passeio-me nas lapelas, sou agitada como estandarte ao vento.
Nasci cravo mas não sou mais flor, já não vou murchar. Hoje, sou a liberdade, estou aqui para firmemente ficar.
HORA DO CONTO NA BIBLIOTECA DE FUNDO DE VILA
A convite da Junta de Freguesia de S. João da Madeira, levei o meu livro Do cinzento ao azul celeste aos alunos da escola EB1 de Fundo de Vila para uma hora de conto/conversa sobre os valores de abril. Depois da leitura e da conversa, ficou aberto caminho para a escrita. E foi assim que algumas crianças de segundo e terceiro anos definiram liberdade.
- "A liberdade é uma gaiola de portas abertas." . Gabriel
- "A liberdade é a escola que nos dá educação." - Maria Leonor
- "A liberdade é ter asas." - Edgar
- "A liberdade é a forma como concretizamos os nossos desejos e seguimos o nosso caminho a voar," Gabriel
- "A liberdade é um tempo feliz."
- "A liberdade é como uma flor aberta no jardim,"
- "A liberdade é a árvore que se alimenta da seiva" - Maria Leonor
- "A liberdade é ter tempo para ser feliz." Maria Leonor
- "A liberdade é como a flor a abrir com a paz." - Maria Leonor
- "A liberdade vem com o mar." Lara
- "Sem liberdade seríamos prisioneiros do tempo." Mariana
23 de abril de 2017
23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL DO LIVRO
Porque, hoje, é Dia Mundial do Livro e todos os dias são dias de leitura. "Faça da leitura uma causa de vida", o lema deste ano. Os meus livros talvez possam ajudar a lutar pela causa.
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