29 de agosto de 2016

RELAÇÃO COMPLICADA

Relação complicada, a deles. Hábitos enraizados, velhas manias, nenhum dos dois mudava. Ela afogava a raiva no piano (e nos chocolates!); ele lançava a fúria ao mar, na praia em horas desertas. E o mar ripostou. A garrafa chutada pela onda nervosa bateu-lhe nos pés molhados. Lá dentro, um papel. Leu: 
“Queres conhecer a felicidade? 
 Começa por te aperfeiçoares interiormente. Procura dentro de ti. Aprende a encontrar. Sê aquilo que buscas no outro. Cria. Sonha. Ousa mudar.”

"LEITURA QUASE INSTANTÂNEA"

Estas caixinhas mágicas são um projeto de Cristina Taquelim para as Palavras Andarilhas 2016.
Consiste num conjunto de microcontos, em 77 palavras, de vários autores entre os quais me encontro. São eles: Isabel Zambujal, Patrícia Reis, Susana Amorim, Inês Do Carmo, José Jorge Letria, Maria João Lopo Carvalho, Teresa Meireles, Ana Paula Oliveira, Isabel Mendes de Almeida, Alda Goncalves, Paula Isidoro, Elisabeth Oliveira Janeiro, Clara Lopes, Sandra Évora, Theo de Bakkere, Carla Silva, Maria Amélia Meireles, Paula Coelho Pais.

FEIRA DO LIVRO NA PRAIA DA VAGUEIRA - ENTREVISTA


Foi assim, na feira do Livro da Praia da Vagueira, na companhia de João Cunha Silva, com direito a entrevista que pode ser ouvida aqui:










11 de agosto de 2016

GASPEADEIRA DE SONHOS

Era uma aluna brilhante, a melhor da turma. Maria de Fátima gaspeava sonhos, mas o regime de ditadura rapidamente os descosia. E não adiantou o brilhantismo do exame da quarta classe. As suas mãozinhas infantis eram necessárias para fazer entrar o dinheiro que escasseava em casa. A escola só comportava gastos. 
E foi assim que se empregou numa fábrica de sapatos onde tem arrastado toda a sua vida. É gaspeadeira*. Gaspeia o calçado, já não os sonhos. 

*Gaspeadeira: operária que deita gáspeas em calçado
Gáspea: parte dianteira do rosto do calçado que cobre o pé, e é cosida, à maneira de remendo, à parte posterior.  

8 de agosto de 2016

CLUBE DE LEITURA DE JULHO


A última sessão do Clube de Leitura, no dia 22 de julho, iniciou com a leitura do meu conto "Palavras à solta". Este pequeno conto, onde a pequena Alice descobriu a magia das palavras numa ida com a mãe a uma livraria, está inserido no livro Papá, só mais uma... e resulta dos contos vencedores do concurso "Papá, só mais uma... 2015", com seis autores.
De seguida, passou-se discussão sobre a obra Vamos comprar um poeta de Afonso Cruz. O livro que aparentemente  parece ser um conto da literatura infantojuvenil tem uma mensagem bastante mais profunda. Retrata a atualidade. A contabilidade com que se gere a vida. A quantificação de tudo, até dos sentimentos. E a urgente necessidade de combater essa desumanização com a poesia. "A poesia, diz-me ele, transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da páginas em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade!" 

7 de julho de 2016

"NE ME QUITTE PAS"

“Ne me quitte pas…”
A música entranhava-se-lhe. Assim que ela ouvia os primeiros acordes, todo o seu corpo estremecia, arrepiado. Cada nota coloria cada espaço cinzento do seu eu, naquela altura sempre acabrunhado. E, à medida que a melodia avançava, apaixonada, cálida, penetrante, vinha a libertação. Despejava todas as lágrimas acumuladas e, depois de anestesiados os aziagos pensamentos, perseguia ilusões, sonhos e fantasias. Voava, então. 
Jacques Brel. O seu mestre. A sua salvação. A sua ordem interior.

24 de junho de 2016

ACEITARÁ O PEDIDO?

Época de santos populares tem de ser festejada. E ele pedi-la-á em casamento!
Chega o dia das marchas. As fogueiras crepitam e os balões matizam o ar, soprados pelo vento que veio para a festa. Os manjericos vaidosos ostentam as suas quadras e perfumam o pátio. 
Muitas sardinhas e demasiadas canecas depois… 
Estão no meio do bailarico e ele mal se segura. Ela não quer ficar solteira mas, casará com um homem que lhe pisa os pés? 

12 de junho de 2016

EQUAÇÃO SEM RESOLUÇÃO

O seu casamento tornou-se uma equação sem resolução.
No início, somava o azul dos seus olhos com os sorrisos da sua boca de cereja e as suas vidas seriam retas paralelas a encontrarem-se no infinito.
Mas, números astronómicos em parcelas imensas formaram dívidas impossíveis de pagar. Depressa se tornaram num labirinto que multiplicou ressentimentos e os dividiu. Os cálculos continham erro, claramente. Dele? Dela?
Apagaria tudo e recomeçaria do zero. Só assim, tiraria a prova dos nove. 

Desafio RS nº 38 – a matemática dos dias