2 de setembro de 2018

INDOLÊNCIA

- Como é bom oferecer este calor, o cheiro a natureza, a orquestra de cigarras. 
- Fazemos abrir as janelas para as varandas floridas onde as vizinhas se encontram para filosofarem sobre a vida. Dispensam os relógios e prolongam o tempo e as conversas. 
- Pois! Fazemos com que haja tempo para todos terem tempo! 
- Esta indolência, este silêncio, esta paz… Nada que se equipare! Só nós temos este poder! 

 Nem todos entenderão estas conversas silenciosas das noites de verão.



desafio escritivia 35 (quadro de José Malhoa)

17 de agosto de 2018

NÃO SE PODE VIVER SEM AMOR!!!

NÃO SE PODE VIVER SEM AMOR!!! 
Foi com este grito de libertação que Rita fechou estrondosamente a porta e o seu casamento de 30 anos. 
Manias! Cigarros, sofá, televisão, futebol, jantares à mesma hora, férias no mesmo local, rotinas! Ela não suportou mais as manias de uma pessoa eternamente insatisfeita, logo, eternamente infeliz. E solitária. 
A sua vida já não é a mesma, mas o passeio continua, agora rodeada de flores silvestres. Basta de rosas falsamente perfumadas.

8 de agosto de 2018

BULLYING

“Jovem alija a raiva estorcegando o pescoço a um colega” 
Eis o título da notícia em letras garrafais.
Conheço o Pedro, é calmo, não costuma resolver assim os problemas, mas foi demais! 
Rui atazanava-lhe a paciência, diariamente. Nefrítico desde criança, educado sem mimo, raramente osculado, resolvia as dores provocando dores nos outros. Uma vez, outra vez, paulatinamente. 
Foi junto dos rododendros do parque. Pedro não aguentou, encarniçou-se e despejou no colega tudo o que suportara durante meses. 

22 de julho de 2018

ASSASSINOS!

Rapidamente o detetive descobriu a arma do crime: belíssimos, saborosíssimos, tentadores, irresistíveis cup cakes.
Verdadeiros crimes passionais, crimes maldosos, provocados na cidade pela artista pasteleira com os seus pequenos, mas mágicos bolos.
Por ironia do destino, conseguira abrir a loja mesmo ao lado do consultório da nutricionista. Ora, nenhum dos seus clientes, homens, mulheres ou crianças, resistiu à primeira montra. Todos sucumbiram ao desejo ao primeiro olhar, à primeira trinca.
Cup cakes assassinos de todas as dietas!


2 de junho de 2018

ESTÚPIDA DOR!

Tanta TRAVESSA, tanto prato, tanto para lavar!
A LIMPEZA da mansão deixou-me de rastos.
Forte dor nos RINS instalou-se, inflexível, estúpida.
Fecho o CORTINADO para dormir e esquecer.
Nem este RETIRO no quarto me apazigua.
Imagens FANTASMAGÓRICAS perpassam-me o cérebro tenso, cansado.
E o meu PENSAMENTO só quer viajar.
Partir, fugir deste CONTINENTE buscando melhores dias.
Renegar esta vida de MISÉRIA, tão subserviente.
Entrar apressadamente no EXPRESSO da meia-noite, desertar.
Com uma única PROMESSA: jamais aqui voltar.

Desafio nº 142 ― 11 palavras para frases de 7

6 de abril de 2018

FOI COM AS AVES...

Havia um fogo que a queimava e as lágrimas não o apagavam. A ferida aberta no ego dilacerava-a.
No início, tudo parecia fácil. Não havia numerus clausus a limitar o sonho. Mas, deixara-se arrastar no tempo, distraíra-se, as regras mudaram.
Não! Não era um pano velho que se atira ao lixo, esfiapado, amachucado. A desforra chegaria. O seu sonho seria real! Mesmo que tardasse!
Sem hesitação, partiu atrás dele. Tal como o poeta, foi com as aves…

 Desafio nº 138 ― frase de Hemingway: “Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança.”

21 de março de 2018

11 de março de 2018

É MESMO BURRO!

É mesmo burro!
Burro quando atafulha o frigorífico com açúcares e gorduras, ingerindo-os como se o mundo estivesse a acabar. 
Burro quando recusa o ginásio, as caminhadas ou outra atividade desportiva que o arranque do sofá.
Burro quando abusa do isqueiro para acender cigarros, uns atrás dos outros. Queima-os e queima-me a paciência que já não aguenta tanto fumo.Só não é burro quando entra em casa, todos os dias, com uma rosa, a minha flor predileta.

25 de fevereiro de 2018

SEPARADOS DE FRESCO

Vivi sempre despojado de tudo até que ela, dourada e brilhante, se colou a mim num momento mágico. E nada mais nos separou. Nem a água, nem o sabonete, nem o creme amaciador, nem a areia na praia. Unidos para sempre, tinha ouvido. 
Mas, tudo mudou, trinta anos depois, e hoje ela foi-me retirada abruptamente. Foi depois da saída do tribunal e ainda não me habituei à ideia de ficar novamente nu. 
Dedo anelar de recém-divorciada sofre!