10 de fevereiro de 2018

SEMÁFORO

Chegou demasiado tarde. O sinal verde não esperara por si e o vermelho logo apareceu, impedindo-o de avançar. Acabara de perder a oportunidade de a reconquistar e de reatar a relação terminada por mal-entendidos. 
Fantasiara uma vida a dois demasiado cor de rosa, impossível de manter. Depois disso, desconfiou, enciumou, questionou, não acreditou, dramatizou. Deu para o torto. Quando quis mudar, hesitou. Mas o tempo, entretanto, expirara impiedosamente. 

O semáforo dos afetos não se mantém infinitamente verde! 


(imagem daqui)

9 de janeiro de 2018

MAPA DE LEITURAS DA LUSOFONIA

Mapa de leituras da lusofonia, um projeto de Teresa Pombo que teve a amabilidade de incluir um extrato do meu livro Do cinzento ao azul celeste. Ouvir aqui.

2 de janeiro de 2018

CHEIROS

Luísa é atraiçoada pela memória cada dia que passa. Não reconhece a família que se junta para celebrar o Natal. Cada um vai recordando Natais passados na esperança de lhe acender um fiozinho de luz que lhe ilumine a escuridão em que vive. 
Hoje, entrou na sala e o milagre aconteceu. Os cheiros combinados da lenha cortada, do pinheiro natural, do vinho adoçado com mel, do queijo serrano, da canela nos doces despertaram-lhe um sorriso, trouxeram-lhe vida.
Desafio  Escritiva nº 27 - cheiros

28 de novembro de 2017

QUE INDIGNAÇÃO!

- Olhe, dona Celeste, estamos muito indignadas. E pode dizer ao seu patrão, eu própria lho direi. Não se admite, chegar à nossa beira e mandar-nos calar porque estamos a falar muito alto e incomodamos os outros clientes! Por amor de Deus! Não estávamos a dizer mal de ninguém, não estávamos a dizer segredos, nem a falar dos namorados das outras. Era só o que faltava! Isto é um local público e não podemos falar alto?! Que indignação!!!! 

Desafio Escritiva 26 – mistérios da natureza humana

21 de outubro de 2017

NO SEU PEITO VIVIA UM PÁSSARO

Hoje foi manhã de escrita criativa com Rui Ramos. 
Um dos exercícios: tirada uma carta, aleatoriamente, de um baralho de cartas do jogo Dixit, em cinco minutos a história teria de estar escrita. 

O resultado:
No seu peito vivia um pássaro e ela deixou que se libertasse quando acordou, estremunhada, cabelos zangados atirados ao ar. Os olhos mal se abriam, ensonados. Ou seriam cansados? Não quis ver-se ao espelho, ignorou-o. Provavelmente não iria gostar da imagem que ele lhe devolveria. Preferiu abrir a janela, deixar que a luz entrasse, que a primavera entrasse, que o seu corpo negro entrasse noutra dimensão. Quem sabe? Talvez atingisse um mundo paralelo onde a cor e a dor não provocam danos colaterais. 
 Apalpou o seio nu e, com o pássaro, chorou.

20 de setembro de 2017

CONTO TRADICIONAL

Era uma vez uma velha. E era uma vez um lobo esfaimado.
A velha saiu da sua cabana para ir ao batizado dos netinhos. O lobo saiu-lhe ao caminho para a degustar.
Mas ela estava magrinha, ele só teria ossos para trincar. E deixou-a partir. Na festa iria engordar, o banquete poderia esperar.
Na hora do regresso, o lobo esperava-a. Escondida numa cabaça, a velha respondeu-lhe:

- Não vi velha, nem velhão! Corre, corre, cabacinha, corre, corre, cabação!

23 de agosto de 2017

REFÚGIO

Refugio-me do rebuliço da cidade e faço-me refúgio.
O sol vem beijar-me, manhã cedo, e o seu beijo mantém-me verde. No rio, os patos agradecem, felizes. E os habitantes da cidade também. Vêm até mim caminhar, buscar a paz, o silêncio, o diálogo com a natureza. Vêm respirar-me! Ofereço-lhes espaço de meditação, frescura, beleza, luz. Em troca, só peço respeito.
O meu nome? Chamo-me Parque do rio Ul. Vivo dentro da cidade. Mas a cidade fica longe.


desafio Escritiva nº 23 – recomendar um destino, guias de viagem

2 de agosto de 2017

UM RIO NOS OLHOS

Trazias um rio nos olhos. Sempre que te ouvia, nascia um desejo súbito de mergulhar neles. Iluminavam-se quando cantavas, parecia que a tua voz tinha o condão de lhes dar brilho. Lembras-te daquela vez em que cantaste só para mim?
Contudo, tu, com a mania de te relacionares com estranhos na Internet, arruinaste-te.
Era a mim que devias ter contado tudo. Talvez não saibas, mas eu queria ser a mãe que não tiveste. Agora, é tão tarde!...

3 de julho de 2017

CAMINHO REENCONTRADO

Custou encontrar o caminho depois de andar tantos anos perdida. A sua existência, assolada por tempestades, trouxera-lhe dissabores. Nunca sabia se, nem quando, surgiria a próxima. 
Agora, chegada a calmaria, o importante é erguer-se. Está sozinha, é certo, mas, como diz o ditado, “antes só do que mal acompanhada”. Sozinha, mas independente. Sozinha, mas com liberdade. Sozinha, mas de sorriso recuperado. Dona de si. Orgulhosamente. 
Não se habituara, ainda, a este luxo, conclui. Resta-lhe, então, aprender. Resistindo!

25 de junho de 2017

CENAS

O meu marido sempre foi duro de ouvido, quer para cantar, quer para línguas estrangeiras.
Fomos de férias para o sul de Espanha e passámos uma noite num hotel, em Sevilha, onde jantámos. Na hora de pagar, disse-lhe a rececionista:
- Tu tienes una cena…
- Cena???? Não houve cena nenhuma. A minha mulher deitou-se e dormiu toda a noite…
- Como asi???
De longe, apercebi-me da atrapalhação de ambos. Às gargalhadas, gritei-lhe:
- O jantar de ontem! É para pagar!