Mapa de leituras da lusofonia, um projeto de Teresa Pombo que teve a amabilidade de incluir um extrato do meu livro Do cinzento ao azul celeste. Ouvir aqui.
9 de janeiro de 2018
2 de janeiro de 2018
CHEIROS
Luísa é atraiçoada pela memória cada dia que passa. Não reconhece a família que se junta para celebrar o Natal. Cada um vai recordando Natais passados na esperança de lhe acender um fiozinho de luz que lhe ilumine a escuridão em que vive.
Hoje, entrou na sala e o milagre aconteceu. Os cheiros combinados da lenha cortada, do pinheiro natural, do vinho adoçado com mel, do queijo serrano, da canela nos doces despertaram-lhe um sorriso, trouxeram-lhe vida.
Desafio Escritiva nº 27 - cheiros
28 de novembro de 2017
QUE INDIGNAÇÃO!
- Olhe, dona Celeste, estamos muito indignadas. E pode dizer ao seu patrão, eu própria lho direi. Não se admite, chegar à nossa beira e mandar-nos calar porque estamos a falar muito alto e incomodamos os outros clientes! Por amor de Deus! Não estávamos a dizer mal de ninguém, não estávamos a dizer segredos, nem a falar dos namorados das outras. Era só o que faltava! Isto é um local público e não podemos falar alto?! Que indignação!!!!
Desafio Escritiva 26 – mistérios da natureza humana
21 de outubro de 2017
NO SEU PEITO VIVIA UM PÁSSARO
Hoje foi manhã de escrita criativa com Rui Ramos.
Um dos exercícios: tirada uma carta, aleatoriamente, de um baralho de cartas do jogo Dixit, em cinco minutos a história teria de estar escrita.
O resultado:
No seu peito vivia um pássaro e ela deixou que se libertasse quando acordou, estremunhada, cabelos zangados atirados ao ar. Os olhos mal se abriam, ensonados. Ou seriam cansados? Não quis ver-se ao espelho, ignorou-o. Provavelmente não iria gostar da imagem que ele lhe devolveria. Preferiu abrir a janela, deixar que a luz entrasse, que a primavera entrasse, que o seu corpo negro entrasse noutra dimensão. Quem sabe? Talvez atingisse um mundo paralelo onde a cor e a dor não provocam danos colaterais.
Apalpou o seio nu e, com o pássaro, chorou.
20 de setembro de 2017
CONTO TRADICIONAL
Era uma vez uma velha. E era uma vez um lobo esfaimado.
A velha saiu da sua cabana para ir ao batizado dos netinhos.
O lobo saiu-lhe ao caminho para a degustar.
Mas ela estava magrinha, ele só teria ossos para trincar. E
deixou-a partir. Na festa iria engordar, o banquete poderia esperar.
Na hora do regresso, o lobo esperava-a. Escondida numa
cabaça, a velha respondeu-lhe:
- Não vi velha, nem velhão! Corre, corre, cabacinha, corre,
corre, cabação!
23 de agosto de 2017
REFÚGIO
Refugio-me do rebuliço da cidade e faço-me refúgio.
O sol vem beijar-me, manhã cedo, e o seu beijo mantém-me verde. No rio, os patos agradecem, felizes. E os habitantes da cidade também. Vêm até mim caminhar, buscar a paz, o silêncio, o diálogo com a natureza. Vêm respirar-me! Ofereço-lhes espaço de meditação, frescura, beleza, luz. Em troca, só peço respeito.
O meu nome? Chamo-me Parque do rio Ul. Vivo dentro da cidade. Mas a cidade fica longe.
O sol vem beijar-me, manhã cedo, e o seu beijo mantém-me verde. No rio, os patos agradecem, felizes. E os habitantes da cidade também. Vêm até mim caminhar, buscar a paz, o silêncio, o diálogo com a natureza. Vêm respirar-me! Ofereço-lhes espaço de meditação, frescura, beleza, luz. Em troca, só peço respeito.
O meu nome? Chamo-me Parque do rio Ul. Vivo dentro da cidade. Mas a cidade fica longe.
desafio Escritiva nº 23 – recomendar um destino, guias de viagem
2 de agosto de 2017
UM RIO NOS OLHOS
Trazias um rio nos olhos. Sempre que te ouvia, nascia um desejo súbito de mergulhar neles. Iluminavam-se quando cantavas, parecia que a tua voz tinha o condão de lhes dar brilho. Lembras-te daquela vez em que cantaste só para mim?
Contudo, tu, com a mania de te relacionares com estranhos na Internet, arruinaste-te.
Era a mim que devias ter contado tudo. Talvez não saibas, mas eu queria ser a mãe que não tiveste. Agora, é tão tarde!...
desafio nº 121 – 3 inícios de frase impostos (em negrito)
3 de julho de 2017
CAMINHO REENCONTRADO
Custou encontrar o caminho depois de andar tantos anos perdida.
A sua existência, assolada por tempestades, trouxera-lhe dissabores. Nunca sabia se, nem quando, surgiria a próxima.
Agora, chegada a calmaria, o importante é erguer-se. Está sozinha, é certo, mas, como diz o ditado, “antes só do que mal acompanhada”. Sozinha, mas independente. Sozinha, mas com liberdade. Sozinha, mas de sorriso recuperado. Dona de si. Orgulhosamente.
Não se habituara, ainda, a este luxo, conclui. Resta-lhe, então, aprender. Resistindo!
25 de junho de 2017
CENAS
O meu marido sempre foi duro de ouvido, quer para cantar, quer para línguas estrangeiras.
Fomos de férias para o sul de Espanha e passámos uma noite num hotel, em Sevilha, onde jantámos. Na hora de pagar, disse-lhe a rececionista:
- Tu tienes una cena…
- Cena???? Não houve cena nenhuma. A minha mulher deitou-se e dormiu toda a noite…
- Como asi???
De longe, apercebi-me da atrapalhação de ambos. Às gargalhadas, gritei-lhe:
- O jantar de ontem! É para pagar!
Fomos de férias para o sul de Espanha e passámos uma noite num hotel, em Sevilha, onde jantámos. Na hora de pagar, disse-lhe a rececionista:
- Tu tienes una cena…
- Cena???? Não houve cena nenhuma. A minha mulher deitou-se e dormiu toda a noite…
- Como asi???
De longe, apercebi-me da atrapalhação de ambos. Às gargalhadas, gritei-lhe:
- O jantar de ontem! É para pagar!
14 de junho de 2017
DESCONCERTO
Acordou com o sonho bem presente. O céu era uma pauta onde bailavam as nuvens cinzentas transformadas em notas musicais. O mundo tornara-se numa orquestra. Um afinado concerto, sob a alegre batuta do maestro, muito alinhado, transmitia harmonia.
Agora, desperta, olha a realidade. A loucura instalada, o bom senso desinstalado.
Como sentir paz neste mundo desafinado?
Como viver neste desconcerto?
Como suportar a desarmonia dos dias?
Tudo tão desalinhado!
Tantos sonhos descosidos querem, urgentemente, ser novamente cosidos.
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