Balouço no bolso do avental de Odete que caminha apressada, abraçada ao molho de flores acabadas de colher. Crisântemos. Não sabe porquê, mas sempre foi apaixonada por eles. Coloca-os na jarra e guarda apenas um, vermelho, para pô-lo ao peito. O jantar vai ser de cerimónia, quer estar bonita. Eu ajudarei, prendendo o crisântemo. Eu, um alfinete inútil! A flor fará sobressair o decote. O decote fará entrever uns seios de seda. Ele declarar-se-á, finalmente. Espera ela!
2 de junho de 2017
15 de maio de 2017
"OPERAÇÃO" FÁTIMA
Eduarda espanta-se. Não se lembra de ver muitas das suas amigas dirigirem-se regularmente a um local de prece. Porém, fotos públicas mostram-nas no meio da “operação” Fátima, repentinamente devotas.
Ela sabe que os tempos são de incerteza e de medo, de injustiça e de maldade. São tempos de provações. Mas, se o ser humano não acredita em si próprio nem no seu semelhante, como irá a Humanidade mudar e melhorar se espera o milagre, silenciosa e pacientemente?
3 de maio de 2017
SEMANA CULTURAL DA UNIVERSIDADE SÉNIOR DE SANTA MARIA DA FEIRA
À imagem do ano passado, a Universidade Sénior de Santa Maria da Feira está a dinamizar a sua semana cultural com eventos espalhados pelos cafés e restaurantes da cidade, terminando na Biblioteca Municipal no dia 5 de maio.
E, à imagem do ano passado, fui convidada para estar presente numa sessão e registar o momento, com palavras. Coube-me a sessão dedicada aos anos 60. Não poderia ser melhor. Foi na década de 60 que nasci (inaugurei a década, pode-se dizer!) e abri os olhos para a vida.
No final, o texto ficou pronto. Transcrevo-o:
A máquina do tempo vai arrancar. A viagem vai
começar numa noite espiada pela lua em quarto crescente. Ao longe, o castelo
observa a Taberna do Xisto que, hoje, se transformou e misturou novos sabores,
de saberes cruzados.
Um, dois, três… Partida! Destino: anos 60. Cá
vamos nós!
Chegamos. Aterramos.
Em Portugal, cresce a desilusão perante um regime
ditatorial.
Depois de uma guerra mundial, cresce a revolta
perante uma guerra colonial.
Cresce a frustração.
Cresce a contestação contra um Estado parado,
vazio, alheado do mundo onde grassa a desigualdade.
“Mas há sempre alguém que resiste, há sempre
alguém que diz não”. Não à ditadura, não à ignorância, não a qualquer forma de
tirania. E muitas foram as formas de dizer não. Com palavras de contestação,
mas forradas de poesia. Com pincéis e tintas (por vezes mais eloquentes do que
as palavras). Com música interventiva mais certeira do que balas no combate à
injustiça. Com a moda provocatória. Com danças energéticas. Com manifestações
hippies num colorido e relaxado festival Woodstock. “All we need is love”, “Peace
and love”, “Make peace not war” são gritos de paz porque a guerra não é
bem-vinda. Nem hoje, nem amanhã. Nem nunca!
“Quantos caminhos tem um homem de percorrer para
que lhe chamem homem? Quantos anos podem alguns existir antes que lhes seja
permitida a liberdade?” Perguntas feitas pelo recém Nobel da Literatura Bob
Dylan. Muitos caminhos foram percorridos e muitos anos passaram para que a
liberdade nos fosse permitida.
Hoje, aqui e agora, viveram-se momentos
impossíveis de serem vividos sem liberdade, esse bem precioso que nos permite
respirar, correr e gritar aos quatro ventos. E esta gente da Universidade Sénior
de Santa Maria da Feira correu, cantou, dançou para trazer até nós uma época tão
rica em cultura, apesar de, ou, talvez, devido à ditadura e à consequente contestação.
Monstros consagrados vieram até à Taberna trazendo na bagagem o seu saber.
Cinquenta décadas depois, vivemos dias frenéticos,
mas, hoje, não fomos derrotados pela pressa, derrotamos a pressa. Revivemos
momentos. E nem foram precisos charros nem máscaras. Porque há gente que sempre
lutou e gente que continua a lutar, contra ventos e marés. Assim, deixo a minha
homenagem a todos, eles e elas, gente da Universidade Sénior, num texto à moda
de Ana Hatherly, mulher da cultura portuguesa em destaque nos anos 60.
Esta Gente
O que é preciso é gente
gente com garra
gente que tenha garra
que mostre a garra
O que é preciso é gente
gente com garra
gente que tenha garra
que mostre a garra
O que é preciso é gente
gente que não seja malevolente
nem indolente
nem insolente
nem prepotente
mas, sim, gente polivalente
nem indolente
nem insolente
nem prepotente
mas, sim, gente polivalente
RESILIENTE
O que é preciso
é gente
gente com mentes sãs
mesmo que carreguem algumas cãs
gente com alma sadia
gente com alma sadia
que não viva uma vida vazia
O que é preciso é gente
que espicace toda essa gente
que, dominada pela indolência,
não é gente
como esta gente
que não se deixa dominar por gente
INDIFERENTE!
que, dominada pela indolência,
não é gente
como esta gente
que não se deixa dominar por gente
INDIFERENTE!
Gente que é gente
Vai à luta
Só assim sabe
que é gente
Gente que é
gente
Partilha o
saber
E, em todos os
seus gestos,
Esta gente dá
amor
Esta gente traz
palavras que têm cor
E todos os seus
gestos emanam calor
Esta gente solta freios
E mata os silêncios
alheios.25 de abril de 2017
NASCI CRAVO
Nasci flor. Vermelho em todo o seu esplendor. Discreta e sem vaidade, de suave odor mas com muita cor. Cor do amor.
Enchia campos, enchia jarras de cristal. Um tempo houve em que enchi espingardas. Calei-as, não cuspiram balas, nem deram coronhadas!
Então, o meu destino mudou. Agora, passeio-me nas lapelas, sou agitada como estandarte ao vento.
Nasci cravo mas não sou mais flor, já não vou murchar. Hoje, sou a liberdade, estou aqui para firmemente ficar.
HORA DO CONTO NA BIBLIOTECA DE FUNDO DE VILA
A convite da Junta de Freguesia de S. João da Madeira, levei o meu livro Do cinzento ao azul celeste aos alunos da escola EB1 de Fundo de Vila para uma hora de conto/conversa sobre os valores de abril. Depois da leitura e da conversa, ficou aberto caminho para a escrita. E foi assim que algumas crianças de segundo e terceiro anos definiram liberdade.
- "A liberdade é uma gaiola de portas abertas." . Gabriel
- "A liberdade é a escola que nos dá educação." - Maria Leonor
- "A liberdade é ter asas." - Edgar
- "A liberdade é a forma como concretizamos os nossos desejos e seguimos o nosso caminho a voar," Gabriel
- "A liberdade é um tempo feliz."
- "A liberdade é como uma flor aberta no jardim,"
- "A liberdade é a árvore que se alimenta da seiva" - Maria Leonor
- "A liberdade é ter tempo para ser feliz." Maria Leonor
- "A liberdade é como a flor a abrir com a paz." - Maria Leonor
- "A liberdade vem com o mar." Lara
- "Sem liberdade seríamos prisioneiros do tempo." Mariana
23 de abril de 2017
23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL DO LIVRO
Porque, hoje, é Dia Mundial do Livro e todos os dias são dias de leitura. "Faça da leitura uma causa de vida", o lema deste ano. Os meus livros talvez possam ajudar a lutar pela causa.
18 de abril de 2017
QUEM ANDA A ROUBAR AS ESTRELAS?
Hoje, na Rádio Informédia, entrevista por Paulo Sérgio Guimarães, a propósito da peça musical "Quem anda a roubar as estrelas?" Ver/ouvir aqui
14 de abril de 2017
ESPELHO MEU!
Olho-te, espelho. Deverias refletir-me, tal como sou, mas não! Acordaste maluco e devolves-me a figura que eu queria ser, mas não sou, nunca fui.
Deixas que me espreite uma mulher com ar inteligente e confiante, olhar atrevido e desafiador, numa pose de quem sabe o que quer e consegue-o. Esta, que especaste à minha frente, não sou eu. Não passo de uma mulher fraca, ignorada, sem atributos.
Espelho meu, haverá alguma mulher mais insípida do que eu?
Espelho meu, haverá alguma mulher mais insípida do que eu?
9 de abril de 2017
QUEM ANDA A ROUBAR AS ESTRELAS?
Espetáculo musical, na Casa da Criatividade, integrado no Festival de Teatro de S. João da Madeira
SINOPSE:
Diz a
lenda que, em noites de lua cheia, as estrelas se aproximavam da Terra para a fazerem brilhar. Mas
elas começaram a não regressar e era grande o mistério do seu desaparecimento.
Havia
um homenzinho que vivia numa nuvem cinzenta e que invejava a noite por ter a
lua, as estrelas e tanto brilho. Sentindo-se solitário, quis guardar todas as
estrelas só para si e começou
a caçá-las como se fossem borboletas.
Mas
ele aprendeu a olhar à sua volta e a brincar ao faz-de-conta. E compreendeu que
que a liberdade é um tesouro que não se pode enjaular.
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