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6 de novembro de 2016

MEXE-TE!

Claro que ninguém te esperava. O país era escuro e não se vislumbravam dias mais espertos
Claro que todos te queríamos! E o tempo escuro que não se ia e nos sufocava! 
Claro que alguns lutavam no escuro contra os estúpidos que se achavam espertos. Tão espertos que alimentavam a estúpida ignorância.
- Mexe-te, liberdade! – disseram esses alguns. E tu chegaste, sorridente, vestida de cravo vermelho. 
E nós agradecemos: 
- És tão estúpida, ditadura. Mexe-te! Mexe-te daqui para fora!

Desafio da Margarida Fonseca Santos: 3x5 palavras no texto

16 de outubro de 2016

PEQUENOS FORMATOS: GÉNEROS POÉTICOS BREVES E EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA E LITERÁRIA

Este encontro vai decorrer no final de outubro e estarei lá para apresentar a comunicação "Contos breves e microcontos no ensino do português".


13 de outubro de 2016

EXERCÍCIO DE ESCRITA CRIATIVA 2

Este exercício consistia em usar as palavras sublinhadas (fornecidas 5, estas eram associadas a outras e as 10 tinham de ser incluídas). Não havia limite de palavras para a história mas as 77 vieram naturalmente...
Saiu assim:
Quem lhe concedeu poder para reinar com tanta autoridade?
Ela usa o cargo para uma subida abrupta na empresa, como elevador num prédio de cinquenta andares. E nem sequer se apercebe do medo que está a plantar e a provocar tempestades destruidoras de todo o otimismo.
Agora, todos os dias são dias de lentidão porque são sofridos. E é a passo de tartaruga que saímos de casa para trabalhar. Já não há espírito brincalhão. Morreu. Ela matou-o!...

30 de setembro de 2016

LINHA 111

- Bom dia, linha 111, achados impossíveis. Como posso ser útil? 
- Estou em pânico! Desespero total! Preciso de ajuda urgente! Perdi as ideias. Todas. Não sei onde as deixei, nem onde procurá-las. Não sei o que fazer! 
- Vá com calma, tudo tem solução! 
- Onde? Como? Quando? (gritos….) 
- Vá à internet, procure o blogue 77 palavras. Lá, encontrará todas as ideias fantásticas. Apenas se arrisca a ganhar outro problema: dificuldade em escolher. Mas, para isso, pode usar outra linha!...

24 de setembro de 2016

ESCOLA CINZENTA

Na sacola, o livro e a lousa. No bolso da bata, o elástico para saltar nos intervalos. Na cabeça, os sonhos. E a vontade de conhecer o mundo. 
Mas, aprender era saber de cor todos os rios, montanhas e caminhos de ferro de Portugal (províncias ultramarinas incluídas!). Era saber rezar e costurar. Era aguentar as reguadas. Era interiorizar a passividade da mulher. Era prestar vassalagem aos ditadores que, nas molduras da parede, nos vigiavam. 
Cinzenta escola, essa!



1 de setembro de 2016

À ESPERA DO FIM

Deitada na cama à espera do fim, Adriana ralhava com a vida por não ter cumprido o tratado: viver até aos 100. Cabeça e tronco doíam-lhe como se um martelo a espancasse, mas o problema não tinha solução. Queria encontrar um refúgio onde não a encontrassem ou a deixassem, pelo menos, pensar. Sempre contornou os espinhos das rosas com que compôs os ramos que fazia. O que não contornava, agora, era a doença e a família desmembrada


Desafio nº110 da Margarida Fonseca Santos: palavras obrigatórias a negrito

29 de agosto de 2016

RELAÇÃO COMPLICADA

Relação complicada, a deles. Hábitos enraizados, velhas manias, nenhum dos dois mudava. Ela afogava a raiva no piano (e nos chocolates!); ele lançava a fúria ao mar, na praia em horas desertas. E o mar ripostou. A garrafa chutada pela onda nervosa bateu-lhe nos pés molhados. Lá dentro, um papel. Leu: 
“Queres conhecer a felicidade? 
 Começa por te aperfeiçoares interiormente. Procura dentro de ti. Aprende a encontrar. Sê aquilo que buscas no outro. Cria. Sonha. Ousa mudar.”

"LEITURA QUASE INSTANTÂNEA"

Estas caixinhas mágicas são um projeto de Cristina Taquelim para as Palavras Andarilhas 2016.
Consiste num conjunto de microcontos, em 77 palavras, de vários autores entre os quais me encontro. São eles: Isabel Zambujal, Patrícia Reis, Susana Amorim, Inês Do Carmo, José Jorge Letria, Maria João Lopo Carvalho, Teresa Meireles, Ana Paula Oliveira, Isabel Mendes de Almeida, Alda Goncalves, Paula Isidoro, Elisabeth Oliveira Janeiro, Clara Lopes, Sandra Évora, Theo de Bakkere, Carla Silva, Maria Amélia Meireles, Paula Coelho Pais.

11 de agosto de 2016

GASPEADEIRA DE SONHOS

Era uma aluna brilhante, a melhor da turma. Maria de Fátima gaspeava sonhos, mas o regime de ditadura rapidamente os descosia. E não adiantou o brilhantismo do exame da quarta classe. As suas mãozinhas infantis eram necessárias para fazer entrar o dinheiro que escasseava em casa. A escola só comportava gastos. 
E foi assim que se empregou numa fábrica de sapatos onde tem arrastado toda a sua vida. É gaspeadeira*. Gaspeia o calçado, já não os sonhos. 

*Gaspeadeira: operária que deita gáspeas em calçado
Gáspea: parte dianteira do rosto do calçado que cobre o pé, e é cosida, à maneira de remendo, à parte posterior.  

7 de julho de 2016

"NE ME QUITTE PAS"

“Ne me quitte pas…”
A música entranhava-se-lhe. Assim que ela ouvia os primeiros acordes, todo o seu corpo estremecia, arrepiado. Cada nota coloria cada espaço cinzento do seu eu, naquela altura sempre acabrunhado. E, à medida que a melodia avançava, apaixonada, cálida, penetrante, vinha a libertação. Despejava todas as lágrimas acumuladas e, depois de anestesiados os aziagos pensamentos, perseguia ilusões, sonhos e fantasias. Voava, então. 
Jacques Brel. O seu mestre. A sua salvação. A sua ordem interior.

24 de junho de 2016

ACEITARÁ O PEDIDO?

Época de santos populares tem de ser festejada. E ele pedi-la-á em casamento!
Chega o dia das marchas. As fogueiras crepitam e os balões matizam o ar, soprados pelo vento que veio para a festa. Os manjericos vaidosos ostentam as suas quadras e perfumam o pátio. 
Muitas sardinhas e demasiadas canecas depois… 
Estão no meio do bailarico e ele mal se segura. Ela não quer ficar solteira mas, casará com um homem que lhe pisa os pés? 

12 de junho de 2016

EQUAÇÃO SEM RESOLUÇÃO

O seu casamento tornou-se uma equação sem resolução.
No início, somava o azul dos seus olhos com os sorrisos da sua boca de cereja e as suas vidas seriam retas paralelas a encontrarem-se no infinito.
Mas, números astronómicos em parcelas imensas formaram dívidas impossíveis de pagar. Depressa se tornaram num labirinto que multiplicou ressentimentos e os dividiu. Os cálculos continham erro, claramente. Dele? Dela?
Apagaria tudo e recomeçaria do zero. Só assim, tiraria a prova dos nove. 

Desafio RS nº 38 – a matemática dos dias

22 de maio de 2016

QUE INVENÇÃO!

Inventaram-se naus que andaram por mares nunca dantes navegados. 
Inventaram-se foguetões, naves espaciais, satélites que andaram por espaços nunca dantes percorridos.
Inventaram-se máquinas, engenhos que curaram doenças nunca dantes curadas. 
Eu só quero inventar uma simples caixa com botões, como as máquinas que vendem bebidas. Por cada botão teclado, sai paciência, sai tolerância, sai honestidade, sai educação, sai respeito, sai concórdia. Máquina inesgotável. Tudo grátis! 
O mundo inundar-se-ia, então, de uma luz nunca dantes tão claramente vista.

 invenção que muda o mundo

14 de maio de 2016

LÁPIS ESPECIAL


Nasci precisamente na altura em que a fábrica centenária ia fechar. Pertenci ao último grupo fabricado, uma remessa especial, destinada a clientes especiais. Levados para o escritório, inadvertidamente caí e rolei para debaixo de um armário. Quando, meses mais tarde, despiram a fábrica, alguém me encontrou. Observou-me com olhos de água transparente. Guardou-me. 
Esse alguém morreu ontem. Encontraram-me na sua secretária, pequenino, gasto, encaixado nas páginas do caderno onde escrevera todos os seus poemas. O país chora-o.

SÓ O ESPANTO ABRE PORTAS AO SONHO

O microconto "Só o espanto abre portas ao sonho", baseado numa frase de Mia Couto, foi lido pela escritora Margarida Fonseca Santos, na Rádio Sim. Ouvir aqui.

2 de maio de 2016

REVISTA CAFÉ COM LETRAS

A escritora Margarida Fonseca Santos começou, há algum tempo, uma parceria com a revista Café com Letras onde dá alguns conselhos e técnicas sobre escrita, assim como vai explicando os desafios que lança para que surjam microcontos em 77 palavras. Desta vez, usou um texto meu para provar que é possível escrever um conto sem usar a letra "O". É tudo uma questão de se procurarem as palavras que normalmente não usamos e ir deixando que o texto flua.

29 de abril de 2016

LISTA DE COMPRAS...

Numa mão vai o carrinho
Na outra o papelinho
Nada poderá faltar
P’ra não ter de cá voltar.

Leite, azeite, vinho e mel
Para o pão de ló: papel
Açúcar, farinha e sal
Que lista tão trivial!

Massas, cenouras, verduras,
tomates, frutas maduras,
iogurtes, chá e café.
Vou p´ra caixa. Que banzé!

Já em casa, vamos lá,
pois então, fazer o bolo,
a receita aqui à mão.
Oh! Que grande desconsolo!
Os ovos… onde é que estão?

Desafio Escritiva nº 7 – as listas (no blogue da Margarida Fonseca Santos)

4 de abril de 2016

AMANHÃ

A vida não deveria ser isto.
O despertador toca sempre à mesma hora. Toma sempre o mesmo pequeno-almoço. Apanha sempre o mesmo autocarro, vê sempre os mesmos rostos. No ateliê de costura, atende sempre as mesmas clientes. Que já estão a ficar velhas, por sinal. E novas não entram. Sabe que tem de mudar, de se atualizar, de comprar revistas modernas. Sabe que não pode continuar a fazer os modelos do século passado.
Amanhã será diferente.
Amanhã.

Desafio nº105 da Margarida Fonseca Santos, baseado na frase de Einstein "Não há maior demonstração de insanidade do que fazer a mesma coisa, da mesma forma, dia após dia, e esperar resultados diferentes.

21 de março de 2016

SÓ O ESPANTO ABRE AS PORTAS AO SONHO!

"O homem que vive em espanto deixa portas abertas no sonho." - Mia Couto

ilustração de Helena Veloso (in Porto Porto)

Sempre viveu espantada de existir. Um dia teria de descer à terra, não podia viver toda a vida nas nuvens. Podia ter escolhido um percurso mais rápido, um simples estalar de dedos para acordar. Mas não! Escolheu um fio para ir balançando os sonhos e começou a descida. Verificou que o fio não chegava ao solo, inverteu a marcha e regressou ao seu mundo. Aí, sim, continuaria no espanto. Só o espanto lhe abria portas ao sonho!
Desafio RS nº 34 da Margarida Fonseca Santos – frase de Mia Couto