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23 de abril de 2017

23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL DO LIVRO

Porque, hoje, é Dia Mundial do Livro e todos os dias são dias de leitura. "Faça da leitura uma causa de vida", o lema deste ano. Os meus livros talvez possam ajudar a lutar pela causa.

3 de fevereiro de 2017

O QUE ACABEI DE LER

Foi o primeiro livro de Sándor Márai que li. Vou procurar outros.
A herança de Eszter é um livro que provoca um forte impacto. Nele moram personagens densas cujas vidas descruzadas, e por isso mesmo constituem toda a trama, nos deixam, a nós leitores, com a coração a bater fortemente, o cérebro num rodopio, e os olhos a observarem as pessoas que nos rodeiam. ´
Lealdade vs traição, honestidade vs manipulação e falsidade, amor e amizade vs interesses materiais.

O primeiro capítulo: 
"Não sei o que Deus ainda me reserva. Mas antes de morrer quero escrever a história do dia em que Lajos veio ver-me pela última vez e me roubou. Há três anos que venho adiando estes apontamentos. Agora sinto como se uma voz, contra a qual não posso defender-me, me exortasse a escrever a história desse dia – e tudo o que sei acerca de Lajos – porque esse é o meu dever, e já não tenho muito tempo. Uma voz assim é inequívoca. Por isso obedeço, em nome de Deus. 
Já não sou jovem nem tenho saúde e, em breve, terei de morrer. Talvez devido ao tempo, que não me perdoou, talvez devido às recordações, tão cruéis como o tempo, talvez por um particular estado de graça que, segundo os ensinamentos da minha fé, também toca por vezes os indignos e destinados, talvez, simplesmente pelo peso da experiência e da velhice, olho a morte de frente, com serenidade. Presenteou-me a vida maravilhosamente e, implacavelmente me despojou...o que mais posso esperar? Tenho de morrer, que isso é a lei, e porque cumpri o meu dever. 
Sei que palavra é esta e, vendo-a agora, escrita, sinto-me um pouco intimidada. É uma palavra arrogante, pela qual vou ter de responder, um dia perante alguém. Demorei algum tempo a reconhecer qual o meu dever e obedeci, contrariada, sim, uivando e protestando desesperadamente. Senti, então, pela primeira vez, como a morte pode ser redenção, e soube, também, como a morte é resgate e paz. Que estranha foi essa luta! Quem me obrigou e porque não pude esquivá-la? Tudo empreendi para escapar dela. Mas o inimigo vinha atrás de mim. Agora já sei que não podia ser de outro modo. Estamos ligados aos nossos inimigos e eles também não podem fugir de nós.”

E quase no fim:
“O sentido moral, vês, não é algo de hereditário, mas uma característica adquirida. Os homens nascem sem moral. O sentido moral dos selvagens ou das crianças é diferente da moral de um juiz de sessenta anos do Supremo Tribunal de Viena ou de Amsterdão. Adquire-se o sentido moral durante a vida, tal como de adquirem maneiras e cultura. – Falava em tom de padre, como um especialista. – Há homens cujo carácter é fortíssimo, sim, são uns génios do carácter, tal como há grandes músicos e poetas. Tu és assim, Eszter, um génio do carácter; não, não protestes! Foi o que senti em ti. Eu, em questões de moral, sou um surdo, quase analfabeto. Por isso, refugiei-me em ti; creio que, sobretudo, por essa razão.”  pág. 121/122

1 de fevereiro de 2017

A QUINTA DOS ANIMAIS

A fábula A quinta dos animais, ou O triunfo dos porcos, como aparece, também, traduzida em português, é uma metáfora política muito bem urdida. 
Apesar de ter sido publicado em 1945, o livro é de uma atualidade admirável: os animais de uma quinta revoltam-se contra a tirania do seu dono, mas rapidamente o idealismo e a democracia dão lugar à mentira e a uma nova forma de ditadura. 
Mordaz e cheio de perspicácia, George Orwell faz o leitor olhar para o mundo atual e ver o que nele se instalou, para ficar: manipulação, corrupção, sede de poder, ganância pessoal sobreposta ao interesse comum, enriquecimento rápido da minoria em contraste com empobrecimento alarmante da maioria. 
E é a este nível que chegam os novos “governantes” da quinta, os porcos. Para eles deixa de haver limites e as mentiras em que envolvem os outros animais passam a ser a sua verdade. Lendo este pequeno grande livro, o leitor revê o passado e vê o presente ocupados com loucos que têm ascendido ao poder e causado destruição. Então, imagina um futuro negro porque a história é cíclica e repete-se. A quinta dos animais é o livro onde a ficção toca a realidade nua e crua.

Comentário publicado pela revista Visão, na rubrica "Ler faz bem" 
(comentários dos leitores)

26 de janeiro de 2017

O QUE ACABEI DE LER

Morreste-me choca pela intimidade. Choca-me pela violência da dor. Choca-me por me rever nele. Choca-me por eu não ser capaz de escrever assim. 
Há palavras que não se sabem. 
Há palavras que não se pensam. 
Há palavras que não se dizem. 
José Luís Peixoto soube pensá-las, senti-las e dizê-las magistralmente apesar de as ter escrito ainda tão jovem. Mas, parece que uma perda tão sentida faz crescer, amadurecer e ver a vida com outros olhos. 
"E pensei não poderiam os homens morrer como morrem os dias? assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhas pequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescer natural natural, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno.” (pág. 12/13) 
Neste livro tudo é dor porque “Tudo o que te sobreviveu me agride”: 
• A violência do hospital 
• A doença 
• O lugar na mesa, vazio 
• As memórias: “Deixaste-te ficar em tudo.” 
• Os espaços 
• As dádivas 
• As saudades
• As roupas que ficaram 
• Os objetos encontrados na gaveta
E, sobretudo, “a certeza de não te perder e perdi-te.” 
No fim, depois de tudo, depois das voltas dos ponteiros do relógio, o que fica? 
Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.”

Nota: Este foi o livro de leitura partilhada no Clube de Leitura da BM de S. João da Madeira, em janeiro de 2017.

30 de dezembro de 2016

O QUE ACABEI DE RELER

Os livros mudam o destino das pessoas, mas as pessoas também mudam o destino dos livros. Poderia ser a frase sinopse deste livro. 
Bluma, uma professora de Cambridge, é atropelada enquanto lia o segundo poema de Emily Dickinson. Bluma morre no início da história, mas a sua presença mantém-se ao longo da trama. Mulher com uma personalidade marcante, marcou quem com ela se cruzou, quer intelectual quer fisicamente. Os livros fizeram parte da sua vida, influenciaram o seu modo de vida e houve um que acabou por ser o motivo da sua morte (pág. 51). 
O seu substituto, narrador desta história, recebe pelo correio uma misteriosa encomenda, vinda de Buenos Aires e endereçada a Bluma, que contém o livro A Linha de Sombra, de Joseph Conrad, cuja capa incrustada de cimento traz uma dedicatória, escrita por ela, a Carlos Brauer. 
O narrador não descansa enquanto não descobre o mistério deste cimento no livro. Vem a conhecer Agustin Delgado numa viagem pela Argentina e pelos seus meios literários. Este apresenta-lhe a história de Carlos Brauer e da sua obsessão pela literatura (pág. 26, 32, 33, 34), colecionador de livros raros e de primeiras edições, o qual lia os autores do século XIX à luz das velas e determinados escritores ouvindo músicas de compositores da mesma época, entre outras obsessões, e que mantinha com os livros uma relação de grande prazer, chegando mesmo a ser erótica, na forma como os usava (pág. 35, 36). 
Mas, a certa altura, os livros começam a ser um peso para ele, um pesadelo: invadem-lhe a casa e não os encontra, fazem-lhe perder os amigos e o dinheiro e viver na solidão (pág. 39,40). É, então, que começa a mostrar sinais de loucura na catalogação dos livros, recusando juntar autores cujo relacionamento na vida real não é o mais harmonioso (pág. 41, 42, 43, 44, 45, 46, 47, 52, 57). E a loucura atinge o seu ponto máximo depois de um incêndio que lhe destrói o sistema de catalogação e se torna impossível encontrar o livro pretendido. Decide partir para uma praia isolada e, num ato de completa insanidade, constrói uma casa feita de tijolos de papel: a sua imensa biblioteca. Ao longo do livro, no narrador leva o leitor a confrontar-se com referências a várias obras da literatura universal que, no fundo, são as protagonistas desta história. 
Em suma, a biblioteca que vamos construindo é uma vida, mais do que um somatório de livros… “Uma biblioteca é uma porta no tempo” e “um leitor é um viajante através de uma paisagem que se foi fazendo. E é infinita” (pág. 35). 

Neste pequeno romance (ou será longo conto?) revelam-se os limites a que a paixão pelos livros pode levar um ser humano. Os livros são aqui descritos como objetos com vida própria, podendo influenciar decisivamente a vida dos seus donos. 
Será, também, uma metáfora da vida: a perda conduz ao desgosto, à irracionalidade e a atos desesperados. 

A casa de papel é um livro para quem gosta de livros com livros dentro.

8 de agosto de 2016

CLUBE DE LEITURA DE JULHO


A última sessão do Clube de Leitura, no dia 22 de julho, iniciou com a leitura do meu conto "Palavras à solta". Este pequeno conto, onde a pequena Alice descobriu a magia das palavras numa ida com a mãe a uma livraria, está inserido no livro Papá, só mais uma... e resulta dos contos vencedores do concurso "Papá, só mais uma... 2015", com seis autores.
De seguida, passou-se discussão sobre a obra Vamos comprar um poeta de Afonso Cruz. O livro que aparentemente  parece ser um conto da literatura infantojuvenil tem uma mensagem bastante mais profunda. Retrata a atualidade. A contabilidade com que se gere a vida. A quantificação de tudo, até dos sentimentos. E a urgente necessidade de combater essa desumanização com a poesia. "A poesia, diz-me ele, transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da páginas em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade!" 

10 de março de 2016

TERTÚLIA POÉTICA

Amanhã, em Canedo, as crianças dos JI vão interpretar dois dos meus contos: A vassoura que desvassourou (conto não publicado) e Palavras à solta, conto premiado pela Editora Alfarroba, que será publicado em maio.
Outras obras de autores do concelho de Santa Maria da Feira, ou a este concelho ligados, serão, também interpretadas. Prevê-se um grande serão!!!

23 de julho de 2015

O QUE ACABEI DE RELER

O Rapaz dos sapatos prateados é o último livro da trilogia da qual fazem parte as obras A Ilha do Chifre de Ouro e O Último Grimm onde há uma fusão de dois mundos: o real e o imaginário, tema preferido do autor na sua literatura. 

Hugo tinha seis anos quando percebeu que o mundo não rimava com ele e experimentou a dolorosa solidão dos diferentes. Segundo ele, a sua família é uma família de “grunhos” e de “Is”- incultos, insensíveis, idiotas e irresponsáveis. Hugo é, realmente, um rapaz diferente. Sensível, está atento e questiona o mundo que o rodeia e os sues mistérios: Deus, Céu, Inferno, Morte, Poesia, Amor. 
Ao longo da estória, Hugo vive uma forte paixão e vê-se envolvido num caso policial onde nem sequer falta um crime! No final, o protagonista liberta-se da lei da gravidade e voa na pele do Rapaz dos Sapatos Prateados, o duplo que ele criou, num jogo entre o real e o imaginário. 
Primeira página:
"Tinha seis anos quando percebi que o mundo não rimava comigo e experimentei a dolorosa solidão dos diferentes. Tudo, ou quase tudo, à minha volta me parecia estranho; a começar pela minha família. 
Eu gostava de palavras e tinha aprendido a ler e a escrever antes dos outros todos da minha sala. Como? Onde? Aí é que está! Como ninguém me ensinou, acho que foi a olhar para os títulos dos jornais desportivos que o meu pai trazia para casa ao fim do dia, ou nas revistas que me apareciam à frente, ou até nos letreiros das montras e nos cartazes publicitários. Felizmente, as palavras estão por todo o lado. Eu olhava para elas e elas olhavam para mim como se me conhecessem. Talvez de uma vida anterior em que fomos felizes e vivemos uma história de amor"

Ao longo de todo o romance, o leitor agradece que as palavras estejam por todo o lado e tenham entrado neste romance juvenil. Apetece pegar no lápis e sublinhar todas as frases que fazem sentido e tocam o leitor, que encerram pensamentos e reflexões sobre assuntos que convivem diariamente connosco mas que nos passam ao lado pois vivemos a correr: "As crianças correm para a adolescência, os adolescentes correm para a vida adulta, e nem uns nem outros param para simplesmente ser. Estão sempre em trânsito, a caminho do que vão ser, e nunca chegam a ser aquilo que são". (página 45)

28 de abril de 2015

O QUE ACABEI DE LER

Depois de uma visita “às putas” (o termo é sobejamente usado ao longo do romance!) o jovem soberano não consegue tirar da cabeça o corpo nu da cortesã Marfisa. Mas, os severos costumes impostos pela Inquisição impedem-no de manter um relacionamento íntimo com a Rainha e de a ver nua. Com o apoio do padre Almeida, um jesuíta português, o único que revela um espírito crítico inteligente e uma mente esclarecida, o Rei vai contornar esta difícil situação. E, enquanto isso não acontece, toda uma intriga se tece na corte. 
A destacar: 
• a inocência do Rei: “Quero ver a Rainha nua. E afastou-se com o mesmo rosto pasmado, embora nas suas pupilas já brilhasse a esperança.» (pág. 38) 
• o despotismo da corte e do clero (pág. 23); 
• a hipocrisia da igreja (pág. 36, 40, 41…); 
• a ignorância: “Que espécie de insensatos são Vossas Mercês que assim se regozijam com o que pode trazer-nos calamidades, e as trará de certeza se não se lhe põe remédio? [...] Não é só o protocolo da corte que se opõe a semelhante disparate, também o impedem as leis de Deus e da Igreja. O homem pode aceder à mulher com fins de procriação e, se os seus humores lho exigirem, para os acalmar, mas nunca com intenções levianas, como seria a de contemplar nua a própria esposa.» 
• as proibições e inibições de caráter sexual que contrastam com o à vontade das cortesãs; até a arte onde se expõem corpos nus é proibida (pág. 24, 25) 
• a caça às bruxas e os autos de fé 
Um romance divertido, crítico, põe a nu, de forma hilariante, não só as mulheres mas também a podridão de uma sociedade ignorante, dominada pela Igreja. 
 “- Resta saber o que se entende por desgoverno – disse o padre Villaescusa. - Queimar judeus, bruxas e mouriscos; queimar hereges; atentar contra a liberdade dos povos; fazer os homens escravos; explorar o seu trabalho com impostos que não podem pagar; pensar que os homens são diferentes quando Deus os fez iguais… Querem Vossas Paternidades que prossiga a enumeração?
Tinham ouvido estupefactos o padre Almeida: todos, incluindo o Inquisidor-Mor.” (pág. 69)

18 de março de 2015

HORA DO CONTO NO JI DA DEVESA

Hoje, foi dia de levar um livro da minha amiga Manuela Ribeiro ao JI da Devesa, S. João da Madeira.
Castanho & Branco deixou as crianças muito entusiasmadas e, no final, concluíram que a amizade não tem cor. Afinal, as diferenças detetadas antes de abrir o livro, diluíram-se à medida que a história era cozinhada.




10 de fevereiro de 2015

HORA DO CONTO BEM DIVERTIDA!

Mais uma tarde divertida, passada com crianças, à volta do conto O santo guloso. Desta feita, a sessão foi na Heart Gallery, em S. João da Madeira.

29 de novembro de 2014

O QUE ACABEI DE LER


Mesmo num livro sem ninguém há tanta vida, tanta poesia e tanto que pensar. E tantos eus e tantos outros e tantos nós (pronome pessoal e nome comum contável).

“Qualquer estratégia tem poesia. As grandes coisas são simbolizadas por pequenas e as pequenas por grandes. Uma montanha pode servir para metáfora de uma rua, e uma rua para metáfora de uma montanha. Os aforismos dão nas árvores, mas as árvores também dão nos aforismos, tal como a sabedoria antiga serve a qualquer inovação: o sábio, para chegar a sê-lo, tem de aceitar a condição da ignorância e da simplicidade. Não há flores chamadas júlias?”
in Livro sem ninguém, Pedro Guilherme-Moreira, pág. 137

ENCONTRO COM PEDRO GUILHERME-MOREIRA

Foi assim, na última sessão do Clube de Leitura na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira. Fiz surpresa ao grupo e levei o autor de Livro sem ninguém, o livro do mês.
Foi uma grande noite cheia de gente e de palavras à volta de um Livro sem ninguém mas com muita vida dentro (e morte também, que faz parte da vida).





2 de agosto de 2014

SELFIES

 Selfies enviadas para o concurso Bibliofilmes

Estas foram as selfies tiradas na escola, pelos alunos, com os meus livros.








4 de fevereiro de 2014

FRASES QUE DÃO LIVROS

Tenho a mania de responder a desafios. Se são sobre livros, então, é ouro sobre azul.
O Rodrigo Ferrão, um dos dinamizadores do Clube de Leitores e do grupo Livros no Facebook, tem lançado alguns e eu não resisto. Os dois último valeram-me dois livros que acabei de receber.



1º desafio: Se fosse um lobo... como seria?
"Seria o lobo culto, criado por Pascal Biet. De desafio em desafio, da escola para a biblioteca e da biblioteca para a livraria, trocaria a comida enfadonha pela leitura deliciosa."

2º desafio: Se pudesse, que livro roubaria? Porquê? 
"Gostaria mesmo era de roubar um livro ainda não publicado, o livro que estará a ser terminado pelo meu escritor preferido. Sim! Hoje quero ser egoísta, ser a primeira a ler esse livro que ainda não o é, e ser eu a escrever o último capítulo."

27 de maio de 2013

ENCONTRO COM AFONSO CRUZ



Hoje, Afonso Cruz esteve em S. João da Madeira. De tarde, na escola Oliveira Júnior e, à noite, na Biblioteca Municipal com o Clube de Leitores.
Afonso Cruz é escritor, ilustrador, realizador de filmes de animação e compõe para a banda de blues/roots The Soaked Lamb. É um homem multifacetado que adora viajar e conhece mais de sessenta países. 
Em 2008, publicou o seu primeiro romance, A Carne de Deus: aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites e, em 2009, Enciclopédia da Estória Universal, galardoado com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco - APE/Câmara Municipal de Famalicão. São seus, também, Os livros que devoraram o meu pai (Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009), A contradição humana (Prémio Autores 2011 SPA/RTP; seleção White Ravens 2011; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011), A boneca de Kokoschka, Jesus Cristo bebia cerveja e O livro do ano.

25 de abril de 2013

O QUE ACABEI DE LER

Conhecia Philip Roth de nome mas nunca tinha lido nada dele. Li, agora, dois de uma assentada: A humilhação e Indignação.
Em relação ao primeiro, a palavra certa para definir o conteúdo do romance é tragédia. A tragédia da vida, a tragédia da perda: juventude, autoconfiança, amor.
Quando se perde a magia e se esgota o ânimo, vem a humilhação. Axler, um famoso ator, já não consegue representar, a sua reputação está em causa, a sua vida familiar desmorona-se, o vazio da sua vida aterra-o e a crise da idade leva-o a procurar internamento psiquiátrico. Apenas o desejo erótico e o relacionamento com uma mulher, vinte e tal anos mais nova, o revitalizam e o fazem sentir de novo que a vida tem magia. Mas os planos são o que são e nem sempre é possível concretizá-los e a humilhação regressa. E Axler acaba como sempre viveu: num palco a representar a sua própria tragédia!
Um romance forte, sem tabus nem preconceitos, onde temas como os abusos sexuais a menores, a homossexualidade, o divórcio, o amor e o sexo, a esperança e a frustração, o suicídio são postos a nu e abordados com frontalidade e crueza, até. 
Roth marca de uma forma pesada. Ler um romance de Roth implica ficar muito tempo a digeri-lo num debate com as personagens tão intensas que até parece que gostam de chicotear o leitor. Mas o leitor de Roth é masoquista (pelo menos esta leitora é) e gosta de levar pancada psicológica e de viver a vida das personagens como se fossem a sua vida, num enorme prazer da leitura que se prolonga para além da leitura do livro.

24 de março de 2013

O QUE ACABEI DE LER


Luísa, Alda, Duarte. Três vidas que se cruzam, entrecruzam e enredam. Fios tecidos num nó que se aperta, à medida que a narrativa avança, e se torna cada vez mais difícil de desatar. 
Alda não vive o presente, finge; agarrada a um passado recente, recusa sair da vida do marido precocemente falecido e desperdiça a sua vida no álcool. 
Duarte esconde um passado (também desperdiçado no álcool), para viver o presente sóbrio mas sem coragem para entrar na vida de Luísa. 
Luísa quer entrar na vida dos dois e sofre porque ambos enfrentam problemas que os impedem de entrar na sua.  
Um livro intenso que põe a nu o sofrimento das pessoas que vivem na dependência mas também daqueles que as rodeiam e tentam ajudar. Um livro que se agarra ao leitor. Um hino à amizade.
“Disseste que devemos escrever as falhas dos nossos amigos na areia.
Citavas Pitágoras, e eu fiquei impressionado.
Perguntei-te se seria à beira-mar, e tu, muito convicta, reforçaste a ideia.
- Claro!
Depois, reflectiste:
- Em qualquer sítio, no deserto, nas dunas, o efeito é o mesmo. Desaparecem, é isso que devemos fazer às falhas dos nossos amigos.” (pág.136)

20 de março de 2013

O QUE ACABEI DE LER


No diário de uma menina, que leva um jardim enorme na cabeça e dança com a língua à volta das palavras, entrou a primavera, entraram flores e borboletas, entraram palavras, lisas e macias como seixos, atiradas aos pombos. Entrou a poesia. Entrou a luz (num livro a preto e branco) e entrou a vida.
Melhor do que falar do livro é ler as suas palavras. Este é, seguramente, o livro do ano.

8 de dezembro de 2012

O QUE ACABEI DE LER

Para caracterizar Cafuné, o novo livro de Mário Zambujal que, num mês, chegou à segunda edição, usaria: 
Um adjetivo: divertido 
Dois nomes: humor e malandrice 
Três verbos: brincar, gargalhar, viajar (pela História de Portugal) 

Estilo inconfundível e elegante de um autor que gosta de contar peripécias de bons malandros sem que lhe fuja o pé para a chinela: “Só recorda que, sem dar por isso, toda a roupa lhe voara do corpo, aliás, digno de ser visto. Com estranheza se lembrava da passividade, feita de estupefacção, com que deixou andar, e como o bruto roncava encavalitado nela. Assim se foram os três vinténs.” pág. 88 “E também a fidalga tacteou, na zona proscrita em que um homem pode crescer de um momento para o outro.” pág. 88 
Rodrigo é um dos bons malandros, “rapaz parco de posses, se bem que rico em fantasias”. Sofre de “incontinência em matéria de mulheres” (pág. 98) pelo que não lhe escapa um rabo de saia: “Era Rodrigo um rapagão de dezassete anos incompletos mas de largo excedia a estatura do típico português da época. O defeito que se lhe apontava, se defeito podemos chamar à fisiologia de cada um, era o excesso de testosterona, manifestado com exuberância logo no estoirar da puberdade. Testosterona é nome feio e de pouca circulação coloquial. Na sua infinita sabedoria, o povo trocou por miúdos as consequências e assim nasceu o explícito vocábulo tusa.” pág. 33 “Em fase de insuportável privação, Rodrigo recorria ao afamado bordel de Deodata Nalguda.” pág. 34 
Esta sua característica vai conduzi-lo a constantes situações de fuga: “Descansado, todavia, não ficaria ele. Olhar em volta tornou-se precaução habitual, fosse pela zona de Belém ou por lugares mais afastados, como o Chiado e o Bairro Alto.” pág. 75 
No entanto, Rodrigo conhece um ex-frade que se vai tornar o seu mentor espiritual, “tão severo quanto ao uso de termos impróprios e crítico das tentações de Rodrigo, não deixava o antigo frade de estimar tudo quanto fosse beleza, quer se tratasse de flor, pôr-do-sol, quadro, poema ou mulher.” pág. 92 
Narrativa com cruzamento de tempos, cheia de analepses e prolepses: “E nem a cigana húngara que lhes lia as sinas previu que haviam de encontrar-se com um rapazola, pescador no Tejo.” pág. 73 

Um senão, quanto a mim: a personagem principal mantém-se todo o tempo igual a si própria.  Rodrigo é um mulherengo assumido e o leitor espera (pelo menos esta leitora esperou ao longo de toda a estória!) que aconteça, a determinado momento da narrativa, algo que lhe modele a personalidade leviana. Tal não acontece. 

É, no entanto, um romance bem-disposto que dispõe bem o leitor.