Este exercício consistia em usar as palavras sublinhadas (fornecidas 5, estas eram associadas a outras e as 10 tinham de ser incluídas). Não havia limite de palavras para a história mas as 77 vieram naturalmente...
Saiu assim:
Quem lhe concedeu poder para reinar com tanta autoridade?
Ela usa o cargo para uma subida abrupta na empresa, como elevador num prédio de cinquenta andares. E nem sequer se apercebe do medo que está a plantar e a provocar tempestades destruidoras de todo o otimismo.
Agora, todos os dias são dias de lentidão porque são sofridos. E é a passo de tartaruga que saímos de casa para trabalhar. Já não há espírito brincalhão. Morreu. Ela matou-o!...
Mostrar mensagens com a etiqueta 77palavras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 77palavras. Mostrar todas as mensagens
13 de outubro de 2016
30 de setembro de 2016
LINHA 111
- Bom dia, linha 111, achados impossíveis. Como posso ser útil?
- Estou em pânico! Desespero total! Preciso de ajuda urgente! Perdi as ideias. Todas. Não sei onde as deixei, nem onde procurá-las. Não sei o que fazer!
- Vá com calma, tudo tem solução!
- Onde? Como? Quando? (gritos….)
- Vá à internet, procure o blogue 77 palavras. Lá, encontrará todas as ideias fantásticas. Apenas se arrisca a ganhar outro problema: dificuldade em escolher. Mas, para isso, pode usar outra linha!...
24 de setembro de 2016
ESCOLA CINZENTA
Na sacola, o livro e a lousa. No bolso da bata, o elástico para saltar nos intervalos. Na cabeça, os sonhos. E a vontade de conhecer o mundo.
Mas, aprender era saber de cor todos os rios, montanhas e caminhos de ferro de Portugal (províncias ultramarinas incluídas!). Era saber rezar e costurar. Era aguentar as reguadas. Era interiorizar a passividade da mulher. Era prestar vassalagem aos ditadores que, nas molduras da parede, nos vigiavam.
Cinzenta escola, essa!
1 de setembro de 2016
À ESPERA DO FIM
Deitada na cama à espera do fim, Adriana ralhava com a vida por não ter cumprido o tratado: viver até aos 100. Cabeça e tronco doíam-lhe como se um martelo a espancasse, mas o problema não tinha solução. Queria encontrar um refúgio onde não a encontrassem ou a deixassem, pelo menos, pensar. Sempre contornou os espinhos das rosas com que compôs os ramos que fazia. O que não contornava, agora, era a doença e a família desmembrada.´
Desafio nº110 da Margarida Fonseca Santos: palavras obrigatórias a negrito
29 de agosto de 2016
RELAÇÃO COMPLICADA
“Queres conhecer a felicidade?
Começa por te aperfeiçoares interiormente. Procura dentro de ti. Aprende a encontrar. Sê aquilo que buscas no outro. Cria. Sonha. Ousa mudar.”
11 de agosto de 2016
GASPEADEIRA DE SONHOS
Era uma aluna brilhante, a melhor da turma. Maria de Fátima gaspeava sonhos, mas o regime de ditadura rapidamente os descosia. E não adiantou o brilhantismo do exame da quarta classe. As suas mãozinhas infantis eram necessárias para fazer entrar o dinheiro que escasseava em casa. A escola só comportava gastos.
E foi assim que se empregou numa fábrica de sapatos onde tem arrastado toda a sua vida. É gaspeadeira*. Gaspeia o calçado, já não os sonhos.
*Gaspeadeira: operária que deita gáspeas em calçado
Gáspea: parte dianteira do rosto do calçado que cobre o pé, e é cosida, à maneira de remendo, à parte posterior.
7 de julho de 2016
"NE ME QUITTE PAS"
“Ne me quitte pas…”
A música entranhava-se-lhe. Assim que ela ouvia os primeiros acordes, todo o seu corpo estremecia, arrepiado. Cada nota coloria cada espaço cinzento do seu eu, naquela altura sempre acabrunhado. E, à medida que a melodia avançava, apaixonada, cálida, penetrante, vinha a libertação. Despejava todas as lágrimas acumuladas e, depois de anestesiados os aziagos pensamentos, perseguia ilusões, sonhos e fantasias. Voava, então.
Jacques Brel. O seu mestre. A sua salvação. A sua ordem interior.
24 de junho de 2016
ACEITARÁ O PEDIDO?
Época de santos populares tem de ser festejada. E ele pedi-la-á em casamento!
Chega o dia das marchas. As fogueiras crepitam e os balões matizam o ar, soprados pelo vento que veio para a festa. Os manjericos vaidosos ostentam as suas quadras e perfumam o pátio.
Muitas sardinhas e demasiadas canecas depois…
Estão no meio do bailarico e ele mal se segura. Ela não quer ficar solteira mas, casará com um homem que lhe pisa os pés?
12 de junho de 2016
EQUAÇÃO SEM RESOLUÇÃO
O seu casamento tornou-se uma equação sem resolução.
No início, somava o azul dos seus olhos com os sorrisos da sua boca de cereja e as suas vidas seriam retas paralelas a encontrarem-se no infinito.
Mas, números astronómicos em parcelas imensas formaram dívidas impossíveis de pagar. Depressa se tornaram num labirinto que multiplicou ressentimentos e os dividiu. Os cálculos continham erro, claramente. Dele? Dela?
Apagaria tudo e recomeçaria do zero. Só assim, tiraria a prova dos nove.
Desafio RS nº 38 – a matemática dos dias
22 de maio de 2016
QUE INVENÇÃO!
Inventaram-se naus que andaram por mares nunca dantes navegados.
Inventaram-se foguetões, naves espaciais, satélites que andaram por espaços nunca dantes percorridos.
Inventaram-se máquinas, engenhos que curaram doenças nunca dantes curadas.
Eu só quero inventar uma simples caixa com botões, como as máquinas que vendem bebidas. Por cada botão teclado, sai paciência, sai tolerância, sai honestidade, sai educação, sai respeito, sai concórdia. Máquina inesgotável. Tudo grátis!
O mundo inundar-se-ia, então, de uma luz nunca dantes tão claramente vista.
invenção que muda o mundo
14 de maio de 2016
LÁPIS ESPECIAL
Nasci precisamente na altura em que a fábrica centenária ia fechar. Pertenci ao último grupo fabricado, uma remessa especial, destinada a clientes especiais. Levados para o escritório, inadvertidamente caí e rolei para debaixo de um armário. Quando, meses mais tarde, despiram a fábrica, alguém me encontrou. Observou-me com olhos de água transparente. Guardou-me.
Esse alguém morreu ontem. Encontraram-me na sua secretária, pequenino, gasto, encaixado nas páginas do caderno onde escrevera todos os seus poemas. O país chora-o.
SÓ O ESPANTO ABRE PORTAS AO SONHO
O microconto "Só o espanto abre portas ao sonho", baseado numa frase de Mia Couto, foi lido pela escritora Margarida Fonseca Santos, na Rádio Sim. Ouvir aqui.
29 de abril de 2016
LISTA DE COMPRAS...
Numa mão vai o carrinho
Na outra o papelinho
Nada poderá faltar
P’ra não ter de cá voltar.
Leite, azeite, vinho e mel
Para o pão de ló: papel
Açúcar, farinha e sal
Que lista tão trivial!
Massas, cenouras, verduras,
tomates, frutas maduras,
iogurtes, chá e café.
Vou p´ra caixa. Que banzé!
Já em casa, vamos lá,
pois então, fazer o bolo,
a receita aqui à mão.
Oh! Que grande desconsolo!
Os ovos… onde é que estão?
Desafio Escritiva nº 7 – as listas (no blogue da Margarida Fonseca Santos)
Na outra o papelinho
Nada poderá faltar
P’ra não ter de cá voltar.
Leite, azeite, vinho e mel
Para o pão de ló: papel
Açúcar, farinha e sal
Que lista tão trivial!
Massas, cenouras, verduras,
tomates, frutas maduras,
iogurtes, chá e café.
Vou p´ra caixa. Que banzé!
Já em casa, vamos lá,
pois então, fazer o bolo,
a receita aqui à mão.
Oh! Que grande desconsolo!
Os ovos… onde é que estão?
Desafio Escritiva nº 7 – as listas (no blogue da Margarida Fonseca Santos)
4 de abril de 2016
AMANHÃ
A vida não deveria ser isto.
O despertador toca sempre à mesma hora. Toma sempre o mesmo pequeno-almoço. Apanha sempre o mesmo autocarro, vê sempre os mesmos rostos. No ateliê de costura, atende sempre as mesmas clientes. Que já estão a ficar velhas, por sinal. E novas não entram. Sabe que tem de mudar, de se atualizar, de comprar revistas modernas. Sabe que não pode continuar a fazer os modelos do século passado.
Amanhã será diferente.
Amanhã.
Desafio nº105 da Margarida Fonseca Santos, baseado na frase de Einstein "Não há maior demonstração de insanidade do que fazer a mesma coisa, da mesma forma, dia após dia, e esperar resultados diferentes.
21 de março de 2016
SÓ O ESPANTO ABRE AS PORTAS AO SONHO!
"O homem que vive em espanto deixa portas abertas no sonho." - Mia Couto
ilustração de Helena Veloso (in Porto Porto)
Sempre viveu espantada de existir. Um dia teria de descer à terra, não podia viver toda a vida nas nuvens. Podia ter escolhido um percurso mais rápido, um simples estalar de dedos para acordar. Mas não! Escolheu um fio para ir balançando os sonhos e começou a descida. Verificou que o fio não chegava ao solo, inverteu a marcha e regressou ao seu mundo. Aí, sim, continuaria no espanto. Só o espanto lhe abria portas ao sonho!
Desafio RS nº 34 da Margarida Fonseca Santos – frase de Mia Couto
7 de fevereiro de 2016
NADA MAIS A FAZER!
Os anos passaram, agora já era tarde. Nada mais havia a fazer.
Se tivesse evitado, se não tivesse passado, propositadamente, naquela rua (onde, bem sabia, o encontraria), não se teriam cruzado e não teria aberto a ferida.
Os seus olhos suplicaram amor; da sua boca, apenas saiu um simples olá. De nada adiantaria falar. Ele tinha dado um rumo à sua vida que não a incluía.
Agora, restava a saudade do passado feliz que ela deixou escoar.
1 de fevereiro de 2016
QUE FILA SE FORMOU!
Tangerinas! Só queria comprar tangerinas!
Entro no supermercado, encho o saco com as ditas, vou pesá-las na balança self service. Digito o número correspondente mas não sai ticket. Volto a digitá-lo. Nada! Tento outras vezes. Nada! A fila formada atrás de mim já vai longa. Um cliente decide ajudar. Em vão. Chamo uma funcionária, já gastei tempo desmedido.
- Teclei o número e não sai papel!
- Teclei o número e não sai papel!
- Que número?
- 185.
- Esse não é o número, é o preço! LOL!
uma história de enganos: desafio RS nº 33 da Margarida Fonseca Santos
21 de dezembro de 2015
É NATAL! É NATAL!
Aquele farrapo de homem arrastava-se pela rua deserta fustigado pelo vento e pela chuva. Mendigava amor. Mas, nem uma mão estendida, nem um abraço se via. O temporal recolhera toda a gente no seu egoísmo. As montras pareciam insultá-lo, com tanto brilho dourado e azul prateado a contrastar com o seu magro rosto vermelho de frio.
Não houve ninguém para lhe perguntar se estava bem ou mal.
E os sinos tocavam. É Natal! É Natal! É Natal!...
usar as palavras vento, chuva, amor, vermelho, azul, rua
22 de novembro de 2015
FARTOS DE DITADURA!
- Que diabo de velha com mania das limpezas! Estou farta!!! Vou fazer greve!
A velha pegou na desgastada vassoura que se recusou a varrer. Tachos, panelas e frigideiras, fartos de tanta esfregadela, começaram a pular de alegria, batendo as tampas, solidários. Não se suportava o barulho naquela casa.
O galo decidiu entrar na festa. Para que a velha não lhe cortasse a voz de tenor, como estava previsto, decidiu enlouquecê-la de vez, comandando a ruidosa manifestação:
-Cocorococó!
Desafio: greve na cozinha
Desafio Escritiva nº 2, blogue 77palavras de Margarida Fonseca Santos
NOTA: versão reduzida do meu conto (não publicado) "A vassoura que desvassourou)
2 de novembro de 2015
POR ISSO ME ESCREVI...
Fazer soltar palavras adormecidas é tarefa de herói.
Eles mostram-se renitentes, escusam-se a usá-las pois são muito novos, inexperientes. Primeiro, têm de encontrar as palavras certas na densa floresta onde habitam. Depois, têm de aprender a acariciá-las e beijá-las (como príncipe que desperta a Bela Adormecida), devagarinho, para não estremunharem nem estranharem sair do sono profundo.
Foi assim que tudo começou. Ensinar os jovens a escrever. Provocar. Insistir. Não desistir.
E foi por isso que me escrevi.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






