26 de janeiro de 2014

O MURO

Hoje, sentada frente ao computador, depois de ter encontrado antigos alunos numa rede social, decidi dedicar uns minutos à limpeza da alma... Recordar. Reviver momentos duros mas que me tornaram mais humana, mais sensível e mais tolerante. 
As recordações levaram-me a um tempo, algures entre o espanto e o medo, entre a impotência e a esperança. 
Era a primeira vez que me atribuíam uma turma assim. Eram quinze. Quinze vivências complicadas, quinze problemas. Mas um sobressaía: o problema maior. 
Luís era um rapaz de doze anos mas não era um rapaz como qualquer outro. Doze anos e tanta mágoa acumulada! 
Tinham-lhe amputado a infância! Não aprendeu a brincar, nem a conviver, nem a conversar, nem a ser ouvido. Nunca ouvira a voz carinhosa duma mãe, nunca vira o sorriso de orgulho de um pai, nunca escutara uma história no aconchego dos lençóis. 
Luís era filho do álcool, não aprendeu a alegria! Luís não aprendeu a ser gente. Luís apenas sabia ser um bicho que não sabia comunicar com adultos a não ser a pontapé. O bicho não falava, não sorria, apenas grunhia. O mundo tornara-se-lhe tão escuro, tão medonho, tão… injusto (?)! 
E agora? O que lhe exigia a vida? Uma escolaridade obrigatória de nove anos. Seis já estavam passados. Mal passados, convenhamos, pois ele não aprendera a ler nem a escrever uma linha que fosse. A sua vida, de poucos anos mas muito vivida, tornou-se um puzzle de cor negra composto por peças macabras: pai violento, dois irmãos, bem mais velhos, toxicodependentes e regularmente detidos por assaltos e posse de droga, incompreensão. E, provavelmente, muitos porquês para confundir ainda mais o puzzle! 
E aquele rapaz decidira transformar-se no terror da escola. Todos fugiam quando ele aparecia. Ninguém queria vê-lo, brincar ou conversar com ele. Desconhecia o que era receber uma carícia, um beijo, uma festa nos cabelos, um segredo. 
Não poderei esquecer o dia em que entrou na sala de aula e atirou um pesado pau para o ar. Por sorte, o pau caiu no quadro. Teria rachado a cabeça de alguém se nela tivesse caído. 
Nem poderei esquecer o dia em que foi apanhado a assaltar o bar. 
Nem os dias em que se metia em zaragatas. 
Nem os dias (todos) em que havia queixas dele. 
Mas também não poderei esquecer o dia, meses passados, em que consegui derrubar alguns tijolos do altíssimo muro que o Luís tinha construído à sua volta. Foi o suficiente para poder espreitar para dentro dele e ele permitiu-me entrar. Concordou comigo. O muro era a sua defesa. Cresceu a defender-se da vida. Não confiava nos adultos porque os adultos que deveriam ser a sua referência agrediam e agrediam-se. 
E, depois dessa curta conversa, ambos sentados num banco do polivalente, o Luís prometeu que me iria facilitar a vida, como diretora de turma, e não me arranjaria mais problemas. 
(Ainda hoje estou convencida que, nesse dia, ele se sentiu um cãozinho rafeiro abandonado, feliz porque alguém lhe permitiu enroscar-se nas pernas!...) 
O Luís cumpriu a palavra e facilitou a minha vida. Mas escolheu a pior maneira de o fazer: deixou de ir a quase todas as aulas. Assim, não haveria queixas, nem suspensões, nem problemas. 
Falhei! Não consegui convencê-lo a frequentar as aulas. E ele continuava a achar que, só assim. Só assim não iria incomodar. Só assim os outros poderiam ter sossego. 
- Fazer o quê nas aulas? Olho para a porta e até me apetece trincá-la! – dizia com os olhos a faiscar. 
E o conselho de turma tinha mais catorze a quem dar atenção individualizada. Cada um era especial e único. Todos diferentes mas todos iguais na postura face à escola. 
O Luís reprovou o ano, claro! Contra a minha vontade, claro! Quatro páginas de ata a argumentar a favor da sua transição, para poder acompanhar a turma, agora que estava menos agressivo, não foram convincentes. 
No ano seguinte, não houve currículo alternativo e o Luís foi integrado numa turma de currículo normal. O Luís nunca compareceu, claro! Esperava-se! 
E os dias passaram. O Luís vivia na mesma cidade que eu, encontrava-me na rua e vinha ter comigo. Pedia-me uma moedita para um café (café?!!!) e eu dava-lha. Se estivesse acompanhado de algum colega, apresentava-me como sendo a sua professora. E sorria. A última vez que lhe vi um sorriso, vi-lhe a falta de dentes. E ele não tinha mais de vinte anos! 
Agora, anos passados, o Luís já cá não está. 
Não foi notícia de jornal nem de telejornal. 
Atropelado, disseram uns. 
Overdose, disseram outros.

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